Por que Lênin venceu?

Corromper a juventude dando-lhe liberdade sexual. Infiltrar e controlar os meios de comunicação de massa. Falar a exaustão sobre democracia e Estado de direito. Catalogar todos aqueles que possuem armas de fogo para que sejam todas confiscadas no momento oportuno.

Segundo uma grande quantidade de internautas, blogueiros, vlogueiros e ideólogos virtuais de direita, essas seriam algumas das disposições que se encontrariam no famoso “Decálogo de Lênin”, uma espécie de versão comunista das tábuas da lei de Moisés que teria sido escrito em 1913, e que indicaria dez medidas infalíveis para se dominar a sociedade e implantar um regime bolchevique.

Uma fórmula geral de toda ação revolucionária possível que valeria tanto para Moscou em 1917 quanto para Mossoró em 2019.

LEIA O ARTIGO: “O CAMARADA BAKUNIN”

A primeira vez que essa listinha passou pela telinha do meu celular me veio à mente, na hora: “Meu Deus! Eles imaginam Lênin como um hippie chapado de ácido assistindo o show de Jimi Hendrix em Woodstock!”.

Mesmo antes de fazer qualquer pesquisa rudimentar pela internet para averiguar essa história de “decálogo de Lênin”, ou mesmo consultar na minha biblioteca os volumes das obras escolhidas do líder da revolução de 1917, publicadas nos anos de 1980 pela Editora Alfa-Omega de São Paulo, eu já sabia que o tal texto era mais uma fake news do tipo daqueles que discorrem sobre mamadeiras de pirocas ou kits gays, e que parecem dar cria, aos montes, na selva virtual.

Além do mais, só alguém que tivesse muito pouco conhecimento histórico poderia acreditar que um ascético líder revolucionário positivista, nascido no puritano século XIX, poderia usar a subura juvenil tipo Sense 8 como uma ferramenta revolucionária, ou mesmo falado sobre “Estado de direito”, “meios de comunicação de massa” ou outros conceitos que só seriam usuais bem mais tarde, na segunda metade do século XX.

Imaginar que Lênin, um dos sujeitos que defendeu a necessidade de uma sublevação armada contra as forças czaristas, fosse defender um “desarmamento da população” também é algo desconcertamente anacrônico.

Estrategista habilidoso

Na verdade, a história dos tais “mandamentos de Lênin” parece ter vindo a público pela primeira vez em 1946, na publicação conservadora New World News, que argumentava contra o controle de armas e a educação sexual nas escolas norte americanas.

Os mandamentos de Lênin’ parecem ter vindos a público pela primeira vez em 1946, na publicação conservadora New World News, que argumentava contra o controle de armas e a educação sexual nas escolas norte americanas.

Ali, segundo o que pude averiguar em uma pesquisa rápida nos acervos do professor Google, os editores da revista teriam inclusive afirmado que o tal decálogo seria de 1919 e que teria sido encontrado na cidade alemã de Dusseldorf após a segunda guerra mundial.

O fato é que, quem já leu alguma coisa sobre Lênin, que não sejam as fake news ideológicas da direita ou as idealizações românticas da esquerda, sabe que o líder da revolução de 1917 era muito mais um estrategista extremamente habilidoso do que um teórico acadêmico ou um redator de manuais revolucionários, o que torna absolutamente despropositado a ideia de que ele teria escrito um “decálogo”, como um conjunto de regras rígidas ou fórmulas universais aplicadas a todas as conjunturas possíveis e que funcionaria como um “manual de instrução” de revolucionários de todos os matizes.

Vladimir Ilicht Ulianov era mestiço. Sua família viveu em Simbirsk, as margens do Volga, em um bairro que concentrava diversas minorias étnicas. Ele era descendente de tártaros pelo lado paterno e de judeus alemães pelo lado materno.

Seu pai incutiu em toda família um tipo de crença positivista no progresso do conhecimento humano e na racionalidade científica, muito parecida com aquela que formou Euclides da Cunha e a elite do exército brasileiro nas escolas militares na virada do século XIX para o XX.

Fuzilamento do irmão

Outro dado fundamental na sua formação foi a tragédia que se abateu sobre sua família no ano de 1887, quando seu irmão mais velho, Alexandre Ulianov, foi executado por ordens do Czar Alexandre III.

Sasha, como era chamado no ambiente familiar, havia se envolvido em uma conspiração para assassinar o imperador da Rússia, embalado pelo sucesso da ação terrorista que matou o pai de Alexandre III em 1881.

Czar Alexandre III

O fuzilamento de Sasha, que é o diminutivo de Alexander (alguém deveria ter avisado isso a Xuxa), teve impactos profundos na formação do irmão mais novo, Vladimir.

Talvez tenha sido a psicanalítica disputa fraterna pela atenção do pai que teria motivado Lênin (segundo a não muito confiável história oficial soviética) a fazer um juramento perante as irmãs de que ele não seguiria o caminho de seu irmão mais velho; mas também deve ter pesado o fato de que após a execução, a família de Lênin acabou condenada a um ostracismo social sem precedentes.

Transformados em párias, os Ulianov, num misto de medo político e antisseíssimo velado, se tornaram contagiosos aos olhos dos seus vizinhos.

O fato é que Lênin não escondia a desaprovação diante do comportamento do irmão, que teria vendido a própria vida a um preço muito baixo, motivado por um ideal romântico de revolução que ligava a ação revolucionária a uma espécie de martírio cristão em nome do povo.

Nesse ponto, Lênin encontrou seu primeiro inimigo teórico: o niilismo revolucionário russo do século XIX, marcado por concepções socialistas difusas e por um romantismo metodológico extremamente ingênuo.

Não há como não imaginar que o contato com a leitura de Marx, a partir da chave interpretativa posta por Engels depois da morte do “Mouro”, tenha oferecido a Lênin uma alternativa “científica” aos arroubos românticos da ação revolucionaria que levou seu irmão a morte.

A busca de Lênin sempre foi pela vitória e não pelo sacrífico vitimizante.

Lênin: Sem heroísmo inútil

Se há um imperativo geral que Lênin possa ter utilizado em sua trajetória em direção a Outubro de 1917 foi a de nunca sacrificar-se em atos de heroísmo inútil e sim utilizar os meios necessários para obter vitória política sobre seus inimigos.

Por isso, ele não entrou para a história como um sujeito cercado por dúvidas ou hesitações mas sim, acabou estruturando sua própria interpretação do marxismo, convencido, a partir das análises políticas de Marx, de que era fundamental aprender com o passado e não repetir os erros da esquerda.

Lênin tinha clareza de que não poderia repetir os equívocos da Comuna de Paris, ou dos movimentos de 1848. Nesse sentido ele foi um estrategista político inquestionavelmente eficaz, que soube avaliar como poucos as fragilidades das forças que derrubaram o Czar russo em Fevereiro de 1917 e articular o golpe de Outubro que abriu as portas para a primeira revolução comunista do século XX.

Foi esse senso de estratégia e essa analise aguda da conjuntura política, que fez com que Lênin atuasse teoricamente no sentido de interromper o “sereno fluxo das coisas” e introduzisse resultados imprevisíveis no roteirinho amarrado da história, que indicava que não seria possível uma revolução comunista na terra do Czar porque a burguesia russa ainda não havia feito sua revolução liberal.

Também foi esse senso de estratégia que o fez criar um partido de tipo novo, bastante diferente dos partidos sociais democratas de inspiração marxista que dominavam o cenário político da época.

Lênin e Trotksy; autor do suposto Decálogo “sabia que não se chegava uma vitória política por meio de formulazinhas gerais e preceitos metodológicos universais”.

A tática se impõe

O partido leninista era uma misto de instituição religiosa e militar, com uma disciplina rígida que exigia, em um “centralismo severo e imperioso” – como criticava Trotsky no tempo da segunda internacional – a subordinação absoluta das considerações particulares e pessoais de seus militantes aos objetivos da revolução.

Lênin sabia que na dialética da política real, julgamentos morais não produziam vitórias estratégicas. Também sabia que não se chegava uma vitória política por meio de formulazinhas gerais e preceitos metodológicos universais. A tática se impõe aos devaneios da maioria e é ela que compõe as maiorias, não o contrário.

Essa noção central de estratégia militar permitiu, segundo um relatório da polícia política czarista de 1913, definir que: “a facção leninista é sempre melhor organizada do que as outras, mais resoluta na busca de seu objetivo, mais rica na difusão das suas ideias entre os operários”.

No fim das contas Lênin venceu porque optou conscientemente em “não ser como Sasha”.

No fim das contas ele acabou se vingando daqueles que condenaram sua mãe e suas irmãs ao ostracismo social; ao mandar executar a família Nicolau II, filho do mesmo Alexandre III que ordenou o fuzilamento do seu irmão trinta anos antes da revolução que ele liderou.

Lênin venceu, não porque escreveu decálogos sobre suruba revolucionária ou métodos gerais de controle das mentes das maiorias através de algum tipo de guerra cultural. 

Ele venceu porque uniu a disciplina militar ao fervor religioso e usou sua capacidade de estrategista político para ler a conjuntura de modo exato, mantendo a ousadia da ação no momento certo, em um contexto onde a política, muito mais do que um meio de vida, era uma questão de vida ou morte.

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito do IFRN. [ Ver todos os artigos ]

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