Polemicas em torno de um prêmio preterido

A outorga dos prêmios Nobel feita anualmente pela Academia de Ciências de Estocolmo, na Suécia, já se tornou parte indissociável da nossa contemporaneidade. Não interessa tanto saber quem ganhou nessa ou naquela categoria, mas em principio que as comendas foram concedidas. É um fato que assinala a favor de uma ordem de normalidade de vida, num mundo em constante e crescente instabilidade.

Há quem veja com ironia a concessão do Nobel da Paz ao presidente Barak Obama, herdeiro de três guerras e mantenedor de duas delas – Paquistão e Afeganistão –, quando ainda não completou sequer um ano de governo. A academia sueca pode ter feito, porém, uma aposta preventiva de uma terceira guerra. Contra o Irã, por exemplo, sob pressão do lobby industrial-militar americano há pelo menos uma década. E esse lobby existe, afinal, para que se façam guerras. War is business, stupid!

Não foi surpresa menor a escolha da alemã Herta Müller para o Nobel de Literatura. Em entrevista à Folha, Lya Luft lembrou que traduziu um romance dessa autora, mas sequer sabia declinar-lhe o nome. Para não ficar de todo desamparado nessa área, sugiro que o leitor consiga um exemplar do livro “Escombros e caprichos – O melhor do conto alemão no século XX”– organizado por Rolf G. Renner e Marcelo Backes. Ali irá encontrar “A canção de marchar”, conto de duas páginas de Herta Müller. Arriscaríamos dizer que esse não está entre os melhores contos da antologia. Mas se a autora ganhou o Nobel, certamente tem muitos méritos. Então, a falha deve ser debitada aos organizadores, que não souberam escolher bem.

A academia sueca tem suas razões. Suspeitamos que muitas delas pertençam à categoria de “razões de estado”  ou razões secretas. Afinal, ao escolher Herta Müller, um nome europeu, preteriu os nomes de Philip Roth (americano), Joyce Carol Oates (americana), Amós Oz (israelense), Mario Vargas Llosa (peruano), entre outros tantos elegíveis à premiação. Os críticos da Academia resumem seus argumentos à palavra eurocentrismo. Há quem pondere, todavia, que isso é apenas uma fase passageira da instituição, já que o próprio secretário, Horace Englund, nega com veemência veleidades eurocêntricas…

É nessas ocasiões que costumeiramente vêm à tona lembranças desfavoráveis à Academia. Vladimir Nabokov, no começo dos 1900, e Jorge Luis Borges, no final desse século, passaram ao largo de suas atenções. Então seus nomes não teriam chegado às salas secretas dos seus pressurosos jurados?

Sim, porque o processo de escolha de um prêmio Nobel é um desses segredos só comparáveis ao que cerca a fórmula de certo centenário refrigerante. Pouquíssimos humanos participam diretamente de suas decisões. E num mundo onde quase tudo é devassado em detalhes, é crível que nenhum estudo, nenhuma reportagem de fundo haja sido feita até hoje sobre o processo de tomada de decisão da academia sueca?

Sabe-se, porém, que seus jurados recolhem opiniões emitidas por determinadas fontes, que funcionam como uma espécie de termômetro da opinião pública mundial. Sabe-se também, todavia, que os jurados têm independência o suficiente para descartar as opiniões recolhidas. No caso da escolha de Herta Müller deve ter acontecido algo desse tipo. E mais uma vez o nome relegado foi o do americano Philip Roth.

A preterição do nome de Roth, aliás, já está se tornando um desses casos vencidos, considerando a insistência com que seu nome vem sendo lembrado e descartado, sistematicamente, às vésperas da escolha do Nobel de Literatura há pelo menos dez anos. Algo que aconteceu também com Jorge Luis Borges, que nunca ganhou o prêmio.

A obra de Borges dispensa as láureas do Nobel, transformado que foi num dos nomes canônicos da literatura do século XX. O nome de Philip Roth também não se apagará se o Nobel lhe for sempre subtraído. Afinal, Roth continua escrevendo obras-primas desde “O complexo de Portnoy” até “Indignação”, seu último romance lançado no Brasil. Mas o esquecimento do seu nome, ano após ano, deixa uma incômoda impressão de que algo não está funcionando como deveria em termos daquela premiação.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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