Polonaises

Praça central de Poznan, Polónia

Amo a Polônia. E para amar esse belo país não precisei ir lá. Ele veio mim em versos, sons, romances, reis, bispos e rainha. E, sobretudo, na lembrança dos meus amigos polonêses que conheci na Itália em 1986.
Primeiro foi a música maravilhosa de Chopin que me chegou meiga e dilacerante. Não há nada mais belo que uma valsa e noturno de Chopin. Não há nada mais arrebatador que suas polonaises e mazurkas. Pode faltar tudo, mas não concebo o mundo sem a música de Chopin. Ela é mesmo a trilha sonora da minha existência.

Depois foi a bela poesia da polonesa Wislava Zsymborska. A polonaise do meu irmão Leminski. Os grandes romances do Joseph Conrad e seu Lord Jim. Gombrowicz e o exuberante Trasatlantico. Difícil navegar por esses mananciais e não naufragar. E não afundar na essência da existência de uma terra muito tempo dominada pelos russos e sobre o julgo do temível Tzar.

Na Polônia também tem diminutivos. E na Polônia também nasceu uma das maiores cientista do século XX. Madame Curie ganhou duas vezes o premio Nobel e foi uma cientista sem vaidade. No próximo ano será comemorado o ano internacional da Química em sua homenagem. Sobre ela escreveu sua filha Eva Curie. Um grande livro traduzido por Monteiro Lobato.

Da Polônia também amo a Vodka Wiborowa. Esse país também me chegou em vozes, gestos e afetos. Em 1986 fazia um curso de Sismologia na Itália com a participação de pessoas do mundo inteiro. Dividi um apartamento com um polonês e um nigeriano. Do nigeriano tivemos de pedir para não fazer xixi na banheira. E com o polonês fiz uma grande amizade. Muitas e muitas noites conversando vendo o Adriático. Eu levei cachaça que ele adorou e eu tomei sua Vodka. A cachaça não era forte para ele tomador de Vodka.

Conversamos muito sobre os nossos países. Ele falou dos livros que lia às escondidas durante o regime ditatorial. Um tipo de literatura subway. Meu amigo perdeu toda a sua roupa na viagem para a Itália. Ficou só com a roupa do corpo. Lavava à noite e dormia pelado. Andava assim, naturalmente. Foi nesse tempo que vi ao vivo os europeus russos, italianos e poloneses se beijando ao se cumprimentarem. Numa boa para os meus costumes de uma terra devastada por preconceitos e longe da grande cultura dos queridos poloneses. Meu amigo me convidou para conhecer Varsóvia. Não fui e ainda hoje me arrependo. Ao final do curso em Triste, soube pela prima volta o que era uma estação ferroviária e suas despedidas. Profundamente triste.

Ainda nessa viagem conheci uma polonesa. Bela, meiga, culta e sem vaidades. Andava com pouco dinheiro. Não estava como aluna do curso. Ao sair das aulas durante todo o dia com os ouvidos cansados do Inglês com os mais diferentes sotaques, encontrava com a polonesa e íamos tomar banho no belo Adriático. Eu não tinha coragem de entrar naquela água fria. Gelada para meus costumes, tropical e friorento. Minha amiga tirava a parte de cima e ficava só de calcinha. Entrava no mar tranquilamente e eu em estado de graça e de deslumbramento mediterrâneo. Que bela. Ofereceu-me para comprar e ajudar na sua estadia na Itália, um tabuleiro de xadrez com suas belas peças artesanais. Trago ele comigo como um troféu. Como um souvenir das lembranças dos meus queridos amigos poloneses.

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