POETA DA SEMANA: Anchella Monte

Anchella Monte Fernandes Ribeiro Dantas nasceu em 15 de outubro de l957, em Fortaleza/CE. Morou em São Pedro, no estado de São Paulo, durante quase dez anos. Desde então reside em Natal. Professora de Língua Portuguesa, lecionou nas redes pública e privada, trabalhando agora apenas em uma escola municipal. Publicou seis livros de poesia, sendo dois coletivos, PASSAGEM (1976) e ATO (1979); e quatro “solo”, A TRAMA DA ARANHA (2001), TEMAS ROUBADOS (2006), PESOS E PENAS (2011), pelo Sebo Vermelho, e ENTRE TEMPOS (2015), pela Sarau das Letras.

CAMPO DE FUTEBOL

Morei em frente a um campo de futebol
de cidade de interior.
Não me lembro dos jogos
ou dos gritos das torcidas
mas lembro bem de um raio que caiu
depois de ter cessado um temporal.

Eu estava tomando banho
e escutei os lamentos.
Quase saí nua
assustada, surpreendida.

Muitas vezes quis sair assim
cheia de susto e despida
pelos caminhos da vida.

——

SÃO PEDRO DE SÃO PAULO

Tenho saudade de minha cidadezinha
que não é minha.
Cheguei estrangeira ainda menina
e fui feliz em seus caminhos de árvores
na casa de quintal sem limites
de onde eu avistava uma cachoeira
e bandos, bandos de aves, e árvores copadas.

Tenho saudade de minha cidadezinha
e seu poeta Gustavo Teixeira
– ele cantava a primavera que deixava
os muros cobertos de hera –
e quando acabavam as flores e os banhos de riacho
a cerração do inverno
limitava nossos passos
a cachoeira desaparecia
a liberdade desaparecia.

Embaixo dos lençóis
sonhávamos como poetas.
Que saudade de minha cidadezinha…
Enfim, não nasci lá, mas ela é minha!

——

PRESENTES

Araras vermelhas eram depositadas
em minhas mãos
eu as tocava entre perplexa e insegura.
Presente paterno, araras vermelhas
apenas elas e a incompreensível força da existência.

As naves espaciais vinham por tamanhos.
Um gigantesco disco cobria o bairro operário
de súbito surgiam seres de grandes olhos
hostis como a vida
por vezes pequenas luzes desciam pela janela
entravam por olhos e ouvidos, o medo.

Presentes de meu pai, araras e naves.
Às vezes queria realidades mais banais
e arcaicos presentes, como vestidos.
O meu silêncio ouvia o silêncio de meu pai
mas só podíamos permutar o tempo.

Foram vários os presentes:
jangada tosca em rio raso, um cão mergulhador
folhas de papel simetricamente amontoadas
seis malas prontas para o primeiro ônibus
e um jeito de fazer parar o condutor
sem dizer nada- só um passo à frente.

——

AMOR

Fiz as roupas das bonecas
e por elas espalhei um cheiro
primeiro de tudo uma janela aberta
e um recorte de mundo
as bonecas, cada uma em seu soluço
uma louça com a comida imaginária
uma lenda a colorir faces com brilho.

Alongadas as mães em seu amor
por fantasias, quantas faces, redes
e armadilhas, tantas mães loucas
e quão poucas apenas tranquilas
apenas carregando potes de ervilhas
e águas saborizadas de alegrias.

Fiz as roupas das bonecas, uma claridade
que desperdicei entre tempos:
da nudez se vestiram sempre.
Moldes de rainha- desperdício, leviandade.

——

SOBRE AS ÁGUAS

Construí minha casa sobre as águas
sem palafitas
navegam a angústia e a vaga alegria de flores
fabricadas na cozinha
quando três gerações recortam papéis de seda
para adornar cenários.

Não sou sábia
não há rochas sob minha moradia.
Nas mãos tenho o vento e quando sopro
vejo rolarem os dias como folhas.
Navega a casa e a insônia, uma certa displicência
com as dores.

Três gerações preparam café e flores
as mulheres sempre ocupadas em fazer e desfazer
camas, contas de colar, louça, lembranças.
Minha casa sobre água, temperada por ventanias
não sou sábia, tenho lágrimas ressecadas
durmo em pé na porta da cozinha.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Leonardo Neves 5 de julho de 2016 17:12

    Poemas que nos levam a refletir no campo do poético. Raros. Marcantes e de boa leitura.

  2. eduardo antonio gosson gosson 1 de julho de 2016 17:45

    Eduard Gosson
    1 de julho de 2016

    A Poesia de Anchella Monte tem a beleza das coisas superiores. A sua poesia, ao contrário do que parece, transfigura o cotidiano, dá voz ao feminino e leva-nos aos mistérios da metafísica.

  3. José de Castro 1 de julho de 2016 11:10

    A poesia de Anchella Monte tem o dom de nos transportar para as geografias inusitadas, lugares queridos que todos nós tivemos um dia. Que, muitas vezes, hoje temos apenas em nossa imaginação. São como refúgios. E nesses poemas singelos, cada um de nós se identifica, pois cada um de nós teve uma cidade, uma rua, um rio… E as lembranças são caudais distantes que servem de combustível para seguirmos em frente e construirmos novos lugares. Anchella Monte…. tua poesia é um lugar bom de se habitar… Meu abraço fraterno… A bênção, querida poeta da semana…

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