Poesia…que bicho é esse?

De antemão, vou logo avisando aos queridos leitores e leitoras que não poderei – até mesmo porque não sei – responder a pergunta que encima o meu texto. Sou um poeta e, convicto disso, não entendo muito acerca do significado teórico da poesia. Nem quero. Apenas me vejo buscando-a incessante e permanentemente. E penso mesmo que às vezes a encontro, juntamente com a beleza que a caracteriza – essa mesma, a grande meta que elegi. Então, fico feliz, mesmo que por átimos.

Também vou logo dizendo que a poesia pode ou não estar no poema. Pelo que tenho lido ultimamente, a frequência da poesia em visitas aos poemas da contemporaneidade não é lá muito regular. Mas, quem sou eu pra concordar com isso, vez que também faço uso, neste tempo de múltiplas algaravias, desse instrumentozinho cheio de palavras e símbolos chamado poema? Ora, já gastei tanta tinta real e virtual nisso! Recebo pancadas, elogios e “elojoios” quase todo dia. Em verdade, admiro-me quando consigo encontrar poesia verdadeira nos meus escritos ou de outrem. Poesia é experiência e faço contínuos esforços. Eis que, de repente, consigo vislumbrá-la. É quando a poesia aparece toda nuazinha diante de mim, com seus cabelos longos. Um êxtase, claro!

Confesso ainda que participei algo assustado das comemorações do Dia Nacional da Poesia, em Natal, na derradeira sexta-feira. As fundações culturais, universidades e outras instituições e não-instituições da cidade (re)abraçaram a ideia com um entusiasmo tão raro que me deixou perplexo. Mas, terminei vendo e ouvindo coisas fantásticas no campo poético: homenagens, premiações, destaques ambivalentes na imprensa escrita, falada e televisionada, lançamentos de livros, shows, conferências, debates, performances; além das amplas comemorações também refletidas na internet como retrato atual – mesmo que reducionista – disso tudo. E a revisitação do passado e da tradição, trazendo mais elementos de discussão e reflexão. Vi até, com algum deleite estético aqui e acolá, a publicação de muitos, muitos poemas em todo canto.

Fiquei feliz também por encontrar, na véspera das comemorações, um público amplo e heterogêneo – porém afinado e interessado – em palestrinha amistosa que proferi a convite do valoroso SESC/RN. Ali também fizemos uma das primeiras homenagens a Dosinho, uma vez que naquele instante ficamos sabendo de sua despedida das lides terrenas. Valeu, Dosinho, nosso grande e imortal compositor e poeta!

Ando pensando ainda sobre uma série de opiniões e palavras de ordem que ouvi na algaravia da sexta-feira poética. Eucanaã Ferraz (FOTO), ao prestar homenagem a célebres poetas brasileiros na Capitania das Artes, num certo momento de sua etérea, levemente tensa e instigante apresentação, falou acerca de uma época, uma fase de “transição poética”, que estamos vivenciando. Faltou descrever e caracterizar quais os elementos que se fazem componentes dessa transição. Certamente, aspectos políticos, sociológicos e – principalmente, talvez – tecnológicos (vide a internet e seus desenlaces que ainda estão se dando em todos os campos).

Gostei imensamente também do debate acerca da “poesia marginal” na Fundação José Augusto. Joguei para a brilhante mesa uma reflexão que já havia colocado no Facebook. Recebi várias respostas. E cheguei a uma única conclusão: não sei o que é poesia marginal nos tempos atuais. Talvez a poesia, de per si, já a seja. E todos nós poetas somos também. Uns marginais, num sentido filosófico amplo. É o que somos. É o que podemos… e devemos ser. Só assim há poesia autêntica. Somente assim há subversão da linguagem e da história, transformando-as. E o poema será sempre apenas um elemento, um veículo para esse bicho sagrado, essa santa marginalidade chamada POESIA.
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Texto também publicado no jornal Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Rafael Duarte 15 de Abril de 2014 15:29

    Boa tarde, Lívio! Me arruma um contato (telefone ou email) pois preciso falar contigo. Abs, Rafael. Se puder me liga: 9654.9404 (Tim)

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