Poesia, um assunto de mulher

A edição do 13º encontro nacional Mulher e Literatura, encerrado ontem num hotel da Via Costeira, em Natal, foi abordado na imprensa potiguar escrita com um anacronismo: “literatura é coisa de mulher?” Não é difícil para um estudante secundário de escola pública lembrar nomes como os de Safo de Lesbos, entre os gregos da antiguidade, ou o da norte-rio-grandense Nísia Floresta, no século XVIII, ou de Auta de Souza, no início do século passado, entre os inúmeros poetas do segundo sexo. Enfim, literatura, como os demais produtos culturais humanos, sempre teve aportes dos dois sexos. O mais espantoso de tudo isso é estarmos aqui repetindo uma tão gritante obviedade…

Se insistir num anacronismo já soa preconceituoso, formulá-lo chega a ser deselegante, sobremodo quando a interpelada é uma poetisa portuguesa que responde pelo nome de Maria Teresa Horta, e cuja obra está antologiada em modernas coletâneas da poesia lusófona dos nossos dias, como a “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea – um panorama”, organizada pelos poetas Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno.

Elegante, a poetisa não conseguiu evitar a armadilha das discussões de gênero, que desde três ou quatro décadas dominam os encontros literários e artísticos do mundo inteiro, contaminando com a ideologia dos sexos um tema ao qual oferece mais sombras do que luz. Mas uma citação de Virginia Woolf, aliás, a menos feminista das escritoras inglesas avant la lettre, ajudou-a a fazer um acerto de contas com a questão. Horta citou de memória um argumento que sobressai pela sua ingenuidade: “Por que ela (a poetisa) teria de escrever sob parâmetros masculinos e, não, sob os seus, de suas vivências e do seu modo de enxergar seu mundo, o feminino?”

Seria surpreendente se o contrário fosse exequível. Pergunta que, como não ocorreu ao repórter, encerrou a fase “polêmica” da entrevista com a homenageada portuguesa. Em outro momento, ela teria a oportunidade de lançar para o numeroso público do encontro o seu livro “Poemas do Brasil”, espécie de retribuição simbólica ao prêmio que veio receber entre nós.

Mas, ao lado da portuguesa Maria Teresa Horta, o encontro “Mulher e Literatura” teve outros desdobramentos. Por exemplo, voltou o foco de suas homenagens também para a poesia potiguar. E a escolha recaiu sobre a poetisa Diva Cunha que, a exemplo de sua colega lusitana, retribuiu a escolha autografando na quinta-feira passada, durante o encontro, seu novo livro de poemas, “Resina”.

“Resina” sucede a “Armadilha de vidro”, lançado em 2004 pela Una, o qual, por sua vez, sucedeu a “Coração de Lata”, de 1996. Antes, publicou “Canto de página”, em 1986, e “A palavra estampada”, em 1993. Cinco títulos de poesia, portanto, que refletem uma maneira própria de encarar o fazer poético: com economia e moderação, comportamento que a aproxima do numeroso contingente de escritores que conjuga, junto ao verbo escrever, o verbo cortar, ali onde outros elegem o alternativo reescrever. Poesia discreta, quase minimalista, de coisas concretas, drummondiana, real.

Não obstante, Diva Cunha não é só uma mulher que escreve poesia. É também uma pesquisadora da literatura norte-rio-grandense e de outros temas que foi recolhendo vida afora, fosse na academia, fosse no próprio contato com o mundo dos livros. Isso a levou a diversificar seu foco de interesses na literatura. Assim, a pesquisa passou a disputar espaço com a sua poesia e, pouco a pouco, foi ganhando crescente atenção de sua parte. A parceria com a professora Constância Lima Duarte, mineira com interesses literários vinculados à vida e à obra de Nísia Floresta, só veio reforçar essa vertente da obra de Diva.

A homenagem que o 13º encontro Mulher e Literatura fez à poetisa de “Resina” é obviamente extensiva à organizadora de livros como “Iniciação à poesia do Rio Grande do Norte” (1999) e “Via Láctea – de Palmyra a Carolina Wanderley” (2003), ambos em cooperação com a colega mineira. Sem implicações de gênero, naturalmente.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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