Poesia salva do incêndio (O desafio)

O filme O desafio, de Paulo Cesar Saraceni, foi lançado em 1965, um ano depois de se iniciar longo período ditatorial na política brasileira que, todavia, ainda não aparentava, naquele momento, ter fôlego suficiente para a extensa existência de 20 anos. Ele constrói artisticamente o clima desse começo de ditadura tal como sentido pelo jovem jornalista Marcelo (papel do ator Oduvaldo Vianna Filho), seus desencontros amorosos com a bela amante Ada (uma sempre elegante senhora burguesa, no desempenho da atriz Isabella) casada com outro homem (o empresário Mário, interpretado pelo ator Sérgio Brito), o travamento social e político que o novo regime impôs aos projetos de mudança do mundo e de realização pessoal – escrever um livro que contribuísse para aquela mudança -, antes assumidos pelo jornalista, e que a paralisia de seu relacionamento amoroso com aquela mulher mimetiza tão claramente.

O diretor do filme já era um cineasta experiente quando realizou esse trabalho, antecedido pelo elogiado longa-metragem Porto das Caixas, de 1962, e os curtas-metragens Caminhos, de 1957, e Arraial do Cabo, de 1960. Saraceni estudou no Centro Experimental de Cinematografia, em Roma, graças a prêmio obtido com o filme de 1960. Artista de esquerda que vivera o período cultural e político anterior a O desafio e esmagado pela ditadura (deu apoio à realização do filme Cinco vezes favela, obra coletiva, produzida pelo CPC/UNE em 1962), Saraceni findou apresentando, nesse novo trabalho, uma espécie de longa confissão de derrota, fortemente marcada pela falta de perspectivas, que o verso final da canção “Tempo de guerra” (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, letra baseada em poema de Bertolt Brecht) expressa tão bem, no desfecho do filme: “Essa terra eu não vou ver!”. Tal verso é falado contra uma tela vazia, onde figura, em seguida, apenas a palavra “Fim”. Fim de filme, fim de linha.

Há um sentimento onipresente de tristeza, angústia, tédio e frustração, que tanto é relatado em falas de Marcelo e alguns outros personagens sobre anterior crença no processo revolucionário brasileiro e, naquele presente ditatorial, o espectro de comissões de inquérito, perseguições políticas, cassações de mandatos, injustiças, exílios, miséria e demissões arbitrárias, quanto é construído imageticamente, em cenas povoadas por grades, cantos de muro ou paredes, longos silêncios e personagens que dão as costas uns aos outros. Como na descrição irônica que Orson Welles fez dos filmes de Michelangelo Antonioni, mas numa chave pesadamente dramática, os personagens de Saraceni andam, andam, andam… E como na obra-prima Hiroshima meu amor, de Alain Resnais, experimentam a impossibilidade amorosa no mundo onde vivem. A beleza de diferentes locações (paisagem no campo, locais dos encontros amorosos, bonita casa de Ada, expressiva decoração do apartamento de Marcelo – que inclui reprodução do painel Guernica, de Pablo Picasso, e o cartaz do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha) não corresponde ao estado de espírito daquele casal, antes enfatiza a dificuldade de amar e ser, que uma fala do jornalista sintetiza: “Estou misturando tudo”.

O fato de Ada ser casada e ter um filho deixa Marcelo mais tenso. Piorando o quadro, a moça fala de marido e filho para o amante, evidenciando sua incapacidade de abandonar aquela vida dupla que é mais que amorosa: ao contrário do marido empresário e apoiador da ditadura, o amante é jornalista e oponente do novo regime. Ada surge em sua casa bonita, moderna e refinada, uma criada lhe transmite recado de Mário – preparar-se para compromisso social noturno, o que parece ser sua principal função como esposa do empresário uma vez que atitudes eróticas não são visíveis entre os dois. O sofrimento de Ada vem emoldurado por roupas caras, móveis luxuosos, tudo que o dinheiro permite ter. Mas ela diz ao marido, quando retorna daquele compromisso, que não mais suporta conviver com pessoas convencionais e falsas, como as de seu círculo social.

Essa queixa de Ada surge em conversa com Mário, que antes registrara nervosismo e irritação da mulher durante a reunião de onde vinham. A resposta dele delimita o lugar social dos intelectuais esquerdistas (que Ada admira, com a tolerância do marido, aparentando conivência no adultério) e o lugar social do casal, defendendo a situação política reinante. Em seguida, a mulher se olha no espelho e sua imagem é refletida de maneira embaçada, como se ela se perdesse a seus próprios olhos, tendo os espectadores por testemunhas.

Em contrapartida, logo depois, Marcelo assiste a cenas do espetáculo musical Opinião (texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, canções de Zé Kéti, João do Vale e outros, direção de Augusto Boal), que foi excepcionalmente marcante naquele começo de ditadura como crítica ao regime, reafirmando objetivos de luta muito fortes do período político anterior. Esse episódio do filme realça que a ditadura não destruiu tudo, dramaturgos, encenador, cantores e músicos discutem pobreza e capacidade de combate – a clássica canção “Carcará”, na expressivamente áspera interpretação de Maria Bethânia, lembra com clareza a fundamental necessidade de se enfrentar a adversidade e combater. De passagem, esse episódio também funciona como importante documentação daquele espetáculo clássico, registrando marcas de cena e desempenhos dos cantores e atores.

O filme traz esse anúncio de que algumas lutas continuam, apesar da ditadura. Mas o espectador Marcelo, no meio da platéia do espetáculo (como nós estamos no meio da platéia do filme), mantém a expressão angustiada de não saber o que fazer, mesmo diante desses evidentes convites a novas ações transformadoras que retomassem aquelas metas derrotadas politicamente. Alguma coisa acontece como persistência de projetos (a ditadura não conseguiu fazer tabula rasa das esquerdas derrotadas) mas há um sentimento de que não há nada para realizar (a ditadura foi bem sucedida em transformar a potência alheia em paralisia).

O entrelaçamento da cena política com o entrecho amoroso se manifesta muito fortemente noutro episódio narrativo do filme: encontrando Marcelo, Ada relembra um passado de descobertas, o começo de seu relacionamento, a ida, juntos, a ruínas que o rapaz conhecia. Nessa rememoração, os dois passeiam por uma casa incendiada, lembram da origem do incêndio (o proprietário não conseguia pagar dívidas e decidiu destruir tudo), Marcelo recolhe fragmentos de belos poemas, que lê para Ada, identifica a origem daquela beleza – o livro Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima. No passado, foi possível encontrar Poesia nas cinzas. Naquele presente – outro incêndio -, esse encontro se revela difícil, talvez mesmo impossível para tais personagens.

É um episódio que marca, igualmente, a inviabilidade de Ada e Marcelo continuarem se encontrando, diante das tensões que as diferenças sociais e políticas entre ambos provocam. Marcelo diz mesmo: “Só a realidade é importante”. Um conflito narrativo interno, no filme, confronta essa impossibilidade de recuperar Poesia nas novas cinzas com aqueles fragmentos do espetáculo Opinião: a Poesia está aí, apesar da ironia de Carlos (colega de profissão do jornalista), na redação do periódico onde ele e Marcelo trabalham, contra as evocações da canção popular – “Sou diplomado em matéria de sofrer” (“Diplomacia”, de Batatinha), “E no entanto é preciso cantar” (“Marcha da Quarta-feira de Cinzas”, de Carlos Lyra e Vinicius de Morais). Memória e persistência de pensamento sensível são instrumentos de luta, algo aconteceu no passado derrotado e pode vir a acontecer no presente ditatorial. Nesse aspecto , O desafio se irmana com o espetáculo musical – a Poesia é realidade!.

O fim do relacionamento entre aqueles amantes é sucedido por momentos em que um lembra do outro, Ada deixa bilhete para Marcelo, a moça até se dirige à fábrica do marido, tenta falar com ele. Antes desse episódio, o filme nos apresenta Marcelo caminhando numa feira, andando em direção contrária à maioria dos feirantes e compradores, que têm aspecto pobre. Ada, na fábrica, enquanto espera por Mário (que a conduzira pelo braço durante parte do percurso, indício de controle), percorre setores de produção (uma tecelagem, máquinas que tecem tramas continuamente – como a vida de Ada é tecida pelo poder do marido e de sua classe social -, o movimento e o ruído daqueles aparelhos angustiam a mulher, que foge dali para fora), fica parada no local por onde saem os trabalhadores, eles também em direção oposta à dela, expressivo recurso narrativo visual da filmagem, paralelo entre os diferentes trajetos dos amantes. Marcelo não se comunica com os pobres da feira mas sente vontade de estar com eles. Ada não se comunica com os trabalhadores que saem da fábrica e talvez tenha medo de ficar como eles, fora do insatisfatório casamento com um homem rico. Apesar do afastamento, Ada e Marcelo mantêm traços em comum mas não se sabe se o amor será retomado.

Essa tensão amorosa, desdobrada em tensão política, reaparece numa bebedeira de Marcelo junto com seu amigo Carlos, quando cantam juntos “Não me diga adeus”, de Luís Soberano, J. Correia da Silva e Paquito, ecoando o recente fim da relação com Ada. O primeiro reitera ainda acreditar na transformação do mundo e acompanha o outro até sua casa. No caminho, Carlos diz que Valquíria (esposa deste) gostará de Marcelo. Valquíria, convocada por Carlos, tem aspecto de sonâmbula ou bêbada, talvez robô. O bêbado Carlos se deita e a mulher assedia Marcelo, fica despida, acuando o rapaz, enquanto Carlos se ergue para acompanhar a cena. Marcelo rejeita a moça e parte.

É uma situação paralela à postura de Mário em relação a Ada, apesar da diferença de classe entre o empresário e o amigo de Marcelo. Nesse sentido, o filme indica que o problema não é apenas de classe social, a classe média parodia os ricos. Vale lembrar que Carlos, além de ter a mesma ocupação que Marcelo, também não concluiu um livro projetado: ele aparece como um similar de Marcelo, um futuro que pode espreitar o rapaz e que este se esforça para recusar.

Talvez seja esse o desafio que o título do filme evoca: o sentimento de impotência simultaneamente à consciência de que é preciso fazer alguma coisa contra aquele mundo, o risco de se tranformar em paródia daquilo que se nega.
Saraceni inicia a memória cinematográfica da ditadura de 1964 com esse provocativo espelho de classe que é também uma incômoda indagação para o público habitual dos filmes produzidos pelo Cinema Novo.

O Desafio (Brasil). 1965. Direção: Paulo César Saraceni. Roteiro: Paulo César Saraceni. Produção: Sergio Saraceni. Música: Amadeus Wolfgang Mozart, Heitor Villa-Lobos, Edu Lobo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Carlos Lyra e outros. Fotografia: Dib Lufti. Elenco: Sérgio Britto, Oduvaldo Vianna Filho, Isabella, Luiz Linhares, Joel Barcelos, Maria Bethânia. 93 min. Branco e preto.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 15 de abril de 2012 13:39

    Lívio:

    Obrigado pela atenção. Esse filme foi mantido, durante muito tempo, fora de acesso mas mereceu uma edição em dvd há um ou dois anos. Ele é referência importante para a memória cinematográfica sobre a ditadura no Brasil, antecedeu Terra em transe e Fome de amor, outros marcos fundamentais. Junto com eles, no meio dos anos 60, filmes brasileiros abordaram temas diferentes, ajudando a pensar sobre aquele regime – destaco Macunaíma e O caso dos irmãos Naves.
    Eu morava em Natal quando O desafio foi lançado, li avaliações que ele mereceu na revista Cahiers du Cinéma. Só conheci o filme depois que mudei para São Paulo. E revi no dvd – base para meu comentário.

  2. Lívio Oliveira 15 de abril de 2012 10:31

    Gostei do texto, Marcos. Situou bem o contexto histórico em que produzido o filme. Ainda não o havia lido.

    Valeu por – mais do que oportunamente – ter lembrado.

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