Por que cinemas e livrarias em Natal só sobrevivem em shoppings?

Livraria Nobel Salgado Filho não sobrevive ao natalense e será mais uma a fechar em Natal. Por quê?

Natalense vive ou até sobrevive da moda. Nada dura muito por aqui. Há raras exceções, claro, entre botecos e uns poucos projetos culturais sustentados muito mais pela freguesia de nichos teimosos e resistentes. Mas se tem algo indestrutível, inquebrável, infalível e símbolo-mor da capital dos Alves e dos Maias, são os shoppings.

Se a Terra gira em torno do Sol, Natal gira em torno dos shoppings. São eles o ponto de encontro das paqueras, dos famintos da praça de alimentação, do consumo, dos protestos de rua, do congestionamento e, mais recente, até de um carnaval fora de época para crianças – uma nova geração vindo aí ao som de Bell e sob a paisagem das promoções.

Então nada surpreende mais uma livraria “de rua” da cidade fechar as portas. A Nobel Salgado Filho nadou durante cinco anos contra a correnteza matuta de Natal. Promoveu eventos, tentou novos formatos, apostou na divulgação em redes sociais. Nada foi suficiente para conter o fascínio pelas vitrines, pelo ver e ser visto.

Quinta Literária: sucesso com as mesmas pessoas
Quinta Literária: sucesso com as mesmas pessoas

Não à toa o mesmo aconteceu com os cinemas. Enquanto um “de rua” fechava, outro abria em algum shopping da cidade. e hoje só sobraram eles. O mesmo com as livrarias. Natal conseguiu fechar uma Potylivros inteira! As livrarias sobreviventes priorizam os livros didáticos ou aos poucos migram para formatos menos literários e mais confeiteiros.

Será o caso da heroica Nobel. Após sucessivas quedas na venda de um produto chamado Livro, a solução foi readequar o layout da então livraria para uma cafeteria. E se Natal gira em torno do Midway, a Nobel girará em torno dessa proposta. Os livros continuarão por ali, à venda, mas o espaço prioritário será o do cafezinho.

Conversei por quase meia hora com o Quixote Aluísio Azevedo para entender o que está escancarado. Tanto que Aluísio parece mesmo num enredo quixotesco, lutando contra moinhos de vento para salvar sua paixão: a literatura. Mas não deu. Um bate-papo que fiz com ele pouco depois de ele abrir a Nobel já diz muito, mas vamos atualizar.

POR QUE PAROU?
Para além da tese fenomenológica dos shoppings em Natal ou do analfabetismo funcional brasileiro e outros quetais, a franquia para ter a marca da Nobel é cara em qualquer canto. Se soma a isso a manutenção da estrutura física da livraria ou mesmo do prédio, que abriga ainda outros departamentos que até colaboram para o valor do aluguel, mas são insuficientes. Pelo menos na análise fria do aspecto financeiro, o livro acaba até sendo o bem mais valioso.

NÚMEROS X LETRAS
O prédio onde funciona a Nobel foi locado por oito anos e precisa se pagar. Mas a venda de livros na Livraria caiu pelo menos dois terços em um ano. Segundo Aluísio seria preciso uma média de 1000 livros vendidos para manter o custo mensal da Nobel, mas estavam sendo vendidos cerca de 200, que com os aluguéis de outras salas do prédio ainda empatava os custos, mas quando caiu para 100, foi preciso novas providências.

CAFÉ COM LIVROS
A primeira providência foi reformular o layout do espaço. Agora uma cafeteria será o centro das atenções, enquanto uma modesta livraria, sem a marca da Nobel e antes com 21 mil títulos, a circundará com um acervo de, no máximo, 7 mil. Não se perderá tanta qualidade, posto que algumas livrarias descarregam uns 50 números de um único livro e o estoque, via de regra, é devolvido depois. A ideia é receber menos exemplares por título.

PROJETOS LITERÁRIOS
A Quinta Literária, criada por Aluísio para movimentar a Nobel e ajudar na venda dos livros será mantida, mas em sala no pavimento superior e possivelmente com o nome Café com Letras. Mesmo esse projeto, querido e prestigiado, se tornou inócuo ao longo do tempo porque tem atraído sempre as mesmas pessoas, que pela frequência semanal, não compram sempre que vão. E assim o projeto perde o propósito comercial, embora mantenha outro, que é a discussão em torno da temática literária.

SOLUÇÕES POSSÍVEIS
Uma solução apontada por Aluísio para manter livrarias de rua em Natal parece tão fácil de ser incluída em um Plano Municipal do Livro, por exemplo. Mas estamos em Natal/Nordeste/Brasil, então… Segundo ele, as escolas da capital costumam investir R$ 2 mil em livros por ano. Um decreto que obrigasse as 400 escolas municipais de Natal a comprar exclusivamente de livrarias da cidade já reverteria R$ 800 mil às poucas livrarias resistentes e as ajudariam a se manter. Simples.

CAFEZINHO BEM VESTIDO
Além de alguns pontos comerciais já alugados hoje, como editora e sala de impressões gráficas, outros virão para ocupar outros espaços no prédio, a exemplo da sala onde acontecia o Quinta Literária. O maior empreendimento, no entanto, será uma loja de moda masculina, que aliado à praça de alimentação (cafeteria), tornará o prédio antes predominantemente literário em uma espécie de mini-shopping ou mall, mais atrativo e, quiçá, no futuro, visado até para os protestos de rua.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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