Por que não contar uma outra história? A exposição das obras do acervo do estado do RN

A publicação do inventário das obras pertencentes ao Estado do RN foi um ato de muita coragem e responsabilidade porque deixou flagrante o descaso do governo com as obras de artes potiguares. E, ao mesmo tempo, sinalizou para o futuro como que pedindo maior atenção ao nosso patrimônio. Daí a exposição, além de revelar parte desse acervo primoroso, poderia ter feito a autocrítica evidenciando as lacunas.

E escrevo isso porque Sim é difícil entrar na exposição e não lembrar do que se perdeu. Sobretudo para quem conhece o inventário das obras pertencentes ao Governo do Estado, que documentou o que ainda existe e o que desapareceu do acervo. Em cada sala representativa de uma escola de arte, se a curadoria tivesse ousado mais, deveria ter uma moldura vazia com a etiqueta sobre a obra e o artista… porque também nós somos o que perdemos! (Copiei de algum lugar).

obra 2

Mesmo sendo uma exposição muito bem contextualizada e com um conjunto de informações que nos apresenta um percurso, saí me perguntando no que inovamos ou o que inventamos. Não ajuda a categorização das obras em escolas, ainda seguindo a categorização européia da história da arte. Quais são as categorias que nos explicam? Quais são nossos contextos? Escolas? O que problematizamos e engendramos que podem definir as linhas organizadoras da curadoria?

Por que não contar uma outra História?!

Luz e cor sobre corpos e espaços são dois elementos muito fortes nas obras que já andei vendo em diversas exposições locais – ainda que as obras quase sempre teimem em se travestirem com outras formas alheias….Mais do que os motivos regionais e provincianos que insistem em atrapalhar nosso olhar pra outras nuances. Decerto, não estou a falar das obras, mas da curadoria que acaba enfatizando essa necessidade de regionalismo e influência externa.

obra 3

Por que a curadoria me permite olhar para a potência mágica de um Leopoldo Nelson, mas me pede para pensar em uma ordem organizadora externa e não no que vejo? Por que posso me devaneiar com o regional transfigurado em Newton Navarro, mas me pedem para pensar na Semana de 22 ou no Modernismo Europeu?

Destaque para as salas: Abraham Palatnik, Newton Navarro e Arte Naif.

obra 1

Uma outra ausência foi a arte dos povos que já habitavam o nosso torrão. Os chamados povos indígenas e seus instrumentos e pinturas sobre objetos, corpos, pedras. Não estavam expostas porque o acervo do Estado do RN não tem? Por que não tem? A exposição também é sobre as políticas de constituição e valorização do nosso patrimônio artístico. Qual é essa política? Quais suas linhas de aquisição, organização e preservação? O que ela valoriza/zou ao longo dos anos com as aquisições feitas?

Sob qual política deveríamos olhar nosso patrimônio artístico?

A Exposição O Jardineiro das Cores que, em 2013, ocorreu na Galeria Newton Navarro da Capitania das Artes, apresentou o trabalho de Pedro Pereira sem cair nas categorizações externas. As telas ali expostas problematizavam diversos territórios da imagem, incorporando paisagens do mundo real sem deixar de lado o exercício da fabulação, com técnicas e estilos diversos. Sim, na obra de Pedro, naturalmente, encontramos o surrealismo, a arte cinética e o impressionismo. Mas as linhas que organizaram aquela exposição nos pediam para ler e olhar o seu trabalho a partir dele mesmo e não por outras lentes.

É certo que não é toda hora que temos exposições simultâneas ocorrendo na Pinacoteca. E sobre o trabalho da Fundação José Augusto sob novo comando vemos renascer ações e atividades de valorização da arte local e formação de público. É certo também que, sendo inegável o trabalho desenvolvido com a exposição do acervo do Estado do RN, não podemos deixar de reconhecer que toda a equipe organizadora está de parabéns. Se uma exposição como a que vimos engendra tantas problemáticas e questões, é pelo vazio que ela preenche como possibilidade de resgate e publicizacão do nosso patrimônio que seus méritos em si já devem ser reconhecidos e celebrados. Não percam!

Professor do Centro de Educação da UFRN. Crítico de cinema. [ Ver todos os artigos ]

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