Por quê, Deus?, de Iara Carvalho

Eu tenho inveja

dos que têm memória

e contam a infância

com requinte de detalhes

que me dão água na boca.

Por quê, Deus?

O Senhor já sabia que eu iria

ser uma mulher prática,

ainda que poeta, ou que

facilmente eu trocaria

uma chuva por um passeio

de carro? Imaginava que eu

não seria terna com

os bichos e que nem toda

criança entraria no meu reino

dos céus? Por acaso o

Senhor previa, Deus, que eu

esqueceria de rezar por tantas noites,

ou que usaria sem pudor

temperos industrializados

no alimento que tão

esmeradamente nos ofertou?

Ah! Decerto tinha ciência

de que eu seria o tipo de

pessoa que deixa todas

as luzes acesas, que ri do que

não tem graça, que esquece

a magia das canções.

Eu certamente não daria

memórias de infância, se

Deus

eu fosse, pra alguém

que dobra a ponta dos livros

na página onde parou, muito menos

pra qualquer ser humano

capaz de não gostar do

sol nascendo entre

passarinhos.

Jamais daria o dom de

lembrar das brincadeiras

com as irmãs pra alguém

que se acha tão capaz de

viver

só. Seria por que eu bebo

água gelada depois do café

quente que o Senhor, Deus,

tirou

-me a chance de lembrar

do bigode do meu pai?

Ou seria por que não demoro

tempo suficiente no banho

e não aproveito, com aquele

ardor de comercial de TV,

o sublime momento de lavar

os cabelos?

Deus, que mistério eu não

me saber criança! Diga-me

onde

errei, pra quando eu nascer

de novo, ter a chance de

preencher

meus álbuns de instantes:

minhas conversas com

mamãe

no batente da cozinha,

a briga pelos namorados

imaginários, as bonecas

deixadas

de surpresa sob a cama,

o pé de seriguela pendendo

no quintal, olhar o mundo

sobre

a cisterna e poder chorar

pelos ídolos que morreram.

De uma coisa eu sei, o Senhor

nem precisa dizer por que eu

lembro

tão bem das quedas:

é claro que já sabia do meu

fracasso

lá de 2011 e quis me deixar

preparada para o tombo

que estava por vir depois dos

meus

trinta: uma mulher sem rosto

nem lembranças, caindo

do alto da torre. Se olhava

pro céu ou pro chão, não

pensava:

só caía com a alma fechada,

torcendo pra não lembrar

do impacto.

Ilustração: Benedetto Cristofani

Escritora, agente cultural, graduada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem [ Ver todos os artigos ]

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