A poesia e o poema do RN: momentos decisivos

Por Marcel Lúcio*

A obra A poesia e o poema do Rio Grande do Norte, publicada originalmente em 1979 e relançada em 2014 pela editora do Sebo Vermelho, apresenta uma contribuição valiosa para o estudo da literatura potiguar. Seu autor é Moacy Cirne, poeta-processo, crítico literário, estudioso de história em quadrinhos, professor universitário, um homem com um talento poliédrico que infelizmente deixou o plano terreno no ano passado.

Utilizo bastante os escritos de Moacy Cirne na minha atividade docente, principalmente, para responder a uma questão que surge frequentemente nas aulas sobre literatura (e também em conversas com os companheiros do espaço acadêmico): “Existe uma literatura do RN?”. Vou tentar responder aqui a essa indagação provocativa a partir das observações de Cirne no mencionado livro.

Sempre temos uma dificuldade enorme na universidade de perceber a produção do RN como um sistema literário, estrutura que possui autor, obra e público dialogando entre si ao longo da história. São defendidas as teses da descontinuidade e das manifestações isoladas como contrapontos à ideia de uma literatura do RN. Em A poesia e o poema do Rio Grande do Norte, o múltiplo Moacy Cirne constrói um cânone/contracânone para a produção poética do RN, interligando poetas e assinalando os momentos decisivos do poemário norte-rio-grandense.

A poesia e o poema do Rio Grande do Norte é uma obra composta por cinco ensaios (na primeira parte) e por um projeto para uma antologia radical para a poesia do RN (na segunda parte). Dentre os ensaios, há um que se chama “De Jorge Fernandes ao poema-processo”. Neste, Cirne aponta que existem dois momentos de maior plenitude para a poesia do RN: a publicação do Livro de poemas de Jorge Fernandes em 1927; e o lançamento local da poesia concreta em 1966, com seu posterior desdobramento no poema-processo.

Antes de pontuar mais detalhadamente os elementos relativos ao poemário potiguar, Cirne apresenta o aporte teórico para o ensaio. Assim, observa aspectos sobre o conceito de vanguarda (a diferença que há da aplicação do termo na Europa e no Brasil, pois, no Brasil, o termo engloba a prática artística e social, enquanto que, na Europa, é observado apenas o aspecto estético) e a distinção entre poesia (sensação abstrata despertada pelo texto) e poema (o texto em sua forma concreta, ou seja, conforme se apresenta em seu aspecto gráfico e visual).

Voltando a tratar dos períodos decisivos para a produção poética do RN, Cirne assinala que, com a obra de Jorge Fernandes, o Rio Grande do Norte inseriu-se na prática literária modernista em evidência naquele contexto histórico (anos vinte do século XX). Por isso, afirma que: “A poesia do Rio Grande do Norte, a rigor, começa com Jorge Fernandes. Isto é a poesia entendida como produção de signos concretos (no caso, verbais), em busca de uma dada linguagem fundada no ato poético da invenção literária”. Podemos notar na escrita de Jorge Fernandes a utilização de onomatopeias, a exploração do aspecto gráfico do poema, como ocorre no famoso poema “Rede”, e a crítica à estética parnasiana.

Jorge Fernandes rompeu com a “tradição mofenta” dos poetas que utilizavam os versos lineares/discursivos na província e sequer perceberam a revolução da Semana de Arte Moderna de 1922. Depois do caminho aberto por Jorge Fernandes, destacaram-se: nos anos 30 e 40, José Bezerra Gomes, que cultivou a linha oswaldiana, atingindo uma dimensão nacional com sua poesia sintética; e Zila Mamede, que provocou um impacto produtivo na poética do RN com a publicação de O arado (1959), obra que apresentou uma poeta capaz de realizar invenções linguísticas inovadoras, como as que Guimarães Rosa realizou na prosa.

Em 1966, ocorreu a exposição-homenagem em Natal dedicada aos dez anos da poesia concreta. Até então, apesar das inovações dos anos vinte, a poesia era tida como expressão de sentimentalismo, Cascudo era a grande expressão cultural da cidade do Natal, o “impressionismo literário” predominava nas críticas publicadas nos jornais da época, desconhecia-se na província a poesia concreta. A insatisfação de jovens poetas com o cenário descrito motivou a organização da exposição. Assim, a poesia concreta chegava a Natal com dez anos de atraso por meio do manifesto “Por uma poesia revolucionária, formal e tematicamente”, assinado por Anchieta Fernandes, Jarbas Martins, Moacy Cirne, dentre outros. “Na ocasião, Nei Leandro de Castro lançou um poema decisivo para a vanguarda norte-rio-grandense: o 1822, colagem de marcas de produtos estrangeiros constituindo a data de nossa independência”; Anchieta Fernandes publicou o poema Pedro Pedra. E, assim, como fez Jorge Fernandes no contexto dos anos vinte, os poetas dos anos sessenta rompiam com o provincianismo e abriam as portas para o lançamento do poema-processo que aconteceria simultaneamente em Natal e no Rio de Janeiro no ano seguinte (1967)…

Ao traçar o percurso do poema nas letras potiguares ao longo do século XX, Moacy Cirne consegue provar que há uma continuidade entre os momentos da literatura do RN e, consequentemente, responder positivamente à pergunta formulada anteriormente: “Sim, existe uma literatura do RN!”. E, desse modo, a obra A poesia e o poema do Rio Grande do Norte se constitui como referência fundamental para os estudiosos e curiosos sobre a produção literária em solo norte-rio-grandense.

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 27 de fevereiro de 2015 1:05

    Que belo texto.
    Muitas informações boas.
    Artigo de grande utilidade.
    Parabéns professor Marcel.

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