A política adoecida

Por Maria da Paz Trefaut
VALOR ECONÔMICO

Escolher um restaurante que não fosse “metido a besta” foi a única exigência de Maria Rita Kehl ao listar alguns lugares que frequenta em São Paulo. “Adoro o El Tranvía, de carnes uruguaias, gosto do Pasquale e do Sushi Lika, na Liberdade”, disse, antes de optar pela sala tranquila do primeiro andar do Martín Fierro, na Vila Madalena.

Ela chegou antes do horário marcado para o jantar e ficou algum tempo conversando com um dos garçons, o Sebastião, que já conhecia, sobre os tumultos provocados no bairro durante o Carnaval.

Com blusa estampada, meio camuflada em tons escuros, e calças compridas, Maria Rita está de cabelos curtos, com franja lateral, e o rosto com pouca maquiagem, que fazem jus ao estilo “bem cuidado, mas não empetecado”, que usou para definir seu modo de ser. De entrada, pedimos o “pan de abuela”, espécie de canapé com creme de espinafre e ovo de codorna frito. Depois, duas meias picanhas, acompanhadas de salada verde com cenoura ralada, o que lhe pareceu demasiado, até um pouco de desperdício.

Durante este “À Mesa com o Valor”, regado a água, Maria Rita revelou que se considera ensaísta acima de tudo, mas, na verdade, é uma cantora frustrada. “Amo cantar, desde pequena. Canto o tempo todo na cabeça: quando ando, quando varro a casa aos sábados. Canto o que gosto, especialmente sambas do século XX. Cartola, Nelson

Cavaquinho, Ismael Silva. A família da minha mãe tinha um monte de boêmios, aprendi todos os sambas, tenho uma memória incrível para letras. Durmo à meia-­noite e quase não bebo. Mas se tiver uma roda de samba fico doida, feliz que nem pinto no lixo, como dizem os mineiros.”

Enquanto cursava a faculdade de psicologia na USP, ela foi crooner de uma banda e, há alguns anos, se apresentou no teatro de uma escola para uma plateia pequena. Fora esse fato extemporâneo, aos 63 anos, é conhecida como jornalista, psicanalista, cronista e poeta. Transita do acadêmico ao coloquial. “Fui jornalista antes de ser qualquer outra coisa. Tenho rejeição ao texto acadêmico, acho que o formato é um engessamento: é contra meu temperamento. Claro que a academia precisa ter critérios para saber se aprova ou não, mas é chato ler um texto acadêmico, mesmo que seja interessantíssimo. Fiquei muito consolada ao saber que a tese de doutoramento do Walter Benjamin [filósofo alemão, 1892-­1940] foi recusada na Universidade de Berlim.”

Nomeada pela presidente Dilma Rousseff, Maria Rita foi um dos sete integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que funcionou de 2012 a 2014. No relatório final, numa decisão não unânime, ficou entre os que apoiaram a revisão da Lei da Anistia. Para enfrentar a tarefa, durante dois anos não aceitou nenhum paciente novo em seu consultório no bairro do Sumaré, e rearrumou a vida de forma a passar todas as segundas­-feiras em Brasília. “Com o fim da comissão, estou, graças a Deus, sem eixo”, diz, sorrindo. “O trabalho foi tão focado que eu brincava com as pessoas que era tipo um plano Juscelino: nós envelhecemos 20 anos em 2”. Agora, ela pensa quais projetos retomar. Está em vista um estudo sobre as obras de Freud e Benjamin, nas quais vê muitos pontos de diálogo.Maria Rita no Martín Fierro: “Estão prendendo os corruptores, mas não vejo horizonte, porque não vejo desejo político forte de gerir este país de outro jeito”

Uma conversa com Maria Rita é quase sempre um encontro político. Não só pelo fato de ela ser identificada com o PT, mas pela natureza de sua reflexão: “Embora eu seja poeta e psicanalista, minha cabeça é muito política”. Ela já escreveu oito livros. Entre eles há poesia, uma tese de doutoramento sobre os “Deslocamentos do Feminino” e “O Tempo e o Cão ­ A Atualidade das Depressões”, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Não Ficção em 2010.

No mundo contemporâneo, uma questão chama a sua atenção: o ressentimento, que é um tipo de posição subjetiva de quem não lutou por alguma coisa, se sente prejudicado e tem raiva de quem lutou e conseguiu. “O ressentimento é uma revolta da passividade. Mistura inveja, mas também auto-arrependimento. Só que você não percebe a sua parcela de responsabilidade: fica acusando e se ressentindo.”

Se o ressentimento pode estar em todos os domínios, também está no político. “Neste momento de decepção com a corrupção, fico muito de olho no que me parece expressão política progressista e no que parece ressentimento.” Ainda que reconheça que a corrupção no PT, para ela, tenha sido um desastre, Maria Rita é crítica da mídia que “deita e rola com o que aconteceu com o PT e para o resto não dá o mesmo tratamento”.

“Tenho uma decepção com o PT, mas o que aconteceu me fez ver que a doença política no Brasil é muito grande. Ela transcende o PT, não livra a cara de ninguém. A impressão que tenho é de que quem for para o poder vai se envolver também em corrupção. Isso me deixa mais desiludida.” Sua desilusão maior é com a sociedade brasileira, “muito conservadora”, com uma elite que não abre mão e “acochambra o que puder” para que tudo continue como está. “Corrupção de meter a mão no dinheiro muitos países têm. Mas esse jeitinho brasileiro que vai acochambrando, a corrupção moral ­ eu roubo um pouco e divido com você ­, me deixa desesperançada. Estão prendendo os corruptores, mas não vejo horizonte, porque não vejo desejo político forte de gerir este país de outro jeito.”

O assunto parece causar certo desconforto e Maria Rita se torna um pouco refratária. Faz questão de dizer que é fã de petistas formidáveis e não quer julgar o partido pelas pessoas. “A proposta de governo petista é uma proposta que avança. Não é pela corrupção que a direita tem tanto bode do PT. É porque ele usa o dinheiro público de outro jeito e implementou políticas públicas que mudaram o perfil social do Brasil.” O que a incomoda é o que qualifica de ausência de abordagem progressista desse assunto no “mainstream”. “A abordagem ou é PSDB ou ressentida. Me preocupa muito criar uma massa ressentida no Brasil. A culpa é do PT, não estou dizendo que não.”

De um modo geral, ela diz manter um ideal de esquerda, mas democrática, por saber que revolução dá em tirania. “A democracia pode ser ruim, mas é o que a gente tem.”

Ao longo dos anos, teve muitos embates, alguns públicos. Um deles foi com o jornalista Paulo Francis, no fim dos anos 1980. “Ele falou que eu devia estar internada e meus pacientes, no manicômio. Foi uma coisa pesada. Fiquei muito mal… Lembro-­me de que pensei: onde está doendo? Estava doendo na minha imagem. Hoje me pergunto: como me expus daquele jeito? Eu podia ter sido mais esperta.”

Lamenta ter sido passional ­ não é mais, garante, nem nas relações amorosas. Atribui a um ex-­namorado (o historiador Luiz Felipe de Alencastro) o ensinamento. “O Felipe abominava a passionalidade. Com ele não tinha espaço pra chilique. Acho que isso foi uma coisa do chamado amadurecimento, se é que isso existe.”

Já das controvérsias não escapa. Não que goste de brigar, mas, se há um assunto no qual ninguém representa a posição que ela acha que é a certa (pode estar errada), vai em frente. “Não sou destemida. Tenho medo, mas tenho coragem. Não gosto de uma briga, mas não fujo de uma.”

De certa maneira, acha que foi trabalhada pelo pai para isso. É a filha mais velha, única mulher entre três irmãos. Na infância, estudava em colégio de freiras (Rainha da Paz), rezava todas as noites e era “carolíssima” ­ hoje é ateia. O pai, engenheiro muito opiniático, polemista e ateu, tinha o hábito de puxar brigas com ela sobre a existência de Deus. “Hoje eu me pergunto: será que ele se divertia ou será que era sério e queria me convencer? Tenho dúvidas. Seria maldade um homem de 40 anos querer convencer uma menininha de 7. Depois você cresce, esquece o assunto, e quando vê o pai já morreu e não tem como perguntar.”

Apesar de ter colaborado gratuitamente para o jornal “Mulherio”, que tinha a ex-­primeira dama Ruth Cardoso no conselho editorial, quando o feminismo surgiu no Brasil como uma onda forte nos anos 70, o tema não lhe interessou. “Não sei dizer por quê. Eu não me casei, tinha meus namorados, estava feliz. Eu dizia: ‘Ah, tá legal, mas não é comigo isso’. Depois que tive filho, percebi que, por mais que o homem ajude, quem carrega o piano é a mãe, né?”

Quando nasceu o primeiro filho, Luan, hoje com 35 anos ­ há ainda Ana, de 28, de outra relação ­, ela morava numa comunidade em Pinheiros e o namorado, em outra. Nunca viveram juntos, o projeto era criar o filho na comunidade. Era a terceira onde vivia, uma casa grande. “Mas depois de um ano e meio eu não aguentava mais e fui morar sozinha com o Luan. Lembro que foi muito legal porque meus amigos da comunidade continuaram me ajudando. No dia em que eu precisava ficar no consultório até mais tarde, um deles buscava na escola, dava comida.”

Com o filho acabaram as experiências de vida comunitária e os tempos de “riponga”. Uma nova fase veio depois. Viveu com o escritor Reinaldo Moraes (pai de sua filha) e com o jornalista Marcelo Coelho. Mais tarde namorou Alencastro, o poeta Sergio Alcides, e está sozinha há quatro anos, embora tenha tido algumas histórias. Generosa ao falar dos afetos, cita as virtudes de cada um. E nota que, por mais diferentes que sejam entre si, todos escrevem. Essa afinidade na escrita vem desde Inimá Simões, namorado de faculdade e “amigo de cumplicidade infinita”, com quem já assinou vários artigos.

Ter se casado mais de uma vez para ela é falta de sorte, não ideologia. “Sou inquieta demais, sei lá. Sempre gostei de homens que não queriam saber de casar. Eu é que não quero saber de casar, pensando bem.” Rindo, recorda-­se de que quando criança brincava numa casinha de boneca e sua fantasia era a de que tinha um marido que estava sempre longe, viajando. No caso de encontrar alguém no futuro, não acredita que a coabitação será a escolha: “Nunca deu muito certo comigo. Mesmo gostando muito da pessoa, não é meu forte”.

À queixa das mulheres, tanto jovens como mais velhas, de que não há homens no mercado, ela responde com números. “Escuta, isso não é um problema sociológico, é um problema do IBGE. O Brasil tem mais mulher do que homem. No interior da França eles importam meninas da Romênia para casar. Se queixar de solidão é outra coisa.

Tive uma vida amorosa rica, estou disponível, mas não me sinto solitária. Claro que gostaria de ter um companheiro para a velhice. Mas, se não tiver, não é nenhuma desgraça do tipo ‘ah, pobre de mim, estou solitária'”.

De 2006 a 2012, Maria Rita manteve um consultório na Escola Nacional Florestan Fernandes, fundada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guararema, a 70 km de São Paulo. Atendia aos sábados, a cada 15 dias. Para chegar, pegava um ônibus na rodoviária às 9h15 e 45 minutos depois descia na Via Dutra. Atravessava uma passarela e andava um quilômetro por uma “estradinha bonitinha, de interior”. A volta era mais complicada. “Ou você pegava uma carona ou ficava na estrada esperando o ônibus passar. Se ele passasse vazio.” Era cansativo, porque na espera, muitas vezes, ficava ao sol.

Essa experiência lhe permitiu perceber diferenças nas manifestações sentimentais das mulheres que atendia lá em comparação com as de sua clientela habitual. “No meu consultório de São Paulo é frequente ver as moças medirem seu valor pelo fato de ter ou não um namorado ou um marido. E de se sentirem menos mulheres por causa disso.

No MST atendi umas poucas meninas que não tinham companheiro e a questão era mais sentir saudade de alguém ou o desejo de que tivesse dado certo. Não era uma ferida narcísica como é na nossa classe social. Claro que faz falta para qualquer ser humano ter alguém. Mas isso é diferente de você medir o seu valor pelo fato de os homens te darem atenção ou não.”

No consultório do MST, Maria Rita também percebeu uma liberdade sexual muito grande entre as jovens, o que não esperava: “Pensava que seria uma coisa mais moralista, mas entre os jovens não”. E deparou com problemas de alcoolismo, como uma amostra de algo recorrente nas classes populares. Avessa a fazer generalizações, diz que na clínica cada um é um, não tem estatística. “Nossa, gente, é um desperdício!”, exclama, ao ver chegar a comida. Quando o garçom leva um dos pratos para Ana Paula Paiva fotografar, Maria Rita faz graça com ele: “Olha, você é garçom e cenógrafo”. Ao longo da entrevista comerá tudo, deixando apenas a gordura de lado.

Análise ela não faz mais. Fez em três fases diferentes. Uma terapia e duas análises lacanianas “ótimas”. “A análise me desangustiou muito. Aos 7 anos eu tinha muito medo de morrer e de que meus pais morressem. Sei lá por quê. Essas coisas a gente nunca sabe.” Como adolescente era meio deprimida: “Engordei, me achava mais gorda do que minhas amigas e fiquei sem saber o que fazer da vida. Só quando entrei na USP é que minha vida ficou interessante de novo”.

O que ela gostava na psicologia da USP era o ambiente. “Juro, se eu disser que li três livros foi muito! Estudei na época da ditadura [anos 70], a maioria dos professores estava cassada, a linha era psicologia experimental, o tal do ratinho, e a faculdade era uma porcaria.” Aos 22 anos, trabalhava para o “Movimento” (jornal de esquerda da década de 70), quando uma turma de calouros de uma faculdade de São Carlos a chamou para falar sobre “O Brasil de Hoje”. “Fui pensando no ônibus, obsessivamente. Aí quando cheguei tinha uma fala pronta. Eu não tinha uma anotação, mas na hora que comecei a falar saiu blá­blá­blá. Era um ‘embromation’, mas eu era jornalista e aí comecei a ser chamada pra falar. Antes de começar eu ficava com a mão gelada, achava que ia ter vertigem, que ia desmaiar, mas gostava.”

Anos depois, ela se encontrou nos ciclos de debate de questões filosóficas e estéticas contemporâneas, criados por Adauto Novaes, na Funarte. As palestras Os Sentidos da Paixão, O Olhar, O Desejo agitavam São Paulo, Rio e Brasília. “Participei de todos os cursos e cresci muito graças a esse trabalho. Isso me ensinou essa formatação para fazer ensaios maiores.”

Vaidade intelectual? “Ah, tenho. Tenho até que tomar cuidado para não me colocar acima e ver o meu tamanho. Não me acho no topo, mas na linha de frente da minha geração no Brasil. Cuido muito do lugar que ocupo.” Maria Rita aponta para o garçom: “Ele está com cara de cansado, acho que está com sono”. De sobremesa dividimos um “almendrado” ­ fatia de sorvete e amêndoas picadas, com calda quente de chocolate meio amargo.

Quando a conversa termina, Maria Rita pede uma carona. Conta que não tem e não terá mais carro. Anda muito a pé, de ônibus e metrô. À noite pega táxi. “Não é uma posição política ­ ‘ah, estou me sacrificando’. Em 2009, quando vendi meu carro, antes de comprar outro, comecei a andar a pé. Aí me perguntei: gente, o que eu estava fazendo naquela lata? Você fica parada no congestionamento, vem moleque na janela tentar te assaltar. Depois, não tem onde parar e você fica rodando com a lata. Hoje, estou num táxi, parou no congestionamento, eu saio. Fico claustrofóbica.”

Conforto, em sua opinião, é um valor relativo. “Gosto, tenho uma casa gostosa, mas não é o valor da vida. Isso é coisa de velho.” Um dos valores da vida é aventurar-­se. Coisa que tem feito. Ao chegar à porta de casa, agradece a carona e dá um grito de boa-­noite ao guarda noturno antes de abrir o portão.

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