Pompa e circunstância…

Teatro.

A semana termina de forma curiosa. Após uma longa e muitíssimo importante discussão sobre se os poetas daqui escrevem merda com perfume ou perfume com merda, e se devem compor uma antilogia ou uma antologia internacional, tivemos o colorido e chique casamento dos duques de Cambridge, William e Catherine.

Bem à altura, convenhamos. Um evento substancialmente real. E plural. A Abadia de Westminster estava mesmo lotada e imponente, como há alguns anos. E, do lado de fora, os súditos quase que urravam de felicidade e excitação.

Eu confesso que suspirei diante da quase perfeição do evento. Um teatro delicioso. Estética e arte. Música de primeira e belas imagens. Algumas damas com chapéu exagerado e de gosto duvidoso, fardamentos eclesiásticos e militares lustrosos e muitos, muitíssimos cavalos…de todas as cores e raças…

Mas, diante da belíssima (e nada fake) Duquesa Kate, tudo perde em qualidade. Tudo fica esmaecido. Merece até uma foto aí do lado direito. Ao lado do Momba, gente boa e real mesmo.

Já é a minha preferida. Deus salve a futura Rainha.

Só não avistei nas imagens televisadas a imagem do meu querido arcebispo angicano, digo: anglicano.

O que me surpreendeu, também, foram alguns comentários televisivos (na Globo e no SBT) em péssimo português emitido por alguns muito entendidos na língua inglesa e coisas da realeza. Gente que entende de moda, tradução e de cerimônia, mas não sabe nada acerca da humilde língua pátria herdada dos irmãos de Camões e Fernando Pessoa. Muito menos entendem da poesia do casamento, porque não gostam e não querem.

E, assim como Londres, Natal está nublada. Mas, é bom assim. Há tempos que se morria “esfakeado” pelo calor nestas barricadas bélicas virtualmente naturais de nossa pecaminosa Capital.

E, por derradeiro e por alguma razão estranha, lembrei-me extemporaneamente que Manuel Bandeira tinha mesmo problemas substancialmente pleurais.

E o que é real não pode ser falso. Senão, vira um oxímoro. E aí…

Teatro. A semana termina.

p.s. O fog de Natal está cerrado, encobrindo tudo. Goodbye blue sky. Goodbye. Goodbye.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 15 comentários para esta postagem
  1. chico m guedes 2 de maio de 2011 22:33

    Lex, só tem um senhor que usou a palavra sublime sobre o casamento real. eu disse que gosto demais de ritual e liturgias e por isso fiquei comovido em alguns momentos. depois falei de magia do ritual me referindo aos rituais em geral: sem acreditar em Deus, já chorei em missa solene, com coral cantando Bach e tudo, na qual caí de paraquedas, porque tava visitando Colônia a trabalho e deu de passar perto do Dom na hora. Mesma coisa, por exemplo, ao entrar por acaso no meio de um ritual ortodoxo no leste da Europa. Acho que isso tem a ver com ter frequentado muito a velha catedral de Natal no tempo que missa era em latim e meu tio padre moreira era vigário de lá. É tanto que acho totalmente sem graça as missas em português da igreja pós-concílio (com essas musiquinhas de hoje então); sem incenso e outros apetrechos velhos e obscuros não tem a menor graça. Ou talvez seja só viadagem também. Mas de toda maneira não preciso pedir licença, né?
    Tive outra passagem arrepiante, em Córdoba, visitando a grande mesquita num domingo (único dia que não pagava pra entrar), quando de repente senti cheiro de incenso e canto gregoriano vindo eu não sabia de onde, porque ainda não tinha ainda visto no centro da imensa floresta de colunas, encrustrada como uma grande lagosta, a catedral com que Isabel estuprou a mais impressionante das mesquitas ibéricas pra deixar claro quem dava as ordens depois da retomada da cidade.
    Normal vc achar mequetrefe, se é como lhe parece. A mim impressiona que o ex-império consiga montar tão repetido (e repetitivo) ritual de casório com tanta precisão e elaboração, deixando transparece,r ao mesmo tempo, uma grande sensação de ‘ease’, de coisa feita sem grande esforço. Bom, com quase mil anos de repeticão, já era mesmo pra eles estarem escoladinhos. E afinal, é pra isso que eles estão lá ainda, pra de vez em quando impressionar e mobilizar a sensibilidade de tolos como eu, e encherem as burras com isso. xêro

  2. Lívio Oliveira 30 de abril de 2011 17:36

    Tô grato. rsrsrsrsrs

  3. Alex de Souza 30 de abril de 2011 11:22

    sublime é, abre aspas, “o efeito estético que inspira ao mesmo tempo horror e dor, provocando emoções e contrapondo-se à placidez da beleza”. se esse casamento mequetrefe causou essa sensação aos senhores, tô parmo.

  4. Lívio Oliveira 30 de abril de 2011 6:32

    É importante sublinhar, caro Chico, que esse evento tem um caráter de fenômeno histórico que transcende a bela teatralidade com que foi trabalhado. Qualquer bom historiador, dentre eles o britânico Andrew Roberts (li uma entrevista em o Globo) se interessaria em acompanhar o evento e alguns até afirmam sua importância mais que simbólica para a continuidade do regime monárquico na Inglaterra. Senão, vejamos esses trechos da entrevista de Roberts:

    “O GLOBO: Por que esse casamento é diferente?

    ANDREW ROBERTS: Bodas e enterros são ocasiões esperadas no caso da monarquia, em que a mesma família se perpetua no trono. Mas esta união em si é algo diferente, apresenta uma nova era para os Windsor, ainda que a ascensão de William ao trono vá demorar. Kate Middleton é um trunfo junto ao público, sobretudo porque passa uma imagem de modernidade para a casa real.

    O GLOBO: Tudo por causa da origem plebeia?

    ROBERTS: Sim, pois ela representa algo novo em quase 400 anos. Lembremos uma coisa: Kate Middleton passará mais tempo em sua nova função do que qualquer líder de um país democrático ficará no poder. Mesmo que não faça mais nada, sua chegada à família foi algo histórico.”

    E esse outro trecho:

    “O GLOBO: Alega-se que o efeito da monarquia sobre o ânimo da população é superestimado…

    ROBERTS: Esse casamento não é apenas sobre um vestido bonito, e a monarquia tampouco é preservada apenas para atrair turistas. É importante para a maneira como o país é governado, e o fato de a monarquia ser tão apoiada mostra que a classe política não conta com a confiança total da população. Na verdade, os níveis de confiança nos políticos estão abaixo dos registrados para agentes imobiliários e jornalistas!”

    Logo se vê a importância histórica do evento…

    [Dessa entrevista, ler mais em: http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/04/28/kate-um-trunfo-junto-ao-publico-diz-historiador-britanico-924344893.asp#ixzz1KzqrMIkT%5D

  5. Marcos Silva 30 de abril de 2011 1:16

    Acho esse ritual aí infinitamente chato. Não vi. Sublimes, pra mim, são outras coisas. Mas é claro que cada um sabe o que lhe agrada, não administro o prazer alheio.

  6. Lívio Oliveira 29 de abril de 2011 21:05

    O sublime, Chico, merece ser valorizado. E a competência, também. Os britânicos são competentes. Abraço pra você.

  7. chico m guedes 29 de abril de 2011 18:31

    lívio, como não sou madrugador, vi em pedaços, em replay; mas, bicho amante de ritual e liturgia que sou, também fiquei comovido com a beleza e precisão da pompa e circunstância dos brits, insuperáveis na matéria.
    e quem sou eu pra ouvir, impassível, Jerusalem, hino posto sobre o poema de Blake, ecoar na velha abadia no final da cerimônia!
    o encanto com a magia do ritual me faz lembrar a célebre frase de Oscar W: “It is only shallow people who do not judge by appearances. The true mystery of the world is the visible, not the invisible.” abraço

  8. Lívio Oliveira 29 de abril de 2011 17:19

    Beijinho, princesa Anne, aqui de Trafalgar Square.

  9. Anne Guimarâes 29 de abril de 2011 15:57

    Beijinho, Lívio…
    E um lindo final de semana pra vc e sua casa.
    🙂

  10. Jairo Lima 29 de abril de 2011 15:29

    Quem sou eu, mestre Jarbas, pra dar lição, ainda mais de poesia? Oxímoro, poeta, é que nem chocolate, iguaria fina, dicomê aconchegante e felicitador. Mas, se comer de mais, dá caganeira. É isso. Ou, pelo menos, foi isso que tentei dizer. Se eu fosse pegar uma briga com quem usa oxímoro, começaria por mim mesmo, e saia na porrada com Shakespeare, Machado, Camões e os cambau. Abração, poeta, sua paz, Mestre!

  11. Lívio Oliveira 29 de abril de 2011 13:54

    Somente não concordo em criar tabus com relação a certos temas. Principalmente em se tratando de discussões sobre o fazer poético.

  12. Lívio Oliveira 29 de abril de 2011 13:46

    Olha, Jarbas, acho que o Jairo Lima (de quem gosto muito e por quem tenho extremo apreço intelectual) não sairia por aí dando “lições” nesse sentido de que você está falando. Ainda mais porque temos nos falado algumas vezes ultimamente (tomamos umas boas dia desses), e ele nunca se manifestou expressamente zangado por conta de nossas brincadeiras bestas com os oxímoros.

    Até mesmo porque eu concordo com ele e já assimilei essa informação da estética e da construção do poema.

    E ele é inteligente e bem-humorado demais para isso.

    Ok?

    De qualquer sorte, qualquer lição, se vinda de Jairo Lima, será sempre bem recebida por mim. E as suas também, grande Jarbas.

  13. Jarbas Martins 29 de abril de 2011 10:54

    Olha, Lívio, não quero mais falar em oxímoro, não.Parece que o mestre Jairo Lima, a quem tanto apreço tenho pela sua grande poesia,não gostou de nossas brincadeiras.E terminou nos dando uma lição.

  14. Lívio Oliveira 29 de abril de 2011 10:18

    É tudo real, Ednar. Beijoca, diretamente de Piccadily Circus.

  15. Ednar Andrade 29 de abril de 2011 10:06

    …Lívio, gosto do seu… Senso… E… Humor…

    Plac, plac, plac!

    E assim, termina mais uma semana…

    O teatro permanece… Os personagens, às vezes, mudam.

    Como dizia alguém que conheço: “muda o nome do bolo, mas o recheio é o mesmo”… Rs…

    Abraço, querido.

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