O CORVO
Edgar Allan Poe
Tradução de Milton Amado

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém – fiquei a murmurar – que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo agônico animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
– essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:
– escuridão e nada mais.

Sondei a noite erma e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela” – penso então. – “Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.”

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
– é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto – uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” – então lhe digo –
“não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo,
qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chame Nunca mais.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: “Amigos… sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais.”

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: – o ritornelo
de Nunca, nunca, nunca mais.”

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: “Nunca mais.”

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais…

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te tá, mandando os anjos seus,
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta! brado. – Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta! exclamo. Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida! – ergo-me e grito, alma incendida. –
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! nunca mais!

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DOIS POEMAS DE AIMÉ CÉSAIRE (1913-2008)

para dizer…

para revitalizar o rugido das fosfenas
o âmago oco dos cometas

para reavivar o verso solar dos sonhos
sua lactância
para ativar o fresco fluxo das seivas a memória dos silicatos

fúria dos povos sumidouro dos deuses seu salto
esperar a palavra seu ouro sua orla
até a ignífera
sua boca

palavra-macumba

a palavra é mãe dos santos
a palavra é pai dos santos
com a palavra serpente é possível atravessar um rio
povoado de jacarés
me acontece eu desenhar uma palavra no chão
com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto
de um dia
existem palavras remo para afastar tubarão
existem palavras iguana
existem palavras sutis essas são palavras bicho-pau
existem palavras de sombra com despertadores em cólera faiscante
existem palavras Xangô
me acontece de nadar malandro nas costas de uma palavra golfinho

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VEM DORMIR COMIGO
Alessandro Amorim

Tem dias que a noite é longa.
A semana tem dez dias.
Se fosse o mês… quarenta e cinco.
A cama é grande assim mesmo?

A comida não tem gosto.
A água tem, e é horrível!
As crianças, adoráveis; só assim te sinto.

Alguns amigos vêm e vão.
Eu fico. Quase em vão.
Mas não.

It´s already dawn
Quarenta e quatro de nove dias.

O travesseiro quase me faz bem
Já sinto fome de novo; e sede também
As crianças, adoráveis; ainda só assim te sinto.

Nem o rio, que me chama, me leva.
E fico. Como não?

Voce está chegando
Prá enfim dormir comigo.

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REYNALDO BESSA

 

ando com o coração em apuros.
o amor que um dia me olhou de frente,
hoje, só de perfil.
a dor morde minha alma como milhões
de bocas famintas e incansáveis.
ando com medo até dos néons.
as noites me pregam peças e
os dias são a própria indecência do existir.
isso não é um poema é uma vida, a minha.
há sangue nas entrelinhas.
ela está distante como uma estrada por ser construída.
está cercada de incertezas por todos os lados
o que é isso em seus olhos, um epitáfio?
a perda, me diga, aonde ela faz a última curva?
me diga também se adianta riscá-la do dicionário
o amor que um dia me pegou pelos calcanhares e
me levou à mundos invisíveis, cadê?
sou o seu assassino?
ou ele ainda está vivo? quem saberá me dizer ao certo?
sim, andei regando, mas só colhi despenhadeiros.
em minha boca, gosto de terra e sangue
no peito, um passado escrito com um tridente em brasa.
a palavra fim me acena na plataforma
aos poucos vai se tornando mais nítida
quase já posso descrevê-la para um desenhista
vem em minha direção,
ansiosa, se prepara para o abraço de boas-vindas

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entre a caneta e o
guardanapo; um dilema
eu não sabia se tentava ou se
ia ao cinema
não fiz uma coisa nem outra
assoei o nariz com o quase-poema
ah! chega!
com ele ou sem ele
nada muda
é tudo cena

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seu corpo
é o único argumento
que não sei
refutar

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A HORA ANUNCIADA
Jairo Lima

De outra vez
traga-me
o trem noturno
que vara as trevas
confiado tão somente
no brilho do seu trilho

traga-me o sol
facho
o leite de pendente luna
mas venha só
e embrulhe seus presentes
em papel crepom
fita verde ou encarnada
para que o imprevisto
de tua chegada
seja calmo como um lago
sem ventos
lento, calado, lento
como coisa anunciada

para que esse trem, esse sol e essa luna
pareçam coisas simples
pareçam coisas tuas

para que essas luzes
amordaçadas
no papel de presente
se tornem previsíveis
e marquem, simplesmente,
o dia, a hora, o minuto,
de tua chegada

ou ainda
como se o tempo
saltasse sobre a as asas da noite
e lhe cravasse os dentes

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RESÍDUO
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

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POR JOÃO DA MATA COSTA
Escritor

PATATIVA DO ASSARÉ

Ele completaria cem anos em 2009. Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva) nasceu no dia 05 de Março de 1909, ano da morte de Euclydes da Cunha. Poeta, compositor e improvisador de versos que denunciam e cantam as nossas mazelas e injustiças sociais. Esteve presente em todos os movimentos populares da recente história brasileira. Sua poesia fala dos contrastes entre os brasis.

Como Euclydes da Cunha ele mostrou o Brasil para os Brasileiros e para o mundo. Como Antonio Conselheiro ele foi cearense e sentiu bem as intempéries da natureza. Muitos de seus poemas foram musicados. O poema “Triste Partida” musicado e cantado por Luiz Gonzaga é um pungente hino ao nordeste brasileiro. Um lamento na escassez inclemente da quadra chuvosa. Cante lá que eu canto cá, diz um dos seus poemas mais famosos. “Ave Poesia” é um belo documentário do Rosemberg Cariry em homenagem ao grande menestrel-cantor do nordeste Patativa do Assaré.

Rosemberg é também um estudioso da poesia patativiana e escreveu o prefácio para o livro “ Ispinho e fulo”, do Patativa. Cante lá que eu canto cá e Aqui tem coisa são outros livros escritos pelo maior poeta popular do Brasil. Um sábio das coisas do sertão recebeu vários títulos de Doutor Honoris Causa. Há uns dez anos ele veio a Natal e fiz questão de beijar a sua mão ressequida e tremula ao autografar um dos seus livros que guardo como relíquia. É do livro “Ispinho e Fulô” o poema Antonio Conselheiro ( pp 16-19) que escolhi para homenagear os centenários desses dois grandes baluartes da cultura brasileira: Euclydes da Cunha e Patativa do Assaré.

O Beato conselheiro recebeu muitos poemas-homenagem, mas o poema de Patativa é o mais belo que conheço. Um poema que faz justiça ao grande homem que foi Antônio Vicente Mendes Maciel (Antonio Conselheiro). Da chacina que foi a guerra de Canudos. Canudos caiu no dia 05 de outubro de 1897, mas as injustiças sociais persistem e o seu ideal está presente em cada movimento que clama por justiça. Ele é o “que briga lá fora” da crônica machadiana, e está longe do fanático e bandido que muitos o pintaram. A miséria social ainda é um mal que nos assola, mas o mal maior é o que vem da ignorância.

Antônio Conselheiro / Patativa do Assaré

Cada um na vida tem
O direito de julgar
Como tenho o meu também
Com razão quero falar
Nestes meus versos singelos
Mas de sentimentos belos
Sobre um grande brasileiro
Cearense meu conterrâneo,
Líder sensato espontâneo,
Nosso Antônio Conselheiro.
Este cearense nasceu
Lá em Quixeramobim,
Se eu sei como ele viveu
Sei como foi o seu fim,
Quando em Canudos chegou
Com amor organizou
Um ambiente comum
Sem enredos nem engodos,
Ali era um por todos
E eram todos por um.
Não pode ser justiceiro
E nem verdadeiro é
O que diz que o Conselheiro
Enganava a boa fé,
O Conselheiro queria
Acabar com a anarquia
Do grande contra o pequeno,
Pregava no seu sermão
Aquela mesma missão
Que pregava o Nazareno.
Seguindo um caminho novo
Mostrando a lei da verdade
Incutia entre o seu povo
Amor e fraternidade,
Em favor do bem comum
Ajudava a cada um,
Foi trabalhador e ordeiro
Derramando o seu suor,
Foi ele o líder maior
Do nordeste brasileiro.
Sem haver contrariedades
Explicava muito bem
Aquelas mesmas verdades
Que o santo Evangelho tem,
Pregava em sua missão
Contra a feia exploração
E assim, evangelizando,
Com um progresso estupendo
Canudos ia crescendo
E a notícia se espalhando.
O pobrezinho agregado
E o explorado parceiro
Cada qual ia apressado
Recorrer ao Conselheiro
E o líder recebia
Muita gente todo dia,
Assim fazendo seus planos
Na luta não fracassava
Porque sabia que estava
Com os direitos humanos.
Mediante a sua instrução
Naquela sociedade
Reinava paz e união
Dentro do grau de igualdade,
Com a palavra de Deus
Ele conduzia os seus,
Era um movimento humano
De feição socialista,
Pois não era monarquista
Nem era republicano.
Desta forma na Bahia
Crescia a comunidade
E ao mesmo tempo crescia
Uma bonita cidade,
Já Antônio Conselheiro
Sonhava com o luzeiro
Da aurora de nova vida,
Era qual outro Moisés
Conduzindo sus fiéis
Para a terra prometida.
E assim bem acompanhado
Os planos a resolver
Foi mais tarde censurado
Pelos donos do poder,
O tacharam de fanático
E um caso triste e dramático
Se deu naquele local,
O poder se revoltou
E Canudos terminou
Numa guerra social.
Da catástrofe sem par
O Brasil já esta ciente,
Não é preciso eu contar
Pormenorizadamente
Tudo quanto aconteceu,
O que Canudos sofreu
Nós guardamos na memória
Aquela grande chacina,
A grande carnificina
Que entristece a nossa história.
Quem andar pela Bahia
Chegando ao dito local
Onde aconteceu um dia
O drama triste e fatal,
Parece ouvir os gemidos
Entre os roucos estampidos
E em benefício dos seus
No momento derradeiro
O nosso herói brasileiro
Pedindo justiça a Deus.

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POEMA ESQUISITO
Adélia Prado

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

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PRELÚDIO
Italo de Melo Ramalho

O vento nas telhas cantarola
o Apocalíptico canto dispare
da indomável Rainha Caetana.
O cárcere preludial mostra-se
inteiramente trajado de candura,
Senhor das serras, dono do horizonte.

A aragem sertaneja bafeja do Leste
amansando a indócil nobreza.
A rede retarda ao impulso investido
velando com apreço o precioso sono,
sustentando em escápulas: o Barbatão.
Rei dos pedregosos lajedos seridoenses,
altar das crendices ascéticas e de
implacáveis caçadas à Onças e Homens,
sob o infeliz jugo seco do meio-dia.
Místico-selo da estrela zodiacal.

A marcha em terras claro-escuros,
ásperas e de laminados gumes
vigora as transfiguradas efígies
Nazarenas, dos fiéis soldados.
Combatentes da morte-matada
nos cinzentos vergeis setentrionais,
Vila libertária de Gaviões e Cobras de chocalho.
Onde o tempo ceifa sem cessar
a taciturna e açoitada vida Verde
pela senilidade algoz dos vinte.

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CINCO POEMAS DE NELSON FALCÃO

Tecnocracia

No eixo paradigmático do tempo,
como na lascinante roleta russa,
substitui-se pela tecnologia o Olimpo
semeando contra os deuses a descrença.

Dentro desse aleatório hecatombe
cada divindade encontra a extinção,
matando com o gume da ablação
a fé do homem como práxis doravante.

E vai-se Hermes pelo arauto eletrônico…
E vai-se Ares pelo genocídio atômico…
Um a um perdem-se na nebulosa entropia.

E vai-se Atenas pela sapiência artificial…
E vai-se Eros pela crueldade passional…
A nova ordem mundial é a tecnocracia.

Psychagogia

Já não acompanhavam seus ébrios passos
os rastros dos pés suspensos do Inccubus
que o guiava à degenerescência da perdição,
nas ruas marinhas de Veneza: perseguição.

A coloração da ausente sombra se confundia
com a translúcida carne daquele ser abstrato
e com sua esvoaçante e neutra indumentária,
sensação ilusória criada pelo vago perseguido.

A furtada cor da miragem monocromática
perturbava as celeridade e exatidão do caçador,
que fitava incessante seus olhos cinza-alvorada,
daquela face esfumaçada o maior admirador.

Pelo seu suave sorriso de forma fugidia,
sua voz de silfo a sedução dos cânticos
sirênicos com encantamento expelia
e atraia o outro para desejos náufragos.

Os dedos ansiavam pelo toque dos áureos
cabelos e da cútis de éter da pálida figura
que para um embuste de paixão e loucura
convidava, anfitriã-mor dos infames pecados.

A convalescença de sua alma o mortificava
e o vazio que se apossava de sua íris eternizava
o enigmático e pueril Tadzio: um efêmero retrato
refletido nos moribundos olhos do psicagogo.

Legendário Malefício

Debulhei meu coração perante teus olhos de Medusa
os quais transmutaram-me em uma lápide pétrea,
imobilizando a lágrima que em minha face andava
e devastando-me as memórias como uma arma férrea.

Despetalei o interior, corroído por teu olhar de Áspide
o qual destilava em minh’alma, como a cicuta célere,
uma destrutiva toxina que murchava-me a chama áurea,
outrora imponente, agora valendo uma moeda plúmbea.

Sob teu hálito de Basilisco corrompi meu orgulho,
debilitado e desgastado por implacável acidez
a qual combatia-me como o gládio rompe o ferrolho:
cai desnorteado por golpe que confundiu-me a lucidez.

Desferi-te incessantes golpes de por quês a fim de entender
o que tu escondias por trás de uma máscara de Manticore,
mas só vi meus sentimentos também obrigados a obedecer
a uma simples lei natural: tudo nasce, cresce e, enfim, morre.

Epístola aos Congêneres

“Espelho… espelho meu,”
qual o milagre do fariseu?
O sacrifício do unigênito
a um mundo de mal congênito!

Um mundo cuja maior imundície
é a superestimação da superfície
da carne que reveste podridão,
do ouro que compra absolvição.

Este mundo coletor de semelhanças
e indiferente a tantas diferenças
é a ânsia e a tontura de meu asco!

Olho para o reflexo do transtorno
e no esvair de enojado contorno
abjuro esta espécie de carrasco!

In Nomine Crucis

Uns se dizem vindos em nome de Deus;
que atributo louvável é a sua opressão!
Ora, outros se dizem um próprio deus;
déspotas que reinam com diabólica mão!

Uns que se julgam mais iluminados
afirmam ver com os olhos dos olhos,
mas o véu fantasmagórico do preconceito
nunca romperam com o digno respeito.

E em nome da fé mitomaníaca,
a grei da materialidade salvífica
recitava o mantra mercantilista.

Não vede vós que a cruz em riste,
em nome da qual esse clã prescreve,
é o ectoplasma d’uma fé materialista?

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AMADA
Jairo Lima

canto tua sombra nas águas verdeadas
e semeio ecos nos vales do teu silêncio

canto o teu sou, canto o teu agora
e, no entanto,
as vozes que fazem o meu canto
respiram sílabas caladas

versos em ruínas, voz dilacerada,
no lago do sonho
o teu sono se mata

lentamente a tua ausência desce sobre mim
como chuva entre as orquídeas
cresce
no vazio imenso
de um mar sem água
ou de inconstelado firmamento
a essência imperecível do nada

agora, toma desta carne feito canto
e com brancos, sal, seios e cantos
faz pra mim uma pessoa amada

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INFINITO E CRU
Ledusha

Há horas definitivas
em que o amor te põe nocaute
(não existe tal veludo, pluma alguma
que amacie o seu impacto)
O amor te expõe a tudo.

Cobre teu colo de ouro
e logo te esfola vivo
Num mero arroubo birrento
pode te arrancar o couro,
baby.

Sua brasa intermitente
no bom e no tal sentido
cintila entre disparates:
êxtases, drinks, dúvidas,
polaróides do infinito;
Monólogos desgovernados,
nuvens alvas, outras grises,
ternuras e cacos de vidro.

O amor te encaixa no cosmo,
no colo fofo das nuvens
te escolhe, estica, desencaixa,
te deixa à beira, à deriva
te lega o bem precioso:
aprender a ser preciso.

Vulnerável, porém radioso.