POETA DA SEMANA: Theo Alves

Theo G. Alves nasceu em dezembro de 1980, em Natal/RN, mas é radicado em Currais Novos, cidade do Seridó potiguar. Publicou os livros artesanais Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos), além de ter participado das coletâneas Tamborete (poesia) e Triacanto: Trilogia da Dor e Outras Mazelas. Participou também de coletâneas de poemas e contos nacionais e internacionais. Em 2009 lançou seu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis (poesia e contos); em 2015, publicou A Máquina de Avessar Os Dias (poesia), ambos pela Editora Flor do Sal.

a máquina de avessar os dias de minha avó

minha avó
inventou uma máquina
de avessar os dias:

antes de sua morte
pôs-se a engendrar
memórias
– gente com asas
– estranhas histórias do tempo
– cães de nomes improváveis
e lindos

eliminou
de seus dias as
pessoas reais –
que pode
haver de mais tedioso
que gente
concreta
ou tijolos e barro e pedras?

minha avó
com sua máquina de
avessar os dias
acordava
a casa no meio da noite
ironizava
a invenção do vento
esquecia
os nomes inúteis das filhas
recriava
o absurdo não linear do tempo.

era uma máquina
de costurar avessos –
retalhos
coloridos do tempo:

guardei-a para mim
– minha avó
e sua máquina de aventuras –
para usá-la
quando for
meu tempo.

——

besouro

inventei
um besouro
quando menino

montava-o
aos sábados
de manhã

guiava-o
pela mão
nos outros dias

inventei
um besouro
quando menino

morreu
o besouro inventado
noite passada

dormia
em minha cama

e

segurava
ainda minha mão

——

uma palavra/ pedra

despida
entre aspas
a bruteza
de sua anatomia
me comove

crua
e pétrea
sua musculatura
e espinha
me enternecem

grossa
tessitura de pele
densa
pluma metálica
me toca

seu/ meu
o corpo rígido
o ventre mineral
da palavra
pedra

——

instruções para reconstruir um homem

juntar os
cacos de um homem
não refaz
um homem inteiro

há sempre
um caco de homem perdido
excerto de
um homem inteiro

mas os
cacos amealhados
refazem mais que
um homem inteiro:

um homem refeito
e um caco a mais de esperança

——

quixote

o herói caído
entre sangue
e fezes de seu cavalo.

menos herói que
homem
envolto na fúria de seus inimigos
em sua voracidade.

o homem sorri
o herói lembra-se do
futuro:
dulcineia não está morta
e seu rocim é ainda
impávido.

só o homem foi relegado
ao chão
– o herói é vivo sempre.

——

Foto: Hallyson Bysmark

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Theo 29 de julho de 2016 8:50

    Muito obrigado por sua leitura tão carinhosa, Anchella!

  2. Anchella Monte 29 de julho de 2016 7:58

    A poesia de Theo é marcante, não é poesia para se fechar o livro e guardá-lo na estante para todo o sempre. É poesia para estar perto, ser procurada. Gosto demais do poema “a máquina de avessar os dias de minha avó”. Quando o li pela primeira vez reconheci mais um poeta potiguar que veio para não ser esquecido.

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