Por quem dobra o sino

Pessoas apanham nas ruas pela cor de suas bicicletas ou de suas roupas.

Uma professora que se manifesta contra o impeachment em suas redes sociais é obrigada a pedir demissão do colégio onde trabalha pela “pressão” – leia-se: intimidação – de pais de alunos.

Um chargista tem uma de suas charges, que ironiza os protestos pelo impeachment, ilegalmente adulterada; o responsável pela adulteração admite publicamente o que fez em rede social e não é responsabilizado judicialmente, uma famosa jornalista televisiva compartilha a charge adulterada e também não sofre consequências penais, enquanto o chargista sofre ameaças de morte.

Uma médica pediatra se recusa a atender um bebê porque a mãe dela é filiada ao Partido dos Trabalhadores.

Servidores do judiciário com opiniões políticas de esquerda são hostilizados em seus ambientes de trabalho, sofrem transferências arbitrárias e são vítimas de bullying em grupos do WhastApp.

Um ministro do Supremo Tribunal Federal é ameaçado em sua residência por grupos de fanáticos por ter tomado uma medida jurídica favorável ao respeito da legalidade. O diretor de redação de uma revista semanal de circulação nacional instiga esses fanáticos nas redes sociais e não é responsabilizado penalmente. Um cantor famoso divulga em suas redes sociais o endereço físico do filho desse ministro, incentivando a perseguição da família dele, e também não sofre consequências penais.

São apenas algumas das inúmeras manifestações do que está se instaurando a um ritmo vertiginoso no Brasil. Ditadura é isso: arbitrariedade absoluta e impunidade legal na perseguição sistemática de determinados grupos sociais. Não é preciso um regime político abertamente autoritário: basta que a sociedade seja treinada para odiar, perseguir, desejar exterminar aqueles que quem controla o poder quer aniquilar; que haja a garantia de impunidade para quem o faz e a ditadura está implantada… sem que seja necessário militares nas ruas, fechar o Congresso, atos institucionais que instituam formalmente a censura e etc. É o que está acontecendo.

O golpe já foi feito, o fascismo está solto e a combinação de ambos está caminhando para uma ditadura, mesmo que sob outra roupagem. Para muitos (mulheres, negros, povos indígenas, sem-terras, sem-tetos, etc.), esse estado já existe e desde sempre, é verdade. Mas quando até o mínimo que se tinha duramente conquistado se esvai, quando a arbitrariedade se torna absoluta e irrestrita ninguém – nem mesmo muitos daqueles que hoje participam da implantação desse clima – pode cantar vitória: o sino, amanhã, poderá dobrar por ele.

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