Poesia que abraça todo um povo

Por Ticiano Duarte
NA TRIBUNA DO NORTE

Laélio Ferreira de Melo me brindou com o excelente, “Othoniel Menezes” – Obra reunida por ele, o filho, seu fiel admirador, selecionada, revisada e competentemente anotada. O poeta, cantor maior deste pedaço de nordeste sofrido, de mensagem ondulante e múltipla que o consagrou ao celebrar, o “Sertão de espinho e de flor”, a “Ara de fogo”, “Abysmos” ou “A cidade perdida” – absolutamente adorável, deixando o coração falar à vontade.

Nos idos de 1950, era repórter do “Diário de Natal” e o “Poty”, e o secretário de redação, Veríssimo de Melo, designou-me para entrevistar Othoniel Menezes, então residente à Rua Correia Teles, na Cidade Alta. O título da reportagem escandalizou a população, ao denunciar que o poeta estava morrendo de fome. Ele mesmo fez questão de expor de público o estado de privação a que estava sendo submetido, abandonado pelos seus amigos que estavam no poder e lhe tinham prometido dar solução aos graves problemas que o afligiam, da falta de recurso necessário para atender suas necessidades materiais urgentes, para sobreviver com a família, dignamente.

Newton Navarro levantou a voz de protesto: Cidade ingrata esta, que deixa que os seus poetas morram de fome. E Veríssimo de Melo fez coro a indignação do outro bardo, incentivando o Lions Club de Natal a conceder-lhe um prêmio de dez mil cruzeiros, o que ocorreu, em 08 de agosto de 1956.

Aliás, há um texto primoroso de Othoniel, “O drama da vida na província”, em que diz que, “Com o pecado original de haver nascido na Esquina, tinham vencido, Rodolfo Garcia “ex-diretor do Museu de História Nacional e da Biblioteca Nacional. Membro da Academia Brasileira de Letra); Antônio de Souza (ex-governador do Estado e escritor); Peregrino Junior e seu irmão Humberto Peregrino (o primeiro membro da Academia Brasileira de Letras e o segundo, também escritor, coronel do exército e membro da Academia Norte-riograndense de Letra); Angyone Costa (Jornalista, professor, arqueólogo, etnógrafo, antropólogo, ensaísta, etc. Laélio nas suas anotações destaca ser escritor mais lido nos meios acadêmicos); José Wanderley, que conheci pessoalmente, amigo de mocidade do meu pai, autor teatral consagrado, suas peças fizeram sucesso nacionalmente; Nilo Pereira, Adauto Câmara, José Bezerra Gomes, Abner de Brito, entre outros.

Morar na Esquina, Laélio informa que era um dos apelidos que Othoniel dava ao Rio Grande do Norte, notadamente a Natal, em função da posição geográfica no mapa do continente. E acrescenta: “Foi o primeiro a chamar Natal de Jerimunlândia. Outros topônimos da capital: Cidade dos Reis, Cidade de Santiago, Natalópolis, Nova Amsterdã, Trampolim da Vitória, Londres Nordestina e Cidade Espacial”.

Sempre me encantei com a poesia de Othoniel. Quando sua voz e seu canto calaram, o Rio Grande do Norte ficou menor, tal a força dos seus versos, a beleza harmoniosa do cântico diverso, da eterna música das coisas, de que falava Raul de Leoni. Ele disse, num momento poético alto, que a glória que aspirava – a única – e que havia de ser sua túnica, “mais sagrada que a de um rei, posse intangível” se plantava na alma do povo – “que canta as canções que lhe ensinei”.

Foi realmente o príncipe dos nossos poetas. Henrique Castriciano, que prefaciou o seu livro “Gérmen”, de 1918, no início de sua carreira, disse entre outras coisas: “seus versos de inexcedível harmonia: Lendo-os, o espírito imerge na suavidade do sol-posto e nas recordações do pretérito, saturado de tristezas de tarde evanescente e da noite invasora”.

Cascudo, prefaciando “Sertão de espinho e de flor”, disse que era um grande livro, “espelhante de verdade de indignação sagrada… e citando Walt Whitman – “quem tocar esse livro abraça todo um povo”.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 3 de julho de 2011 10:56

    Somente agora recebi o volume da Obra reunida de Othoniel Menezes, que me foi enviado por Claudio Galvão. A edição ficou muito boa, Laelio e a Editora estão de parabens. Quando eu acabar a leitura, comentarei o material – que conhecia, antes, apenas de forma fragmentada e mesmo parcial.

  2. Lívio Oliveira 1 de junho de 2011 12:08

    Quero afirmar – com todo o despojamento, humildade e a sinceridade que ainda existem em mim – que Laélio prestou um imenso e digno serviço à cena literária e cultural do Rio Grande do Norte, uma “jogada de mestre”, ao recompor e reunir (inclusive, enriquecendo com notas e comentários, certamente pertinentes e com a agudeza de inteligência usualmente demonstrada) a obra imortal do seu pai, Othoniel Menezes.

    Eu sempre desejei ter esse livro em mãos (e sempre o afirmava expressa e publicamente a Laélio), para conhecer melhor e profundamente a obra desse ícone dentre os poetas potiguares. Infelizmente, ainda não consegui adquirir o volume (por sinal,vejo pela imagem acima, que foi muito bem apresentado editorialmente pela “Una”, de Marize).

    Não estou sabendo em que livrarias se encontra. Mas, vou continuar a busca.

    O texto de Ticiano fica, então, como um bom aperitivo do que será a leitura real e o debruçar sobre o livro.

    E eu não podia mesmo me desobrigar (sob pena de me reconhecer como um pobre de espírito) desse reconhecimento expresso à bela obra presenteada ao combalido RN.

    É o que firmo.

  3. Jarbas Martins 1 de junho de 2011 11:20

    Belo testemunho, Ticiano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo