Por que Paris? Ora, porque…

Quando assisti Cinema Paradiso (1988) fiquei encantado com a comovente estória do pequeno Salvatore, ou Totó. Chorei um riacho (assisti só! rs). Mas o longa também toca pela declaração de amor ao cinema – uma metalinguagem explícita. E não só ao cinema, mas à vida.

Semana passada assisti à primeira temporada de ‘Por que Paris?’, mais novo trabalho do Grupo Carmim. Era um dia frio, um bom lugar para ler um livro, mas lá estava eu numa Casa da Ribeira semilotada atrás da resposta perguntada no título da peça.

De imediato lembrei de Cinema Paradiso. A peça trata, fundamentalmente, do fazer teatral, como o filme trata do cinema. Não se trata, no entanto, de uma declaração de amor ao teatro ou, tampouco, à vida, mas é também uma metalinguagem pura.

‘Por que Paris’ expõe algum humor e alguma emoção, sem provocar gargalhadas ou lágrimas (como vi em ‘Pobres de Marré, outra peça do Carmim), nem tem essa intenção. Quer mesmo discutir a urgência de se fazer teatro. Aliás, a urgência em se pensar no sentido de se fazer ou não teatro.

Esse dilema é contado a partir da obra da escritora francesa Marguerite Duras, cuja obra ficcional, meio autobiográfica, se assemelha às biografias das duas atrizes protagonistas: Quitéria Kelly e Adelvane Néia. Ficção literária e lembranças reais escancaradas ao público.

A todo momento essa dualidade é fundida, como se a estória/história das três fosse uma só ou perguntasse, no fim, a mesma coisa: Por que Paris? Por que fugir para Paris se o problema está em nós? Por que Paris sanaria nossas inquietações?

E essas inquietações perpassam uma pergunta-cerne da peça: “Por que teatro?”. Por que continuar a produzir teatro. O teatro responde, ameniza ou discute essas inquietações? Por que ir a Paris buscar respostas, se Marguerite, Quitéria e Adelvane têm as mesmas dúvidas?

Claro, a peça não responde essas indagações, mas as coloca para reflexão. E ao mesmo tempo traça um recorte da montagem real de um espetáculo teatral. É aí entra Henrique Fontes como personagem-diretor da peça. E Pedro Fiúza, filmando ao vivo e transpondo as imagens para uma tela ao fundo do cenário.

Engraçado que no princípio achei confuso a divisão de atenções da cena mostrada na tela e no palco. E eis que a peça é “interrompida” pelo diretor Henrique Fontes e Quitéria reclama exatamente disso. Mas é um diferencial do espetáculo, além de um texto muito bem construído por Pablo Capistrano.

Essas “interrupções” da cena são constantes e, claro, propositais. É quando os “personagens” que já eram autobiográficos, saem de cena para viverem suas personas reais, ainda assim, em cima do palco, para o público. Ou seja: permanecem personagens de uma mesma cena.

Essa confusão entre ficção e realidade. Ou um disfarce ficcional. Ou uma realidade travestida de ficção, é na realidade a tentativa de resposta de todas as perguntas. Uma tentativa que traz mais inquietações. Então, ‘Por que Paris?’ é um conjunto de perguntas sem respostas, que lhe instiga, que lhe provoca e lhe deixa meio assim, sem saber de nada e ávido por respostas.

OBS: ‘Por que Paris’ ficou em cartaz entre quinta e domingo, na Casa da Ribeira. Mas nesta quarta volta para última apresentação, até nova temporada somente em outubro! #Ficadica

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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