Por que o Bolsa Família incomoda?

Alguns desavisados, ou mal-intencionados decidiram fazer campanha permanente contra o programa Bolsa Família do governo federal, achando que com isso atingem unicamente a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Não sabem essas pessoas que quando elas atiram contra o programa de distribuição de renda do País estão querendo tirar da boca dos que não têm. Um dos argumentos é que virou esmola e que as pessoas se escancham na mixaria que recebem para não fazer nada, mantendo vivo o estereótipo de que brasileiro é vagabundo e preguiçoso. Mas num país de 190 milhões de pessoas com uma taxa de desemprego de 5,7% (dados de março de 2013) prova justamente o contrário, como prova também que há políticas públicas mantendo as coisas funcionando.

Um dos piores males da miséria, tão grave quanto à fome, é a falta de confiança, de autoestima. O homem quando passa muito tempo na condição de excluído perde a certeza de si. Mesmo ganhando de volta a possibilidade de tomar conta de sua vida, não o sabe como fazer. Isso sem falar nos vários que caíram nas drogas, lícitas ou não, e não conseguem sair disso porque não têm conhecimento e força suficiente. Porém, é preciso dizer que os que se escoram nos programas sociais e não buscam evoluir não é tão maioria quando dizem. Muitos estão mantendo seus filhos na escola e outros já os encaminharam para a faculdade, só para citar um exemplo das vantagens do benefício. Se os estados e municípios são incapazes de dar uma educação de qualidade, aí já é outra história.

O resultado do Bolsa Família para a economia é ainda mais extraordinário. O que o governo fez foi retirar mais de 13 milhões de pessoas que viviam na miséria extrema, algo que foi bem reproduzido no documentário “Garapa” do cineasta José Padilha, o mesmo de Tropa de Elite I e II, e deu a eles o poder de compra. Isso representou um boom na economia dos municípios, estados e da nação tão importante que modifica a vida de todas as regiões. De acordo com colunista do Estadão, José Paulo Kupfer, em 2009, o jornalista Fernando Dantas publicou no Estado de S. Paulo uma reportagem com os resultados de um estudo recente sobre os impactos do programa Bolsa Família na economia. A conclusão do trabalho é que o acréscimo no valor dos benefícios pagos, entre 2005 e 2006, (período em que o programa ainda estava se estabelecendo) de RS 1,8 bilhão, resultou num crescimento adicional do PIB, no período, de R$ 43,1 bilhões. Resultou também em receitas tributárias adicionais de R$ 12,6 bilhões. “O ganho tributário”, escreveu Dantas, “é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa Família em 2006, que foi de R$ 7,5 bilhões.

Veja bem. Na Grã Bretanha, onde meio milhão de pessoas não tem o que comer, muitos só se alimentam uma vez por dia, o governo criou “centros de distribuição de comida”, isso sim representa esmola. No Brasil, a família recebe um apoio financeiro e pode utilizá-lo como quiser, de modo que, mesmo a alimentação sendo prioridade, a pessoa pode comprar no mercado e fazer esse dinheiro circular garantindo a manutenção de empregos e renda para muito mais gente. Sem falar que muitos se apoiam nesses recursos para abrir o próprio negócio.

Eu sei que os maus exemplos quase sempre são superiores aos bons resultados, mas daí alguém querer acabar com uma ajuda de R$ 90,00 dada para a sobrevivência de uma família é, no mínimo, desumano. Não que essa questão não deva ser questionada, claro que deve porque vivemos numa democracia, mas talvez as pessoas devessem questionar mais os médicos que não dão plantão, o professor que não dá aula, o funcionário fantasma, as centenas de milhares que recebem acima do teto nos tribunais da vida, a polícia que cobra propina e o que é pior: o fato de neste ano, segundo o jornal O Globo, os gastos das duas Casas Legislativas, excluindo o TCU, estarem estimados em R$ 8,5 bilhões. No ano passado, somente com horas extras foram pagos R$ 52 milhões, sendo R$ 44 milhões só com deputados. No Brasil, um deputado recebe por mês o equivalente a R$ 142 mil. Levantamento da ONG Transparência Brasil revela que cada um dos 81 senadores custa ao Brasil R$ 33,4 milhões por ano. Com tudo isso, os políticos são a classe menos acreditada no Brasil, ainda assim, você insiste em reclamar de quem ganha R$ 90,00 por mês, tem certeza?

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Rafaela 3 de Junho de 2013 19:07

    Aplaudo de pé. Encontramo-nos em estado de emergência! e esse paliativo é o que tem possibilitado oportunidade para muitas famílias.

  2. Marcos Silva
    Marcos Silva 4 de Junho de 2013 8:30

    O Professor Rogério Cruz, da Economia/UFRN, comentou comigo a importância do Bolsa Família num país como o Brasil (disparidades gritantes entre os rendimentos) e a necessidade de encarar o programa como temporário (não é garantido, o governo pode suspender a qualquer momento, não pode virar escora permanente, sem caráter formativo para superação de problemas graves na Economia do país e para a autonomia dos cidadãos).
    Esse tipo de discussão não costuma aparecer na grande Imprensa.

  3. Anchieta Rolim 4 de Junho de 2013 12:57

    Um deputado recebe o equivalente a R$ 142.000,00. Com certeza, as propinas não fazem parte desse cálculo.

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