POETA DA SEMANA: Horácio Paiva

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NOTA SOBRE O AUTOR

Horácio de Paiva Oliveira nasceu em Macau, RN, em 1945. Publicou o seu primeiro poema aos 16 anos. Aos 18, com outros jovens escritores, criou em Natal o “movimento dos novíssimos”, que mantinha uma coluna literária no antigo jornal católico “A Ordem” (“Coluna dos novíssimos”). A vida intensa dedicada ao movimento social retardou o lançamento de seu primeiro livro de poesias (“Navio entre espadas”), que somente veio a lume em 2002. Está incluído na antologia “Geração alternativa (antilogia poética potiguar)”, organizada pelo escritor J. Medeiros e editada em 1997. Participou, depois, de uma coletânea macauense de versos, chamada “A escola de Macau”, e publicada em 2003. Em 2012 lançou seu livro de poemas “A Torre Azul”. Tem prontos, ainda a serem publicados, os livros de poesia “Caderno do Imaginário” e “Sou de Deus”.

E-mail: horacio_oliveira@uol.com.br

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PÃO E LUZ

com lápis invisível
descrevo na escuridão
o que não vejo

e posto sobre a mesa
creio haver um pão
à espera da luz

 

O ESPELHO

No espelho não procures
o retorno de tua alma
ou de teu corpo.

Crês no que vês, é certo –
mas imagens são miragens
que no deserto enganam
os teus olhos fatigados.

 

GALOS

A Sílvio Caldas, em memória

dos velhos tempos
já não se ouvem os galos
só as lembranças

 

LES MAINS SALES

O tempo escorria lentamente
e tudo estava tranquilo…
até Sartre roubar o meu relógio

 

MOVIMENTO PENDULAR

o dia
o dia
arrebol
arrebol
novo sol?
novo sol?
algo novo
algo velho
o balanço
indeciso
o vértice
o vórtice
o alfanje
o algoz
o trem
o trem
o sol?
o sol?
o poço
o pêndulo
a lâmina
o sino
o fim
a fome
a morte
a queda
o pulo
o rato
o giz
o giz
a hora
deserta
o tempo
feliz
o jazz
o triz
o tic-tac
o tic-tac
o tic-tac
o tic-tac

 

ALMAS

A Fernando Pimenta

podem dizer o que quiserem
dessas almas cansadas

sobretudo aquelas
que não se deixam conhecer

chegam de repente
e num átimo somem

e logo recuam
à infância deserta

podem dizer o que quiserem
mas não as quero perder

elas talvez me expliquem
em que mundos vivi

em que horizontes deixei
secar a memória

viveram tão pouco
e ficaram à deriva

neguei-lhes o corpo
que sem forças pediam

de sua vida breve
entre malvões e papoulas

lembro só o perfume
cada vez mais distante

mas outras têm o cheiro
de algum brinquedo antigo

como deixei que seguissem
sozinhas e sem rumo

se ainda para elas
havia a esperança?

vejo-as cansadas
e já não assustam

com a sua aura fria
de gastos desafios

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Comentários

9 comments

  1. Anchieta Rolim
    Anchieta Rolim 3 maio, 2016 at 16:19

    Viva!!! Enfim, o espaço poético foi aberto. Parabéns, pela poesia do grande poeta Horácio Paiva. Em especial ao poema, “ALMAS”. Massa!

  2. Fernando Pimenta 3 maio, 2016 at 19:40

    Horácio: Você é o poeta da semana, do mês, do ano, do século enfim. É o grande poeta decifrando nossas vidas. Com sua licença, já estou usando, como epígrafe e inspiração de um dos meus poemas, esses versos: “elas talvez me expliquem / em que mundos vivi / em que horizontes deixei / secar a memória.” Meu abraço amigão. Fernando Pimenta

  3. Rudson 3 maio, 2016 at 19:42

    Parabéns Padrinho você é sim merecedor de todas as suas conquistas! Belas Poesias.

  4. Nelson Patriota 4 maio, 2016 at 11:14

    o vigor da poesia de Horácio Paiva ainda é capaz de nos enviar, por momentos, para um mundo melhor, onde a poesia é a lei.
    Nelson Patriota

  5. Claudio Antonio Guerra 9 maio, 2016 at 10:15

    Caro Horácio a arte também nos salva. Bela poesia. Abraço fraterno para você e parabéns ao substantivoplural e sua sensibilidade cultural.
    Claudio Guerra e Maria do Rosario

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