Pop cult 68

Por Felipe Hirsch
O GLOBO

Como disse, o ano musical continua. Estou aqui ouvindo “O micróbio do samba”, da Adriana Calcanhotto, que é ótimo

Esta não é uma coluna sobre os melhores lançamentos do ano de artistas do nosso país, e sim de destaques, na minha opinião, do que ouvi. 2011 foi embalado pelos bons lançamentos do ano passado, como o do DJ Tudo, com “Nos quintais do mundo”, e Marcelo Jeneci, com “Feito pra acabar”, só pra citar poucos. Os clássicos seguem firmes: Chico lançou seu melhor disco desde “Paratodos”, lançado há 18 anos. “Chico” é um disco delicioso, corre solto, seu formato de câmara o fez menos pesado e mais denso. Seu lançamento foi pensado, curioso, e despertou o interesse que um lançamento de Chico Buarque por si só já despertaria, mas foi além do mecanismo esgotado. Com isso, privilegiados, tivemos a oportunidade de conhecer na intimidade canções como “Essa pequena” e “Se eu soubesse”, a inacreditável (só o Chico) “Nina”, “Barafunda”, a genial e angustiante “Querido diário” e o samba já razoavelmente íntimo e belíssimo “Sou eu”. A conclusão é a de um disco do Chico de bem com a música. Usando seu método cronogramado de criar livros e discos, alternadamente, com mais leveza e menos compromisso. É um disco apaixonado, amador, com a mesma chama que o levou a criar suas obras-primas. Se essa luz ainda aparecia nos últimos discos, neste ela se reforça e nos guia como, ao longo da história da música do nosso país, sempre fez.

Quem se preparou pra fazer um outro grande disco foi Gal Costa. Como sempre nos táxis do Rio, andei ouvindo Gal cantando “Nem eu” e revisitei, na cabeça, alguns grandes discos da década de 1970, como “Meus caros amigos” e os de Gal. Sem saudosismos inúteis, Caetano constrói um disco fortemente inspirado e arriscado com as texturas eletrônicas de Kassim e solta a voz de Gal em canções tristes e pesadas como “Tudo dói” e “Recanto escuro”. Em outras, escolhe caminhos surpreendentes, como em “Sexo e dinheiro” e na linda “Autotune autoerótico”. Tudo é consistente, e Gal leva tudo para além do nosso tempo vulgar, em pérolas como “ Madre Deus” e “Mansidão”. Dentro do nosso tempo , existe outro tempo além dos bons tempos guardados em nossas lembranças. As coisas é que se movem rapidamente em todas as direções e nossa percepção se dispersa. É preciso estar atento. Kassin também lançou o conceitual “Sonhando devagar” neste ano.

Merecidamente anunciados como os grandes discos do ano foram os de Wado, batizado “Samba 808”, o “Nó na Orelha”, do Criolo, e, principalmente, “Um labirinto em cada pé” de Romulo Fróes, que também lançou o ótimo disco do coletivo Passo Torto. São quatro discos especiais e valem toda a atenção e o carinho dos ouvintes. Reproduzindo o samba, Wado consegue autenticidade e não perde tempo com simulações. É íntegro, e renova. Criolo é bastante eclético. Não é um disco de rap e nem se propõe a ser unicamente isto. O que surpreende é que ele, suavemente, parece conseguir chegar até onde vislumbrou. Outra boa sensação de ouvir esse disco é a de quando acontece, digamos assim, um milagre que torna uma construção razoavelmente complexa e díspare, fácil, pop e acessível de ouvir. É uma mágica que torna único e raro esse momento. Isso, infelizmente, gera uma série de tentativas frustradas de repetir essa sensação. Vindas de outros artistas, candidatos a artistas e, o que é pior, às vezes do próprio artista. Mas Criolo parecer ser muito inteligente e especial para perceber isso e nos trazer mais alegrias, certamente diferentes dessa.

Essas cópias aguadas aconteceram aos montes no que diz respeito ao legado dos Los Hermanos, por exemplo. Aos poucos o talento de Cícero consegue escapar disso com “Canções de apartamento”. E, falando nos originais, Marcelo Camelo lançou “Toque dela”, e Mallu Magalhães, influenciada, respondeu com “Pitanga”, seu primeiro trabalho maduro. Outros bons discos lançados neste ano são “O destino vestido de noiva”, de Fabio Góes, o divertido “Setembro”, de Junio Barreto, e “Taxi imã”, de Pipo Pegoraro. A big band Bixiga 70 lançou seu primeiro e grande disco com produção de Victor Rice. Um movimento interessante surge no baile do bairro. Entre os melhores discos de rap do ano, destaco o criativo “Doozicabraba e a Revolução Silenciosa”, do rapper Emicida, e a fábula da periferia paulistana chamada “Crônicas da Cidade Cinza”, de Ogi. Há alguns anos venho me ligando cada vez mais na música que Maurício Takara faz. Desta vez, o jogo é o complexo São Paulo Underground, em “Três cabeças loucuras”. Ouvi no MySpace (ainda) Marginals, e é bastante interessante. Silvério Pessoa e Collectiu nos brindam com o disco “Encontros occitans”, que propõe um casamento entre a música nordestina e a da região sem fronteiras da Occitânia, no sul da Europa.

Lira é lindamente produzido, Karina Buhr lançou outro ótimo trabalho, e um disco novo do Mundo Livre S/A, como esse “As novas lendas da etnia toshi babaa”, é sempre motivo pra comemoração. China lançou o ótimo “Moto contínuo” e, como muitos nesta coluna acima, também é de Pernambuco, o que reafirma o pulso criativo frenético desse estado. Levemente desprezado foi o ótimo disco do Vanguart, chamado “Boa parte de mim vai embora” Adorei ouvi-lo. Pessoalmente gosto de suas raízes expostas acho-os autênticos nessa mistura de música de cidade pequena do oeste Brasileiro, São Paulo Rua Augusta e folk. Também adorei ouvir o disco de Anelis Assumpção, “Sou suspeita, estou sujeita, não sou santa”, cheio de ecos do seu pai, mas mostrando a que veio.

“Desconocidos”, álbum do Quarto Negro, e “Serenade of a sailor”, do Momo, são bons lançamentos de 2011 também. Mas, como disse, o ano musical continua. Estou aqui ouvindo “O micróbio do samba”, da Adriana Calcanhotto, que é ótimo.

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