Pop cult 21

Por Felipe Hirsch
O GLOBO

Arnaldo Jabor, há três anos, escreveu uma bela coluna com o seguinte tema: “Houve um tempo em que uma obra-prima artística influenciava a História do nosso país. Hoje, as obras culturais não repercutem mais na consciência das pessoas.” Palavras de Jabor, “a cultura mudava a política; hoje, como dizia o grande Oswald de Andrade, a bosta mental é tanta que nada ilumina o pensamento nacional. Fica tudo no gosto ou não gosto”, nos achismos, na crítica barata e superficial, nos recentes espaços múltiplos usados sem consciência, fica entre os covardes anônimos da internet.

O artigo segue: “A arte de mercado só nos compacta num formigueiro medíocre. Essa peça, ou esse filme, são imperdíveis. E quantos a perderão?” Neste país, unificado pelo falso populismo e pela barbárie, a arte é a porta de fuga que ainda temos. Lembro sempre dessa coluna. Lembrei quando passeei, recentemente, na Bienal de São Paulo, lembrei quando ouvi “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto, lembro quando vejo Nanini e Mariana Lima no palco. É o tal mundo saturado e moroso, citado pelo Waltercio Caldas. “Saturado, repleto de uma proliferação de imagens inócuas. Moroso porque cultor de uma velocidade enganosa.”

Quando saí sozinho do cinema, do filme “Um homem sério”, dos irmãos Coen, fui andando até a praia para recuperar minha respiração. É um dos maiores filmes que já vi. Como já havia sido “No country for old men”, a inesquecível adaptação de Cormac McCarthy saudada, ironicamente, como um clássico instantâneo. Aquela obra-prima sobre envelhecer, e que no entanto teve o título traduzido para a nossa língua, irresponsavelmente, para “Onde os fracos não têm vez”. Esse “Um homem sério” é integralmente um clássico. Sabe aquelas cenas memoráveis, escolhidas entre seus filmes preferidos? “Um homem sério” é, do começo ao fim, uma sequência delas. E no entanto, muito poucos viram, poucos comentaram, não foi decretada folga nas escolas, e mesmo os habitantes da praia pareciam mais desinteressados do que o habitual naquele dia. Na época, uma rara brilhante crítica citava o início do filme: “Receba com simplicidade tudo o que acontece com você.” Frase do Rabbi Shlomo Yitzhaki.

“Para absorver o sopro do corpo de Deus”, esse filme diz, “é preciso estar completamente vivo”.

Assistir a esses filmes dos Coen Brothers é como passar a década de 50 vendo Billy Wilder. Naqueles dez anos, o mestre compôs pelo menos cinco clássicos.

“A foreign affair” (que é de 1948), “Sunset Boulevard”, “Love in the afternoon”, “Some like it hot” e “The apartment”.

Isso se não quisermos citar “One two three”, “Witness for the prosecution”, “The seven year itch”, “Sabrina” e “Ace in the hole”, o que aumentaria o número de clássicos criados naquela década para dez. Uma história que adoro sobre Billy Wilder é a de como ele refez o início de “Sunset Boulevard”. Já vi imagens dos fotogramas originais: mortos cobertos conversando, com etiquetas presas nos dedos dos pés, nas gavetas de um necrotério. Cada cadáver contando o que o levou à morte. Um deles era Joe Gillis, personagem de William Holden. Roterista de Hollywood que sonhava fixamente em ter uma piscina. E que quando a conseguiu, morreu afogado nela. Nas sessões-teste do filme, longe de Los Angeles, na pequena cidade de Evanston, no Illinois, a audiência gargalhava com aquela comédia negra.

Contrariado com a reação, Billy Wilder filmou o clássico monólogo de Joe Gillians, boiando morto na piscina, que introduz a história. Para isso, a piscina foi revestida com espelhos, e sua água, aquecida, para que o fotógrafo John F. Seitz registrasse a cena daquele ângulo.

Fellini mudou o final de “8 1/2”. Na última sequência do corte original, as personagens seguiam para uma misteriosa viagem de trem. A cena foi refilmada por Woody Allen em “Stardust memories”.

A primeira aparição de Sharon Stone numa tela de cinema.

Woody Allen dividiu suas personagens em dois vagões.

O dos glamourosos vencedores o dos perdedores, onde Sandy Bates, seu personagem, viajava. Woody Allen, desde então, desde 1977, com “Annie Hall”, nos oferece, todos os anos sem falta, uma de suas obras-primas. Enquanto isso, o fictício diretor Guido Anselmi ou Marcello Mastroianni ou Fellini em “8 1/2”, continua sendo um símbolo do outro lado da moeda. O lado dos artistas, assombrados por suas criações e memórias, tentando fazer sentido em um mundo inconsciente.

Ou como diz Leonard Cohen em seu último show: “Somos tão privilegiados de podermos nos reunirem momentos como este, quando uma parte grande do mundo está mergulhada na escuridão e no caos”.

Ou ainda: “As coisas vão se mover rapidamente em todas as direções, você não será capaz de mensurar mais nada.” Algumas partículas são perceptíveis e permanecerão.

Em 1995, Lars Von Trier revelou ao mundo seu Manifesto Dogma ou Voto de Castidade.

Citava o anunciado “fim do cinema” em “Weekend”, de Godard, para propor sua ressurreição.

Achei lindas as críticas a seu recente “Anticristo”, mesmo as mais agressivamente desfavoráveis. Como uma espécie de Guido Anselmi de Fellini, o “Daily Mail” disse que Lars precisava de “ajuda psiquiátrica”. Outros ensaios sobre o filme falavam sobre o “desespero profundo”, “passeio pelo cérebro de um gênio”, “garfadas nos olhos”, “imagens que podem impressionar até mesmo Hieronymus Bosch”. Concordo com uma crítica que diz que a mente de Trier é o lugar mais perigoso do cinema moderno.

Assistam “De fem benspænd” (“As cinco obstruções”) e comprovem. Mas que perigo é esse frente ao nosso mundo distópico, cyberpunk? High tech, low life. Muita informação, pouca assimilação.

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