Por que ler Alice?

Por José Castello
O GLOBO

Por que ler a “Alice”, de Lewis Carroll? A preguiça nos diz que se trata de um relato dedicado às crianças e apenas a elas. De fato, Carroll começou a narrar sua história durante um passeio de barco, num improviso, para três meninas, filhas de um amigo, todas na faixa dos 10 anos de idade. O que, um século e meio depois, nós, adultos, poderíamos querer com ela? O que esperar das aventuras de uma garota que, seguindo um coelho falante, cai em um buraco que a leva a um mundo onde tudo é possível?

Releio a narrativa de Carroll, mais uma vez, agora na edição em capa dura da Zahar, com tradução de Maria Luiza X. de A. Borges e ilustrações de John Tenniel. Releio e experimento, outra vez, a sensação de que nunca a li. De onde vem esse assombro? “Alice” me oxigena os pensamentos. Contra o bom senso e o sentido comum, o livro oferece, a cada página, novas maneiras de pensar. O sentido nunca é fixo, vai pelo menos em duras direções, não apenas uma. Para cada pergunta, existem sempre pelo menos duas maneiras de responder.

Não é um livro prático. Concluem os apressados: “Não ajuda a viver”. Mas ajuda sim. As “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” não é um relato só para as crianças _ embora elas logo se apaixonem pelo livro. Sim, ele reconstitui o método caótico e livre, o estilo desconexo e independente com que pensamos na infância, época em que não devemos nada a ninguém, em que não temos dívida alguma para com os saberes autorizados. Mas, muito mais que às crianças, o relato de Carroll se dirige, eu penso agora, aos adultos. Ele desafia nossos dogmas e máximas indiscutíveis. Ele os entorta e revira. Ele os questiona, relativizando sua pose de seriedade.

“Alice” nos dá coragem para pensar o inimaginável. Pode haver liberdade maior? Nos empurra para novas formas de pensar que vão muito além dos domínios da lógica. As operações intelectuais lógicas não passam de mecanismos precários com que nos defendemos da grande desordem do humano. Com elas lutamos para capturar o que não se captura. Em vez de fixas como pedras, nossas idéias são móveis e inconstantes. Diante delas, Alice age como uma filosofa que, em vez de repetir velhos conceitos, arrisca-se a emitir novos pontos de vista.

Por mais que lutemos para ordenar as coisas, o mundo humano é dominado pelo desalinho e pelo improviso. Nem mesmo os significados das palavras oferecem garantias _ para constatar isso, basta percorrer livremente os verbetes dos dicionários. Nesse mundo caótico, todo o nosso esforço de sentido não passa de um comovente, apesar de pouco útil, ato de sobrevivência. As coisas se passam sempre de outra forma. Não temos controle sobre nada _ e só começamos a viver realmente quando aceitamos isso.

Ler “Alice”, em conseqüência, nos ajuda a entender a potência do pensamento criativo e não normativo. Para a verdade, as coisas podem ser úteis tanto do lado direito quanto do avesso. A verdade não tem bom senso. A verdade é selvagem e paradoxal _ e nem sempre suportamos isso. Pois Alice, com suas aventuras sem pé nem cabeça, nos ajuda a suportar. Volta e meia, a menina se pergunta quando as coisas voltarão a acontecer “de forma natural”. O que ela descobre, não sem alguma dor, é que não existe tal forma estável e sensata de existir. A natureza é incoerente e é raivosa e é maluca também.

Alice compreende, aos poucos, a importância de valores que os adultos desprezam como a distração, a subversão e a desarmonia. As coisas ora crescem loucamente, ora diminuem radicalmente, e nunca se sabe ao certo quando isso irá acontecer. Difícil de agüentar. Nós, adultos, sofremos como a Duquesa, que insiste em fechar suas falas com uma “moral”, não suportando que elas permaneçam abertas, expostas à ventilação das novas idéias e de inesperadas perspectivas.

O próprio tempo, em “Alice”, não é digno de confiança. Não é só o Coelho Branco que se agarra desesperadamente a um relógio _ a própria Rainha manda matar a Duquesa simplesmente porque ela chegou atrasada. Lendo o livro de Carroll, entendemos um pouco melhor a origem de nossa interminável ansiedade. Estamos sempre querendo não só cumprir regras, mas encontrar culpados para os que as infringem. Como faz a Rainha ao acusar o Chapeleiro de “assassinar o tempo”. Para se salvar do controle real, o frágil Chapeleiro se apega a uma regra inesperada: “Agora são sempre seis horas”. Regra que desmoraliza todas as regras.

Nós também: estamos sempre a inventar regras na esperança de domar o que não se pode domar. O que, provavelmente, não se deve domar. A verdade insuportável, que a doce Alice nos obriga a encarar, é que vivemos em um mundo no qual existem muito mais enigmas do que respostas. Um mundo inconstante, cheio de coisas que servem para outras coisas _ e não para aquelas que imaginamos a que estejam destinadas.

Durante o Chá Maluco, a Lebre oferece a Alice um vinho que não existe. Qual de nós pode aceitar isso? E, no entanto, quantas vezes nos sustentamos apoiados em precárias esperanças que não passam de miseráveis ilusões? O Chapeleiro propõe um enigma: “Por que um corpo se parece com uma escrivaninha?” A resposta é o que menos interessa _ até porque é uma resposta impossível. O que importa é o desassossego que a pergunta desencadeia. O modo como ela nos desloca de nossa vaidade e de nossa arrogância, enfatizando a penúria que nos define.

A “Alice” de Carroll é um eficaz antídoto contra o orgulho ostensivo e a insolência. A verdade é flácida. As palavras estão sempre a deslizar _ “Você disse corpo ou porco?”, o gato pergunta a Alice. Depois ele desaparece, sobra apenas sua boca. Calma, Alice constata: “Já vi um gato sem sorriso, não um sorriso sem gato”. Qual de nós teria a mesma tranqüilidade? É tudo muito estranho _ mas, ao mesmo tempo, muito óbvio. “Não adianta bater”, o Lacaio-Peixe diz a Alice, “porque estou do mesmo lado da porta que você”. Não adianta, também, fingir que ocupamos o lugar da verdade. Como as crianças, também nós, adultos, estamos sempre do lado do susto e do sobressalto. Não adianta fugir _ o melhor é imitar Carroll e fazer algo criativo disso.

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