Politicamente fascista

Por Marcelo Coelho
FSP

Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer “incorreto”

O COMEDIANTE Danilo Gentili pediu desculpas pela piada antissemita que divulgou no Twitter. A saber, a de que os velhos de Higienópolis temem o metrô no bairro porque “a última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”.

Aceitar suas desculpas pode ser fácil ou difícil, conforme a disposição de cada um. O difícil é imaginar que, com isso, ele venha a dizer menos cretinices no futuro.

Não aguentei mais do que alguns minutos do programa “CQC”, na TV Bandeirantes, do qual é ele uma das estrelas mais festejadas. Mas há um vídeo no YouTube, reproduzindo uma apresentação em Brasília do seu show “Politicamente Incorreto”, em outubro de 2010.

Dá para desculpar muita coisa, mas não a falta de graça. O nome oficial do Palácio do Planalto é Palácio dos Despachos, diz ele. “Deve ser por isso que tem tanto encosto lá.” Quem o construiu foi Oscar Niemeyer, continua o humorista. E construiu muitas outras coisas, como as pirâmides do Egito.

A plateia tenta rir, mas só fica feliz mesmo quando ouve que Lula é cachaceiro, ou que (rá, rá) o nome real de Sarney é Ribamar. Prossegue citando os políticos que Sarney apoiou; encerra a lista dizendo que ele só não apoiou o próprio câncer porque “o câncer era benigno”.

Os aplausos e risadas, pode-se acreditar, vêm menos da qualidade das piadas e mais da vontade de manifestação política do público. Detestam-se, com razão, os abusos dos congressistas brasileiros. Só por isso, imagino, alguém ri quando Gentili diz preferir que a capital do país ficasse no Rio: “Lá pelo menos tem bala perdida para acertar deputado”.

Melhor parar antes que eu fique sem respiração de tanto rir. Como se vê, em todo caso, o título do show não é bem o que parece. “Politicamente incorreto”, no caso, faz referência às coisas erradas feitas pelos políticos, mais do que ao que há de chocante em piadas sobre negros ou homossexuais.

A questão é que o rótulo vende. Ser “politicamente incorreto”, no Brasil de hoje, é motivo de orgulho. Todo pateta com pretensões à originalidade e à ironia toma a iniciativa de se dizer “incorreto” -e com isso se vê autorizado a abrir seu destampatório contra as mulheres, os gays, os negros, os índios e quem mais ele conseguir.

Não nego que o “politicamente correto”, em suas versões mais extremadas, seja uma interdição ao pensamento, uma polícia ideológica.

Mas o “politicamente incorreto”, em sua suposta heresia, na maior parte das vezes não passa de banalidade e estupidez.

Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. “Mulheres são burras!” “Ser contra a guerra é viadagem!” “Polícia tem de dar porrada!” “Bolsa Família serve para engordar vagabundo!” “Nordestino é atrasado!” “Criança só endireita no couro!”

Diz ou escreve tudo isso, e não disfarça um sorrisinho: “Viram como sou inteligente?”.

“Como sou verdadeiro?” “Como sou corajoso?” “Como sou trágico?” “Como sou politicamente incorreto?”

O problema é que “politicamente incorreto”, na verdade, é um rótulo enganoso. Quem diz essas coisas não é, para falar com todas as letras, “politicamente incorreto”. Quem diz essas coisas é politicamente fascista.

Só que a palavra “fascista”, hoje em dia, virou um termo… politicamente incorreto. Chegamos a um paradoxo, a uma contradição.

O rótulo “politicamente incorreto” acaba sendo uma forma eufemística, bem-educada e aceitável (isto é, “politicamente correta”) de se dizer reacionário, direitista, fascistoide.

A babaquice, claro, não é monopólio da direita nem da esquerda. Foi a partir de uma perspectiva “de esquerda” que Danilo Gentili resolveu criticar “os velhos de Higienópolis” que não querem metrô perto de casa.

Uma ou outra manifestação de preconceito contra “gente diferenciada”, destacada no jornal, alimentou a fantasia mais cara à elite brasileira: a de que “elite” são os outros, não nós mesmos. Para limpar a própria imagem, nada melhor do que culpar nossos vizinhos.

Os vizinhos judeus, por exemplo. É este um dos mecanismos, e não o vagão de um metrô, que ajudam a levar até Auschwitz.

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Mévia 18 de maio de 2011 13:14

    Corrigindo, não tem graça nenhuma os intergrates “humoristas” do CQC…

  2. Mévia 18 de maio de 2011 13:12

    Não tem graça nenhum dos integrantes do CQC, falta respeito para com os entrevistados, não consigo perder tempo assistindo a tal programa. Uma boa leitura faz bem a qualquer pessoa que não tenha o que fazer, recomendada principalmente para quem não está muito bom de português, incluindo leituras que contenham humor. Quanto ao politicamente incorreto, não passa de um termo facista, portanto, na minha opinião, “incorreto” ou “facista” dá na mesma, é discriminação e racismo do mesmo jeito.

  3. Gabriel 18 de maio de 2011 12:56

    Politicamente incorreto é, no caso, um termo humorístico para alguém que fala essas frases acima sem crer em nada.
    Facismo é uma doutrina totalitária, não tem a ver com humor ou qualquer difamação e manisfetação de indignação.
    Sou gay, faço piada sobre ser gay e isso me tira a dignidade e o respeito. Encarar situações com bom humor faz a vida melhor. Se não podemos rir de nós mesmos, está na hora de fazer uma terapia.
    Se souber o que está falado é besteira, não há necessidade de indignação. Com ou sem graça fica a critério de quem ouve.

  4. Varela Cavalcanti 18 de maio de 2011 11:51

    Quem disse que o CQC é um programa humorístico?

    Quem disse que seus apreesentadores são humoristas?

    Quem disse que eles são politicamente incorretos?

    Que inventou que para ser engraçado é preciso ser cretino?

    Quem disse que há humor na televisão barsileira?

  5. Marcos 18 de maio de 2011 10:20

    “‘Politicamente incorreto’ é a qualificação que aparece nas descrições e nos (auto-)elogios de 99% dos humoristas brasileiros. E, na maioria dos casos, é a única apresentada. Fulano é engraçado? Ah, ele é politicamente incorreto que só vendo. Desrespeitar minorias virou condição necessária e suficiente para se fazer humor. Soltou um ‘crioulo safado’, desmunhecou, a claque vem abaixo.”

    http://almanaque.wordpress.com/2009/07/27/a-gloria-de-um-covarde/

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