Por que Deífilo é o nome do folclore potiguar

Crer no próprio destino é privilégio de poetas e visionários, condições que podem conviver num mesmo ser humano sem conflitos maiores. A história de vida do poeta Deífilo Gurgel é exemplar, a esse respeito. Nascido em Areia Branca, experimentou, na infância, certo deslumbramento com as cores, brilhos, cânticos e movimentos rítmicos de folguedos populares, com suas variantes em conformidade com a época: laicos ou religiosos, tumultuosos ou solenes e, às vezes, um pouco de cada, indistintamente.

O poeta, porém, veio antes. Foi uma escolha pessoal, ou uma descoberta, se formos daqueles que acreditam que ser é questão de berço. O folclore, porém, foi destino: Deífilo teria que buscá-lo, de merecê-lo. E quando é assim, os acasos, as pequenas coincidências, as circunstâncias favoráveis não tardam a agir, numa espécie de determinismo sutil que só se deixa perceber retrospectivamente.

Foi dessa forma que o poeta Deífilo Gurgel se tornou folclorista. Os encontros com o coquista Chico Antônio e com Dona Militana, dois emblemas atemporais da alma popular potiguar, foram plantados em seu caminho como duplas assertivas: que ele prosseguisse, porque seguia na direção certa. A aproximação com o mestre Câmara Cascudo, a discussão de seus livros, as visitas com seus alunos ao casarão da Junqueira Aires, a descoberta de Mário de Andrade, tudo decorreria em sequência.

A pretexto do Dia do Folclore, que transcorre dia 22 deste mês, Deífilo concedeu uma entrevista à jornalista Carla Sousa, da revista Saga Cultural, da rede Siciliano local, na qual fornece outros detalhes sobre sua formação intelectual e chega a fazer afirmações “temerárias”, como quando parece relativizar a importância do legado que Cascudo deixou para o folclore: “[…] Aliás, eu diria que Mário de Andrade ainda é mais importante que Cascudo, porque ele documentou os quatro autos populares brasileiros – Boi, Fandango, Chegança e Coco – em letra e música, coisa que ninguém jamais fez tão bem feito”.

Mas logo refaz a opinião, ressaltando a conversa “erudita e, ao mesmo tempo, gostosa de ouvir” de Cascudo; o fato de Cascudo ter escrito, do rincão modesto da província, uma centena e meia de obras tratando dos mais diversos temas, é um constante motivo de perplexidade para o octogenário Deífilo.

Trabalhando atualmente em pelo menos três livros, todos abordando temas potiguares, Deífilo vê um momento desfavorável aos folguedos folclores nos dias que correm. Em parte, porque os estudos teóricos estão esquecendo o lado prático dessa tradição, que são os próprios brincantes, para quem pede uma política pública específica. De outro lado, detecta certo desinteresse e desconhecimento dos assuntos relativos ao folclore por parte das novas gerações.

É um cenário desanimador, reconhece Deífilo, mas não passa de uma fase. Caso seu prognóstico se confirme, o folclore vivo, “prático”, como ele acentuou acima (não o folclore estratificado, congelado e transformado em tese ou dissertação acadêmica) dará a volta por cima e reacenderá as cores e brilhos da tradição, reatando laços entre as tradições e as gerações vindouras.

É esse folclore que renasce das suas próprias cinzas que o expert Deífilo Gurgel busca trazer para dentro das páginas do seu Romanceiro Potiguar, abrangente, totalizante do universo do folclore norte-rio-grandense. Seu opus magno na área do folclore? Queremos crer que sim, na medida em que poderá conter uma síntese de informações submetidas ao filtro da experiência que o experiente folclorista vem reunindo ao longo de pelo menos quatro décadas de estudos, pesquisas, buscas e criações.

Com o livro Os bens aventurados, lançado em 2005, Deífilo alcançou sua plenitude poética, iniciada sob a inspiração de sua Areia Branca e expandida progressivamente a outras margens reais ou imaginárias do seu mundo existencial. Sucessor sem rival de mestre Cascudo, Deífilo Gurgel faz por merecer agora, em que arremata um grande projeto folclórico, o título que lhe deu a revista Saga Cultural: “O nome do folclore potiguar”.

*texto originalmente publicado em agosto de 2010.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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