Porque estamos vendo filmes como nossos avós

Foto: Seriado Flash Gordon

Por Ana Maria Bahiana
UOL

Tomo café com um amigo de muitas batalhas, terno Armani que já viu crises, tendencias e ondas de poder irem e virem aqui nesta fábrica de sonhos e egos. Ele resume o estado de coisas no cinema independente, onde ele milita bastante (mas não exclusivamente): muito difícil, mais difícil do que nunca ele viu nos seus longos anos nas trincheiras. As principais fontes de financiamento do filme independente secaram: a gordura dos estúdios, em outros tempos cheios de grana com vários arrasa-quarteirões mais sólidos e longos desempenhos de filmes médios; os fundos de investimento europeus, que continuam apanhando da recessão; e os investidores privados, cada vez arriscando menos depois das sucessivas debacles do mercado financeiro.

Nos estúdios, para os quais meu amigo presta silenciosos e eficientes serviços de consultoria financeira, a situação não é muito diferente. “O mantra é risco zero”, ele diz, acrescentando que essa tendência está trazendo de volta um cinema mais antigo que o 3D, tão incensado como salvador de bilheterias: o seriado. “A verdade é que estamos vendo, essencialmente, o mesmo tipo de cinema de nossos pais e avós – os mesmos personagens em aventuras sucessivas e diferentes, mas não muito. Nos anos 1980, a trilogia dominava e os estudios corriam atrás de material que rendesse tres filmes e vários subprodutos. Hoje isso não basta: tem que ser uma franquia com pelo menos cinco, idealmente sete títulos. Ou seja- estamos de volta ao seriado, aos filmes de Flash Gordon e Tom Mix.”

Ele me conta algumas coisas muito pouco divulgadas, mas extremamente importantes: por exemplo, que com a crise o custo médio de produção de um filme caiu cerca de 20% _ mas o custo de lançar e divulgar o mesmo filme dobrou; que a maioria do talento caro – atores, diretores e roteiristas top – está recebendo ofertas de acordos com salário menor e mais participação na bilheteria (“assim todo mundo compartilha o risco”); e que o dinheiro feito na distribuição digital (“que todos esperavam que substituisse o dvd/blu ray, que está caindo”) ainda é “insignificante.”

Não é um cenário muito animador mas, ele acrescenta, nada dura para sempre na industria. Agora é ver quem são os novos players e as novas soluções que vão surgir com mais esta crise/oportunidade.

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