POETA DA SEMANA: Maluz

Já compartilhei no Facebook alguns poemas e comentei que vejo um enorme potencial nessa jovem poeta e artista visual Maluz. Um tempo atrás pedi a ela para enviar uma seleção de poemas para o “Poeta da Semana”. Muita tímida, enrolou pra lá e pra cá, mas insisti e ela acabou mandando. Portanto, é com prazer que apresento a vocês Maria Luiza Medeiros, ou simplesmente Maluz.

MALUZ2Ela está concluindo o curso de Jornalismo e estagia na Assessoria de Imprensa da Fiern. Mas o talento dela e o que a move é mesmo a poesia. Uma poesia em sua maior parte elaborada a partir de elementos aparentemente banais, concretos do cotidiano.

É da crueza desse cotidiano que ela extrai seu material poético mais interessante. Confesso minha predileção por esse tipo de dicção poética. Talvez, por isso, me agrade tanto o que ela escreve. Confiram abaixo.

01.

eu oceano
me fiz
quando Bauman amarrou
a contemporaneidade
a infinitos líquidos
de inconstância

o corpo
precisa de litros de água
o corpo
precisa de litros de sangue
faço xixi
tomo banho
circuitos de líquidos completam-se

mas eu bem sei
que o mundo
gira em torno
não dos líquidos
mas
da procura sem sucesso
do que é o amor

——

02.

variações
220 volts
choques
o sorriso parece não encaixar no rosto
a boca gasta
acabou de entortar de vez
a voz embarga
e eu não consigo dizer

que vida é essa?
se é vida, por que mata?
risco de vida está errado?
falar que ninguém sofre risco de vida é mesmo certo?
viver é tão,
mas tãooooooo, arriscado!

a corrida insana dos minutos
esforçando-se em completar as perdas
nos ponteiros pesados

minha mãe falava para deixar as tampas dos perfumes bem fechadas
caso contrário eles escapariam
você percebe?
a perda vem da educação
do berço
e dos privilégios que nunca tivemos
mas éramos ameaçados de perder
se não comesse direitinho e não fosse uma criança teimosa
eu já nasci meio velha
e nunca dei braço a torcer
dura na queda e nas palavras

me encontro, na mais tardia das infâncias
sentindo tudo, com o nó na garganta
e depois chorando desesperada
como se tivesse levado a primeira queda de bicicleta
passando mertiolate no coração
fazendo figa
reza braba
pra não ter carne no feijão

e hoje perda ficou gorda
meio foda de aguentar
estou mais fraca
e vi você partir
antes mesmo de chegar
te vi, de longe, admirei tua arte
e agora tu ornamentas um chão
que meus pés não têm asas para alcançar…

a cada alma bonita que se vai
meu mundo fica mais feio

——

03.

andei cruzando vários caminhos
alternando linhas de ônibus
atravessando vidas
na rotina louca
de quem nasceu com a seguinte frase no rótulo
“agite antes de abrir”
um ADES de manga, daqueles que a gente fica com dúvidas sobre beber
se é saudável ou veneno

por todos esses caminhos
calçadas, histórias
afazeres
eu quis, pegar todo esse tempo
amassar como faço
com minhas poesias de nada
e jogar todo fora
sentar na velha praça
e observar seus olhos

——

04.

acredito em pequenos ritos
orquestrados pelo corpo
eu me satisfaço
quando de manhã risco o fósforo
e sinto aquele cheiro
de pólvora
de sentar no chão frio de penumbra
encolhida
com os braços apertando bem os joelhos
eu
gosto de tomar café gelado
e fazer careta depois
gosto de frutas azedas
e de sentir ranço
eu acredito no incômodo
como força a mover moinhos
e nos tirar do chão
nos tirar dos lugares que não nos pertencem
eu acredito no poema
como expurgo das palavras que precisam serem ditas
porque dentro do corpo vira acúmulo
acúmulo não é bom
escrever é o meu principal ritual do corpo

——

05. [cântico do não ser]

eu já me esqueci de como se desabafa
como se contata outro ser e diz o que se sente
eu já não sento nos sofás das casas
não peço limonada, nem para ser feliz
eu acho mesmo que me tornei um sujeito indefinido
fora da oração
apático, apartidário
mal apessoado e sem feição
em textos sem caixa alta, coleciono fracassos.

——

06. [sede]
porto pouco menos
que um litro de sangue
e algumas vísceras
umas vontades rasas
um pouco de compaixão
tudo muito meio
na verdade como amar por inteiro?
várias pessoas me cercam
sequer vão de uma vez
sequer adentram de uma vez
cirandam meu caos
aumentam minha sede

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Anchella Monte 5 de Agosto de 2016 11:56

    Maria Luísa foi minha aluna. Dia desses a encontrei trabalhando no comércio, não sei se ainda está. Ela me viu, junto com a minha amiga professora de Matemática, e falou com a gente com alegria. Não lembrava mais do nome dela, embora sim da fisionomia. Falamos sobre escola e ainda não estava ciente de que a menina virara poeta. Logo depois a reencontrei no facebook, feliz em ver a qualidade da sua poesia. Uma poesia sincera, inteligente, com uma marca bastante pessoal.

  2. Leonardo Neves 10 de Agosto de 2016 13:08

    Ah, a velha poesia jovem, de causar inveja!

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