POETA DA SEMANA: Carlos Gurgel

Integrante da geração mimeógrafo, da poesia marginal e alternativa; filho do poeta, folclorista, pesquisador e historiador Deífilo Gurgel, Carlos Gurgel cresceu ao redor dos poetas natalenses, quando seus pais celebravam o final do ano, em casa, com as presenças de Newton Navarro, Berilo Wanderley, Dorian Gray, Miguel Cirilo, Ney Leandro, Celso da Silveira, Paulo de Tarso, Miguel Cirilo, Walter Varela, dentre outros. Foi a partir dos anos 70 que o poeta começou a sua produção, tendo como influência, os versos soltos, carregados de intensos sentimentos. Depois, pelos anos 80, lançou livros e participou do movimento do Festival de Artes do Natal, como um dos seus organizadores. Hoje, escreve diariamente, e se dedica, já faz um tempo, à curadoria de recitais de jovens grupos de poetas. Carlos Gurgel é o nosso POETA DA SEMANA.

VENTO

o que me acorda
no meio da noite
são as asas do vento
que roubam do meu armário
as fotos de onde morei
as estrelas que dormiam pelo chão
e os dilúvios que passavam sobre os seus caminhos

e era como uma rua
que não via seus vultos nem rosas
passeando pela calçada
assim como quem vai a praça
e não lembra de olhar os olhos das crianças

e os seus amigos
sem perfumes e mulheres
já não guardam os seus quintais
sombras de cadeiras
varal com roupa dos vizinhos
e o adormecer das cobras e os seus pés errantes

e a brisa que vem do mar
acumula pelos tapumes e telhas
sua memória
ri do rio e suas métricas
como um lagarto que voa sem sua sombra e paz

e o vento
que da janela de um trem
invade lençois e colchões
cemitérios e cisternas
pede um pouco d’água
como promessa de quem já se esqueceu de sonhar.

———

ESCOPO

corpo é sagrado
com corpo não se brinca

corpo fica nu
corpo é puro vudu

corpo é esteira
puro e uma bebedeira

corpo é tão forte
igual aquele abraço de sorte

corpo é como uma escada
sobe pula e nada

corpo é tudo que sangra
aqui ali que nem anda

corpo é igual a uma sombra
se vê se crê como uma onda

corpo é tão perfeito
mamilos de dois peitos

corpo nem sempre se quer
importa que se tenha fé

parece que o corpo hoje
tá tudo tão pobre

por sobre a vidraça do tempo
filho da urbe e invento

tudo do corpo tão fugaz
a um segundo atrás.

———

BESTIÁRIO

foge
entra no mato
onde teus troféus te esperam

devolve
teus olhos
para onde nunca deverias
ter saído

enche de palha teus pulmões
e oferece para a arena
teus verbos recheados de mentiras
e encruzilhadas

rouba mais que puder
a paciência do mundo
porque só assim
respira podre
o lacre do seu coração sem sabores

sobe mais que puder
teus ombros
cada vez mais

parapeito de escombros
e mil armadilhas

sorri
como se na paz estivesse

mas quem o conhece
sabe das suas brutais salivas
físicas e mentais

e como espírito da guerra
some entre charcos

aroma do fim
onde sempre estivestes

sem tempo de ser justo
e humano.

———

VERTIGEM

o palco
que da tua pele baila

pousa de arco
e entretela

a lua despida
de tratos
e silêncios

recorta o canto
perdido de espantos
e espelhos

pois que do teu corpo
flora

uma tela
acesa de olhos
e ombros nús

por sobre a sala
saia de cortes e texturas

como vontade que tudo vê
toca
apalpa
adora
e crê.

———

MUSEU

ainda ontem
lembrei de quando
a lembrança vinha

arrastando com
seus olhos
o museu
das noites intangíveis

abocanhando
na soleira
do sítio
o verdume
das casas e porteiras

ainda ontem
parece
que a chuva
era um enorme prazer

acometida
de fortes abraços
e de tudo
que estivesse sorrindo
e sonhando

como se fosse
a manhã
colorindo nossos
olhos e réstias

e a vida
dormindo e cansada
sonhava com os pássaros
indivíduos sem rosto
e pés

rezando
ao redor
da imensidão
de tudo
que fica
e permanece.

———

TEMPO

ontem
ao te olhar
senti o vento
parado
estático
como a sonhar

pensei
( eu pensei )
que a vida
e suas janelas

jamais poderiam
novamente
se lembrar

do que um dia
o coração
e seus quintais

revelaram
para seus imensos vales
e mares:

somos
um sopro no ar
tão infinitamente belo
e lindo

partícula
que se vai
e logo some

entre milhares
de outros
morros
de idas
e vi(n)das.

———

MASTRO

na colina periférica da província
urros e guelras
se espalham

do Forte
na barra do dia que vem
uma barcaça berra
feito grito que acorda
o espanto por onde a boca do rio
pulsa

lá longe
onde daqui se tem maresia
a língua seca da cidade explode
cinza cintura senil

esborracho

e como um proscrito
velo a vela que voa
entre o cais e a canoa.

——-

FOTO: Giovanna Hackradt

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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