Polarização política e oprimidos

Alguns à esquerda afirmam que está em curso uma guerra insana entre grupos de poder, suportada por torcidas fanáticas, que vê enfrentar-se uma direita truculenta disposta a tudo para voltar ao poder, não hesitando em pisotear a cambaleante fachada formal que ainda sobra de estado de direito, e uma ex-querda governista gasta que praticou estelionato eleitoral, traiu suas bases sociais, reproduziu as mesmas práticas de governo das elites que sempre criticou, está corroída após mais de uma década de alianças com a Casa Grande em nome da governabilidade e está resistindo desesperadamente às investidas golpistas apenas para manter-se no poder. Essa guerra nada diria respeito às opressões vividas e às lutas travadas pela juventude negra das periferias, as mulheres, os LGBTs, os povos indígenas, os sem-terras, os sem-tetos etc. para os quais o “estado de exceção” sempre existiu – Rafael Braga que o diga – e que, com a direita ou o Partido dos Trabalhadores no poder, continuarão a ser exterminados, torturados, estuprados, linchados, criminalizados a priori.

Há muita verdade nessa visão, mas é incompleta. Sim: nas periferias metropolitanas, nos assentamentos rurais, para as mulheres em seus próprios lares e quando saem às ruas etc. o estado de exceção sempre existiu. Sim: o governo de Dilma é de direita e indefensável; o projeto petista já deu o que podia dar e agora se necessitam reformas estruturais que o modelo lulista – o pacto histórico entre Casa Grande e Senzala em nome do crescimento com inclusão social – é por sua própria natureza incapaz de realizar. Sim: há uma guerra superficial pelo poder (para apossar-se dele ilegitimamente, de um lado, e para manter-se nele a toda custa, do outro) e um clima violento, cego e fanático de Fla-Flu. E sim: nem a permanência de Dilma, nem Lula ministro – se chegar a tomar posse – provavelmente irão mudar as estruturas que geram as opressões daqueles que não se sentem contemplados nessa guerra. É tudo verdade.

Onde está, então, o limite dessa visão? No fato de que deixa de fora alguns elementos que não são de forma alguma irrelevantes:

1. Essa guerra de superfície, que é sim pelo poder, é travada entre forças desiguais: uma, o Partido dos Trabalhadores, só conta com a legalidade constitucional e sua militância; a outra com o aparelhamento do poder judiciário em todas suas instâncias, das polícias e da grande mídia, ou seja, com o sequestro de instituições centrais do estado de direito. E se este último, de fato, não existe para milhões de oprimidos o caminho é ampliar seu alcance, superar a democracia liberal/formal em nome de uma democracia real, o que não ocorrerá nunca se o pouco que resta da primeira for sistematicamente esmagado.

2. A guerra não é apenas pelo poder: é uma guerra pelos significados. O que a mídia oligopolista que apoiou a ditadura está tentando fazer em conluio com um judiciário partidarizado é desconstruir a herança simbólica de todo um projeto político-social que, apesar de não ter feito as mudanças estruturais que nós de esquerda almejamos e de ter até se aliado inadmissivelmente às elites e ao capital financeiro e corporativo, durante mais de uma década mostrou aos pobres e excluídos que podem sim mudar suas vidas, que podem exigir mais, que se pode governar não só para as elites e o grande capital. Lula é muito mais que Lula: é o símbolo vivo dessa herança. A critica política – que pode e deve ser feita – às alianças que teceu para governar, ao fato de ter reproduzido muitas práticas da velha política, ao não ter feito muitas reformas indispensáveis (agrária, tributária, política, da mídia…) etc. não ofusca o poder simbólico que sua imagem carrega: a ideia de que projetos alternativos aos da elite – ou pelo menos que os tensionam, mesmo sem ter chegado ainda a desconstruí-los – podem governar o país. Lula não mudou estruturalmente o país, mas simbolicamente representou a possibilidade de fazê-lo e, para milhões, ainda representa isso. A tentativa de acabar com a imagem do ex-presidente por meio de uma perseguição midiático-judicial, portanto, é a tentativa de ressignificar negativamente sua herança histórica para fazer murchar nos corações e mentes qualquer esperança em projetos políticos de esquerda.

3. Se há uma guerra superficial que é pelo poder e outra mais profunda pelos significados, há ainda uma terceira questão que diz sim respeito a todos os oprimidos e todas as lutas. É o fato de que o sequestro das instituições da democracia formal e a incitação ao ódio e à violência fascista não têm como único alvo – embora, claro, seja o principal – o Partido dos Trabalhadores e seus apoiadores, mas toda e qualquer luta popular, todo e qualquer sujeito político cujas exigências e reivindicações -e às vezes cuja própria existência – contrariam os interesses do capital financeiro e corporativo, das classes dominantes e do machismo, o racismo e a LGBTfobia enquanto regimes de práticas, sistemas de relações de dominação. Se a permanência do Partido dos Trabalhadores, provavelmente, não contribuiria no combate contra essas opressões e nem mesmo contra as de classe (aliás, como tem ocorrido nos últimos anos, pode até participar da repressão de certas lutas e do reforço de certas opressões, como a contra povos indígenas, populações periféricas atingidas por remoções forçadas, etc.), sua destituição do poder via golpe contra a democracia teria entre seus efeitos mais nefastos a estigmatização, criminalização, repressão aberta ou rasteira de toda luta social progressista e o bloqueio da possibilidade de chegar ao poder para todo projeto político de esquerda. Ou seja, do ponto de vista dos oprimidos a luta contra o golpe institucional (porque o golpe contra a possibilidade do povo se autogovernar ocorreu desde sempre) não equivale a participar de um Fla-Flu vazio, pois não é uma luta por Lula, por Dilma ou pela permanência no poder do Partido dos Trabalhadores: é uma luta pela própria possibilidade de continuar a lutar.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP