Por debaixo da porta

Nas horas em que me ausento e que o sono não me chega refugio-me na palavra e nela faço abrigo. Minhas musas falam baixo e é no silêncio da fronteira entre dia e noite que eu as consigo ouvir. Por vezes estou mal de ouvidos e me distraio. Em horas assim, é que ela me vem feito um fantasma, tateando no escuro a minha solidão e me arrastando para outra margem de mim. De algum lugar, tão longe que nem alcanço, em pensamento, ela parece me ver. Escreve-me coisas humedecidas, palavras carregadas de alma e de espanto de espantar Morfeu. Ela chega sempre nas noites insones, frias e penetra por debaixo da porta como um fantasma que se esfuma entre as minhas frestas. Mas esse fantasma, sei bem, não é assombrado, não tem olhos pálidos nem pele acinzentada, pois já estive com ele em carne osso olhos e boca vermelha.

Apareceu-me numa noite morna e abafada, de festa (não para mim. As pessoas me enfadam), em frente ao mar, segurava contra o vento um vestido estampado com flores que pareciam vivas, pois que ela era todo aroma. Tímida ou me seduzia com falsos gracejos de anjo? Olhos de fogo que ardiam, nada celestiais, queimaram-me e com poucas palavras e um abraço macio se despediu. Fiquei parado, sem saber porque ela se foi. Quis segui-la, mas permaneci enraizado onde estava e penso até hoje que devíamos ter fugido para um qualquer lugar. Que ela me levasse, que naquela terra eu era estrangeiro. Desejei fazer pátria nos braços daquela que eu nem sabia o nome.

Soube depois. Quando deu para me invadir por cartas cheias de brevidades. Atiçava-me. Contive-me por um tempo, mas ela dizia coisas cheias de corpo, e tanto que comecei a sonha-lo entre minhas mãos… o tempo e a distância impediam que o sonho tomasse forma. Da palavra espaçada, pouca, quase em surdina, fez-se o desejo. Nada mais além de verbo. E era bom assim, inspiravam-me aquelas cartas, por vezes. Porém, o sonho pede corpo. Mas há tempo e espaço que permitam? Separam-nos uma imensa geografia e o tempo. Tão jovem ela, que pergunto: como pode escrever assim? Não sei se ela faz poesia ou me seduz, dissimulada e cigana. Escreve-me pedindo falsos perdões: perdoe-me por chegar no escuro, gateando, nessas horas de se ausentar do mundo… Gosto de ouvi-la e sonha-la. Isso me basta, por enquanto. Penso que algum dia voltarei a vê-la, refazer o plano de fuga da beira mar naquela noite, em qualquer outra geografia.

Ela que me invade sempre pelas noites já ensonadas, chegou-me a meio dia com ganas de ofuscar o sol, eu estava longe de casa, noutra cidade. Ela dizia: estou aqui, vim te ver. Estremeci, diante da possibilidade de tê-la real, mais uma vez, mais perto dessa vez. Diz que está na cidade, que me procura e que veio me encontrar, pede que diga onde, ou que vá ao seu encontro, não importa o lugar. Ela veio me encontrar. É sua voz agora, quase me soprando ao ouvido. Um arrepio me toma, não são mais cartas por debaixo da porta, ela está aqui, veio me encontrar. Haverá mundo fora das palavras onde possamos existir? Ela diz que veio me ver, que quer me encontrar e eu digo sim. Espero-te.

A distância entre ficção e realidade é um limbo em que gosto de me perder. Ela, tanto por mim ficcionada, personagem que eu nunca escrevi, daqui há instantes baterá na minha porta, sinto-me ansioso e ateu. Ela que não virá feita em papel, mas em carne e osso e pele, calor sangue quente, os lábios vermelhos a pulsar e agora sua voz terá som para além dos meus olhos. Estou nervoso. Ela pode ser e não ser o que eu escrevi e o que eu criei. Ela um todo inteiro, um outro e agora está vindo ao meu encontro, minhas mãos se apertam e suam.

Toda espera se converte em eternidades. Levo tempo para abrir e fechar os olhos como se fossem ponteiros de um relógio que funciona mal. É o tempo que se arrasta feito caramujo que carrega o peso da casa. O telefone do quarto toca, meu coração salta de um pulo, é a recepcionista e diz que ela chegou. Ela veio me ver. As paredes ao meu redor parecem diminuir de tamanho e escuto minha respiração acelerar em meio ao silêncio do quarto. Ela veio me ver. Mas quem será ela? Qual será ela? Já baterá esta porta altiva e real. Não será mais ficção. Quantos passos até a minha porta? Ouço passos firmes, usa sapatos de tacão alto, talvez, aproximam-se, agora eu sei que ela é real, posso ouvi-la e meu coração palpita mais ao passo que ela se aproxima. Ela veio me ver. Bate na porta suavemente e eu paro, espero eu que ela passe por baixo da porta, como nas minhas noites insones e solitárias?

Ela veio de corpo inteiro e chama meu nome, abro a porta e só então a vejo e esqueço tudo que eu tinha inventado dela. Sorri sem jeito. Tímida ou me seduz? Eu sou todo embaraços. Diz que está feliz em me ver, finalmente, depois de tanto tempo, tanta palavra dita e suspira como se cansada de tanto que já foi dito quando só havia distância e que agora em presença não há mais o que dizer. E agora. Pede para beber algo, pergunta se a acompanho e respondo que não. Não posso. Sou um fracasso com bebidas. Melhor não. Ela então sugere café e a imagino escaldante como o líquido que ela sorverá, respirando seu aroma como agora eu a quero respirar. Melhor não, diz ela.

Ficamos novamente sentados no nada. Tira o casaco, não traz nada nas mãos e diz que feche a porta, que o mundo lá fora não pode nos ver. Só há essa fresta para nós, um tempo fora do tempo para havermos. O mundo lá fora não pode entrar. Ela percorre meus cabelos com a ponta dos dedos, unhas também em vermelho, arrumando-os atrás das orelhas, num demorado gesto. Vai acariciando minha barba grisalha e diz que sonhou muitas vezes com essa carícia.

Olha-me tão de perto que já me vejo despido até a alma e enrubesço. Chega cada vez mais perto acendendo em mim labaredas que há muito não ardiam tão bem. Como felina, passo a passo, desruidosos de emboscar a presa, ela vai me enovelando em seus braços e já nem sei quem sou. As garras da felina vão rasgando minhas vestes, com suavidade de gata, precisão de pantera, despe meus ombros e meu peito para neles se aninhar. Cheira-me como um animal e eu me sinto tragado feito fumo.

Ela é real. Queima em mim e só pode ser real, não sonho mais. E minhas fomes me despertam. Avanço por seu corpo, tateio costas barriga seio tudo e o calor daquela mulher incendeia-me as mãos e eu só queria mais arder… arder… sussurrava coisas sem sentido, poemas talvez e me guiava à queda, ao leito. Eu tombava sem forças. Não devíamos, murmurei antes de vencido, e perguntei: não te importas meu corpo envelhecido? Sorriu. O sorriso mais malicioso que uma mulher pode ter. Segurou meu rosto e disse: eu já vivi mais de cem anos… desfez-se em água em mim, eu me derramando me na sua fonte. Eu: o mais feliz dos derrotados.

Era fim de tarde, o sol partira, a lua não viera, outro sol esperava pra nascer. O tempo naquele desfazia como dunas na ventania. Depois calados, exaustos, ela me conduz pela mão docemente e me aconchega no seu colo a modos de menino e me vejo nascer de novo nos braços dessa mulher. Enterneço sobre seus seios pequenos e rijos, embalado pela melodia da vida que dela emana. Tão real. Sonho que na noite, ela virou névoa e saiu pela janela, engraçou-se por ser nuvem. Quando amanhecer desse noite, pensarei se terei vivido ou sonhado. Nada restará desse dia que nunca foi. Sonho meu ou dela, que fosse. Se é que ela existe, ou foi invenção que criei. Mas uma coisa é certa. Despertarei de uma das melhores noites. Vou escrever isso quando acordar. Assim o sonho, realizado ou não, permanece vivo.

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