Política sem política e o toma lá, dá cá da moral sem ética

Por Maria Luiza Tonelli

A palavra Ética há muito tempo se faz presente no discurso de políticos de esquerda, de direita, de intelectuais, de colunistas da imprensa nacional, de cidadãos comuns.

Todavia, percebemos atualmente nos vários discursos presentes na mídia e nas conversas, a substituição da palavra ética pela corrupção. Se a palavra ética anteriormente se fazia presente como forma de manifestar exigência por moralidade na política, hoje a palavra corrupção se impõe como tema central dos discursos sobre a política em geral e sobre os políticos em particular. O que vemos hoje é a criminalização da política e dos políticos sob o pretexto do combate à corrupção.

A campanha oposicionista contra a corrupção encabeçada pela mídia, no fundo, é uma forma de desestabilizar o governo, criar constrangimento e provocar desincompatibilização entre a presidenta Dilma Rousseff e os partidos da base aliada. Ao fabricar uma opinião pública adepta da idéia de que o governo atual é corrupto, cria-se uma sensação permanente de crise de legitimidade do governo e da própria democracia. Trata-se, efetivamente, de uma campanha sistemática de desmoralização da política através do moralismo demonizador dos políticos e da própria política. Em suma: faz parte do processo de despolitização da política, característico do capitalismo, tal paixão pela “purificação”, daí o discurso da “faxina” como forma de “limpar” a política.

Esse discurso não tem nada a ver com zelo pela moralidade pública, tampouco com ética “na” política, nem “da” política. A intenção é exercitar aquilo que já se tornou parte constitutiva do exercício jornalístico: a informação em forma de escândalo. Por mais que a mídia (oposicionista) negue que a intenção seja essa, o que vemos em vários artigos e comentários hoje na imprensa é uma verdadeira cruzada moralista. E, como se trata de crença e não de conhecimento, toda crítica a essa “cruzada” é tratada como verdadeira heresia.

A mídia hegemônica contribui para formar uma opinião generalizada da política como o lugar da sujeira, da desonestidade, da incompetência (gerencial), da impureza, ao contrário da esfera privada (do econômico, fundamentalmente), honesta, ética, idônea, competente, pura e limpa – acima de qualquer suspeita. Nas democracias liberais capitalistas, a política é vista como atividade sob suspeita. Não porque deva ser transparente e sob controle dos cidadãos, mas porque é associada às baixezas de toda espécie, maléfica em última instância. O que vemos, portanto, é a adesão à concepção schmittiana do conceito do que é político como relação amigo/inimigo, não como adversários. Não se trata de uma visão do exercício da política como o bom combate de idéias, próprio de uma verdadeira democracia que se caracteriza pelo dissenso. É a democracia concebida como consenso, como imposição de um pensamento único imposto pelos oligopólios midiáticos de um sistema onde direitos de liberdade de expressão e de imprensa são reduzidos à liberdade de empresa.

Além disso, na era do mundo administrado pela razão instrumental, somos obrigados a aceitar uma redefinição contemporânea da política como a arte da administração competente, nos moldes da empresa privada, cujo objetivo é o lucro e não o bem comum. Isso está na raiz da compreensão da corrupção sob a ótica puramente monetária e não sob a perspectiva do direito (porque é crime) da moral (porque é desvio de conduta) e da política (porque a corrompe em sua essência, que é coisa pública). Logo, a indignação com a corrupção traduzida no desejo de “limpeza” da política nada tem a ver com sentimento de indignação contra a indistinção entre interesse público e interesse privado.

Este debate sobre a corrupção, concebida exclusivamente em seu caráter monetário e não pelo viés normativo (inerente à questão da moralidade pública), além de não contribuir para uma discussão necessária que envolve toda a sociedade, tendo em vista que a corrupção se dá entre o público e o privado, retira da corrupção o seu caráter de fenômeno eminentemente político. Tratar a corrupção como questão de “faxina” é próprio de uma concepção de mundo reacionária e higienista, onde os “impuros” tem que ser eliminados. É a política sob a lógica da concorrência econômica, característica de uma concepção da política sem política, por mais paradoxal que isso possa parecer. Significa a dessubstancialização da política.

Assim, ao invés da política do mundo real, impõe-se uma concepção da política de uma “Realidade Virtual” que, segundo o filósofo Slavoj Zizek, generaliza o processo de oferecer um produto esvaziado de sua substância. O que quer a mídia, como partido político de oposição, é política sem política. E política sem política é o poder econômico sobrepondo-se ao poder político. Para obter poder político. Ou, no mínimo, força política. É o verdadeiro toma lá, dá cá, da política a serviço do poder econômico. Nada mais antidemocrático.

O discurso do combate à corrupção não pode ter dois pesos e duas medidas. A compreensão da ética da política e na política exige o uso da razão de sujeitos dotados de autonomia suficiente para julgar o certo e o errado e nisso reside a necessidade de informação para que os indivíduos tenham a oportunidade de formar sua própria opinião. Liberdade de expressão e liberdade de imprensa são direitos essenciais numa democracia. A primeira é um direito fundamental individual do uso da palavra. A segunda, a liberdade da sociedade ou de uma empresa comercial tornar pública a informação. Quando a liberdade de imprensa, ou de mídia, abdica de seu papel social e político-democrático em favor da lógica do lucro econômico ou político, livre de toda a responsabilidade com o papel que deve desempenhar na democracia, não é apenas a ética jornalística que se relativiza, mas a ética no sentido pleno da palavra.

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