Por um céu de brigadeiro

Por Schneider Carpeggiani carpeggiani@gmail.com
Jornal do Commercio

Coletânea relâmpago organizada por Cristhiano Aguiar (foto) e Sidney Rocha reúne time de escritores. A renda obtida com sua venda será revertida aos desabrigados pelas inundações (leia trechos, no final, de Fernando Monteiro e Felipe Arruda, dois dos escritores incluídos na coletânea)

Pedem o bom tom e os manuais de redação e implora também aquela coisa inefável chamada de criatividade que nunca – nunca – se comece um texto com a definição de dicionário de um termo. Mas tem horas que – como resistir? – o clichê fala mais alto que o estilo. “Céu de brigadeiro” é um regionalismo que designa o conjunto de circunstâncias atmosféricas que prenunciam boas condições de vôo. E de existência. Anuncia o Houaiss. Pois bem, é isso o que todos esperam após as tragédias acorridas em Alagoas e em Pernambuco, mês passado, em decorrência das tempestades. A expectativa por um novo céu de brigadeiro.

Em meio às várias manifestações de solidariedades que surgiram nas últimas semanas, a coletânea de contos Tempo bom, organizada em tempo recorde (três dias!) pelos escritores Sidney Rocha e Cristhiano Aguiar, com toda a renda voltada aos desabrigados. A obra sai com selo da Editora Iluminuras e terá lançamento simultâneo em varias cidades do Brasil, sexta, na Livraria Cultura.

Os lançamentos ocorrerão à mesma hora (às 18 horas), “porque esta é uma hora bem simbólica para a gente nordestina. O livro continuará sendo vendido em todas as livrarias, que repassaram automaticamente os valores para a instituição eleita para dar destinação ao apurado: a Abong, Associação Brasileira das Organizações não-governamentais, que está fazendo excelente trabalho junto aos necessitados nos locais mais críticos”, explica Rocha.

Não foram só os autores que doaram seus direitos para a causa das enchentes. A gráfica MXM rodou os dois mil exemplares de graça e o distribuidor Tecpel também não quis receber o dinheiro pelo papel utilizado.

A ideia da coletânea transformou-se em ação logo após as primeiras chuvas, quando os jornais começaram a estampar as fotos e dar uma dimensão aproximada dos acontecimentos. É o que lembra o organizador. “Aqueles números alarmantes: 40 mil, 50 mil desabrigados. 40 mil, 50 mil lotando os estádios na copa. Os números são sempre alarmantes, em tudo. Pensei: será que estamos de fato preparados para ‘tanta realidade’? E pensar na ficção me levou a pensar de novo na realidade, mas agora transformado. O papel de escritor é o mesmo do filósofo, que é também interpretar a realidade. Mas com atuação de verdade. Então pensei na antologia. Daí cataloguei a fauna possível e, com o apoio incondicional de Cristhiano Aguiar, que organizou e selecionou comigo os textos, partimos para a luta e em poucas horas tínhamos o time e as intenções”, continua Rocha.

Tempo bom é composta por 21 autores. Estão presentes nomes como Alberto Mussa, Fernando Monteiro, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Raimundo Carrero, Xico Sá e Marcelo Pereira (editor do Caderno C). Ou seja um mosaico da literatura brasileira contemporânea. “Precisamos pensar mesmo o que estamos chamando de literatura brasileira contemporânea. O que é isto, na verdade? Essa antologia é o tempo (bom) em movimento.”, aponta o organizador.

“Lemos cada um dos textos, atacamos e defendemos cada autor e exigimos deles um compromisso com a qualidade. Então temos textos inéditos de autores consagrados, textos inéditos de autores inéditos em livro, textos especialmente escritos para a coletânea, tendo como fundo a assunto das enchentes — que não foi um tema especialmente pedido as autores, que escreveram sobre o que quiseram — mas é o caso de um conto meu e do Marcelino Freire, textos escritos para antologia sobre temas variados, sob circunstâncias bem específicas também”, aponta Rocha.

Segundo Cristhiano Aguiar, o tom dos textos da coletânea é bastante variado e quase não estão presentes algumas das vertentes facilmente identificáveis na prosa contemporânea brasileira, como um certo confessionalismo pós-juvenil e um (ainda) realismo feroz. O que é muito bom. “Em muitos dos contos existe ainda uma abertura para o imaginário e o fantástico, como é o caso dos contos de Rinaldo de Fernandes, Diogo Monteiro, do próprio Sidney, entre outros. Considero isto algo muito saudável. Acho que há um cardápio variado de experiências com a linguagem: desde contos mais reflexivos, como os de Fernando Monteiro e Alberto Mussa, até contos de ‘pegada’ forte, como os de Marcelino. Desta forma, acredito que o que une esta antologia consiste em oferecer ao leitor o prazer da leitura: nossa aposta é que Tempo bom, seja um livro que possa instigar os seus leitores. O compromisso com a qualidade editorial é tão importante quanto o aspecto beneficente do projeto”, destaca Aguiar.

Entre as surpresas do livro, ele destaca Gustavo Rios e Astier Basílio, “prosadores que surgem com uma voz autoral forte”. Tempo bom é a literatura de hoje, refletindo e ajudando esse “hoje” que tanto lhe fornece histórias para contar.

» Tempo bom: Lançamento sexta-feira (dia 9), às 18h, na Livraria Cultura. Preço médio: R$ 26

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Leia trechos de “Tempo bom”

A CABEÇA DE CALCÁRIO
Fernando Monteiro

Em Alexandria – onde ainda vaga a alma lunática do Bicórnio– eu conheci um egípcio daqueles de formação helênica, extremamente educados, que sentiam a falta de tudo. “Estou amargurado pelas coisas que faltam”, ele dizia. “Meu pai foi assim”. Ele veio me procurar. Disse que tinha dois motivos: queria publicar um anúncio, em inglês, no jornal onde eu escrevia coisas que ele admirava – explicou – e mostrou um dos meus artigos, com um texto sublinhado: “Sinto falta da réstea de luz sobre a parede branca – uma mancha a desbotar a outra (e a parte do decote, na foto) e dos cães que ouviam se quebrarem as folhas debaixo dos seus saltos altos, no quintal onde sempre vão soprar – na lembrança – os ventos dos livros de aventura lidos no banco de concreto recoberto de azulejos que permaneciam frios da noite. Os perfumes e os chocolates que não se fabricavam mais. Um deles – dos perfumes – tinha um rótulo que sugeria os minaretes de Istambul na noite (justo: chamava-se ‘Topkapi’) contra a massa escura do Chifre (engano: chamava-se ‘Bósforo’ – porque já havia um perfume chamado ‘Corno de Ouro’)”… O egípcio até se parecia com Kaváfis, fisicamente – talvez porque todos os alexandrinos cultos se pareçam com “Baltazar” e outros perfis que tiramos dos livros, antes de defrontar um ou outro saído de sob alguma cortina do cenário real de uma cidade muito mudada.A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte, conheceu uma modernidade transida pelo senso do passado, de modo que todas as suas ações – e mesmo alegrias – eram meio toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte porém não a desejam, é claro.

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EFEITO NÚMERO 1
Felipe Arruda

Um tanto de areia preta com água mexe e vira argila. Vira uma escultura, que é fotografada. A foto é impressa num papel de parede e este é colado num muro bem grande. O muro é marretado e demolido até restarem milhares de pequenos pedaços nos quais ainda se notam em fragmentos o papel de parede com a foto da escultura de argila. Esses milhares de pedaços são amontoados junto a um espelho e formam, por efeito, dois montes idênticos lado a lado. Esses dois montes são filmados em película durante cinco minutos. Essa película é cortada em vários pedaços que são pendurados num extenso varal.5 minutos pendurados num varal.Esse varal com essas películas é fotografado em preto e branco, à contra-luz, lembra as listras de uma zebra. Essa imagem é impressa num tecido branco, criando uma interessante estampa que vira um biquini. A modelo ganha o biquini do artista que criou a estampa. Ela é fotografada por uma revista de ti-ti-ti usando o biquini de estampa feito a partir da foto das películas que filmaram os montes de entulho com fragmentos do papel de parede impresso com a foto da escultura de argila. O ex-namorado da modelo está na praia lendo a revista de ti-ti-ti. Ele vê a ex-namorada-modelo na foto com o dito biquini. Ele arranca a página da revista, amassa até virar uma bolinha, cava um buraco na areia preta da praia. Passa uma onda.

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