Pólvoras

Por Paulo Scott
BLOG DA COMPANHIA

Em que ano e para qual geração recente o século XX se tornará por completo um século antigo e incompreensível? Um século de comportamentos e lógicas não mais compatíveis? Difícil dizer. Por certo não será minha geração que sentirá esse descompasso; por certo o olhar divisor desse eventual quadro de ciclos, e o desfazimento da simetria entre os seus vagões, não será o meu. Ainda assim, tenho lidado com a sensação crescente de que já não conversam na mesma linguagem, no mesmo desassossego, o século que me formou e este século no qual me encontro.

Durante o ano de dois mil e catorze, manifestação alguma me deixou mais entregue à noção de estar (definitivamente embarcado) em história que vem se encarregando de me fazer esquecer as tatilidades do século XX, do que a declaração de uma tradutora francesa, em debate ocorrido em São Paulo, dizendo ter certeza que, em pouquíssimos anos, por causa dos esforços e interações diárias e adesões dos melhores tradutores e especialistas em linguísticas espalhados pelo mundo interagindo com essa ferramenta, o Google Tradutor seria capaz de traduzir um romance brasileiro para o francês, para o inglês, com um grau impressionante de proficiência.

O choque se renovou quando alguém da plateia, dizendo-se pesquisador universitário (desculpem, mas não consigo me lembrar em que grau) envolvido em processos de acompanhamento e contribuição à mencionada ferramenta do Google, disse que a formulação da tradutora francesa estava longe de ser absurda, antes pelo contrário.

Na condição de integrante da mesa por ser autor brasileiro traduzido do português para outras três línguas, nada além, desconectei por completo as chaves e fiações que poderiam me levar a outra intervenção naquele debate, a dizer algo que estivesse à altura, não que estivesse à grande altura, do que falei minutos atrás, quando contei da minha experiência com os tradutores dos meus textos e também quando informei a respeito de encontros ocorridos em eventos literários nos quais dois tradutores submetem suas traduções feitas a partir de um texto específico e, sob o arbitramento de um terceiro tradutor, procuram chegar, ali diante de todos, ao que seria uma boa tradução, e — tentando achar meu esforço para traduzir um poema em inglês, era um do Dylan Thomas, para a língua da minha pátria e sem saber que, meses depois, o Google Tradutor lançaria um olhar, um olho, para ficar dentro do meu celular, que se corretamente apontado para um texto em língua estrangeira mastigaria a língua estrangeira, regurgitando a familiaridade da língua da minha pátria num estalar de dedos — fiquei acompanhando a conversa, aquela boa conversa, sem tentar acrescer mais nada.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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