Pornochanchada

Por Fernanda Torres
FSP

Obedecendo à lei do eterno retorno, era de esperar que um gênero proscrito tão poderoso quanto esse voltasse a se fazer presente

Acabo de assistir a um concerto da Orquestra Filarmônica da Radio France no Albert Hall de Londres. Eu jamais havia pisado no imenso Maracanãzinho vitoriano. Eu me surpreendi não só com a qualidade de dois extraordinários compositores contemporâneos que não conhecia, Pascal Dusapin e Olivier Messiaen, como com a popularidade da casa.

Pessoas de jeans e camiseta lotavam os milhares de lugares. Muitos assistiam de pé, como num concerto de rock, provando que a música erudita na Europa é uma tradição tão mundana quanto o futebol.

No avião para cá, lendo uma pilha de revistas e jornais, li a opinião uníssona das resenhas a respeito de “Cilada.com”, de Bruno Mazzeo e José Alvarenga Jr., afirmando que marca o retorno definitivo das pornochanchadas às telas brasileiras.

Cada país tem a tradição cultural que merece e, como dizia um psicanalista que me atendeu por longos anos, é preciso “bem dizê-la”.

A pornochanchada foi um fenômeno arrebatador que influenciou o cinema feito no Brasil por quase 20 anos.

Acalento a vontade de resgatar essa filha bastarda e não me espanta vê-la ressurgir repaginada.

Na ditadura, os intelectuais fugidos da perseguição e da censura se infiltraram na Boca do Lixo e produziram o mais bizarro gênero de que se tem notícia, uma mistura de heróis niilistas com mulheres de calcinha: a pornochanchada cabeça.

Essa bem-sucedida fusão foi a saída para os que buscavam atingir o grande público e para os que pregavam a revolução para as massas.

“Giselle” é um exemplo fascinante do gênero. Fruto da devassidão sem limite da elite abastada, a grã-fina Giselle seduz o pai, a madrasta e o irmão até conhecer uma guerrilheira sapata, com quem descobre a aliança entre o sexo e o amor.

Após presenciar o assassinato da amante, metralhada pela repressão, retorna à perdição da aristocracia decadente. E dá-lhe polca!

O filme de 1980 é modelo de uma estética que comandou as telas brasileiras até a retomada. Nela, o cinema novo, a Boca do Lixo e as chanchadas da Atlântida se mesclavam com a predominância de uma ou outra corrente.

De “Dona Flor” a “Rio Babilônia”, passando por “Eu te Amo”, “Chica da Silva” e “Engraçadinha”, muitos títulos de nossa filmografia traziam traços dessa mistura de escolas.

Depois do deserto criado com o fim da Embrafilme, a tragédia social tomou o lugar do nheco-nheco nas salas de exibição do país.

A partir de filmes como “Cidade de Deus” e “Central do Brasil”, os meninos de rua e a violência social substituíram as mulheres nuas a correr pela praia e as fornicações nas cachoeiras da Tijuca.

Obedecendo à lei do eterno retorno, era de esperar que um gênero proscrito tão poderoso quanto a pornochanchada voltasse a se fazer presente. As comédias burguesas substituíram a onda dos filmes sobre a miséria no gosto da audiência e, assim como nos anos 70, sua sexualização não tardou a acontecer.

O Brasil, ao contrário da Argentina, tem dificuldade de filmar dramas burgueses. Parece que não há tragédia digna de ser contada sobre brasileiros que comem mais de uma vez por dia. A classe média é motivo de riso e perversão por aqui.

Quando eu terminei as filmagens de “Os Normais 2”, também dirigido por José Alvarenga Jr., descobri que, sem perceber, havíamos feito uma versão atualizada de uma pornochanchada. Afirmo isso sem nenhum desmerecimento ao filme.

Fala-se de “Se Beber, Não Case”, “O Virgem de 40 Anos” e “Porky’s” como influência, mas ninguém cita “A Super Fêmea” ou “Histórias que Nossas Babás Não Contavam”.

O diretor Karim Aïnouz me apresentou um roteiro interessantíssimo sobre a época de ouro das pornochanchadas que espero rodar.

É preciso lapidar nossas origens de escracho carnal. Os europeus fizeram isso quando transformaram canções medievais em sinfonias. O problema é que pode levar séculos.

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