Porra, Crispiniano

Sinceramente, sei não. Tem certas coisas que é melhor a gente nem ficar sabendo. Estive ontem participando do debate sobre uma política cultural para a Grande Natal (graaaaande Natal!) no IFRN, uma iniciativa do grupo Locau, essa mobilização bacana promovida pelo meu velho bróder Esso Alencar.

Até por ter acompanhado intensamente quando trabalhei na cobertura jornalística da cultura, sempre fui muito cético sobre a capacidade de mobilização da classe artística potiguar. Ainda assim, eventos como o de ontem ainda são capazes de comover (mas sem beicinho e mimimi, por favor) pois mostram que, por mais que pisem na nossa cabeça, somos capazes de pensar em dias melhores.

Pode-se até dizer que tivemos épocas piores na história, afinal de contas a Capitania das Artes tem aí mais de 20 anos e a Fundação José Augusto bem dizer o dobro disso. Mas acredito que a situação atual é mais exasperadora porque nunca tivemos tanta oportunidade e meios disponíveis para realmente fazer as coisas andarem na cultura e ainda assim tudo está parado, estagnado, criando lodo.

É justamente pelo fato de nossos artistas estarem mais conscientes sobre seu papel social – e atentos e críticos – que o desprezo e o desrespeito vindos daqueles que deveriam ser nossos representantes junto ao poder público se torna mais absurdo e revoltante.

Sobre a Funcarte, mais de uma vez encontrei com artistas que reclamaram da impossibilidade de conseguir uma audiência com o presidente, ou mesmo de encontrá-lo por lá. Não se encaminha propostas, nem ao menos se passa o pires. Alguns produtores me confidenciaram que evitam pedir patrocínios diretos ao órgão, pois a iminência do calote é real. (Anderson Foca que o diga.) Preferem que a fundação entre com apoios em serviços já licitados, como estrutura de palco e som. Ainda assim, no último sábado a Imunizadora Potiguar se recusou a entregar banheiros químicos no MPBeco. Está há seis meses sem receber pagamento da prefeitura. Nem se caga, nem anda.

No Estado, a Fundação José Augusto alcançou o status de trem (da alegria) fantasma. Há mais de ano que nem para figuração serve. Agora, o que fiquei sabendo ontem no debate ultrapassa os limites da ignomínia.

A FJA ameaçou desclassificar dois dos 25 grupos contemplados pelo edital de cultura popular Cornélio Campina. A premiação é de ridículos R$ 6 mil. Motivo? Dois dos mestres que estavam à frente de seus grupos faleceram. A entidade quer garantias de que os grupos terão continuidade sem eles.

Um deles foi Mestre Lucas (foto), dos Congos de Calçola de São Gonçalo do Amarante. Inclusive, quem falou sobre essa situação foi o neto dele, o arte-educador Gláucio Câmara. O outro grupo é o Boi de reis de Mestre Elpídio, de Parnamirim, com quem fiz uma reportagem muito divertida quando estava no Nominuto. Não consegui falar com o fotógrafo Lenilton Lima, que dá suporte ao grupo, para confirmar se vieram com esse papo para ele também.

O certo é que seguro firme para não engulhar enquanto digito esse texto. Vejam bem: o resultado deste edital de cultura popular foi divulgado em 18 de setembro de 2009. Há um ano e três dias. São trezentos e sessenta e oito dias que 25 grupos folclóricos esperam por uma merreca de R$ 6 mil para fazer o quê? Uma muda de roupa? Reformar um adereço? Trocar uns espelhinhos? Comprar um ou dois instrumentos?

Vinte e cinco grupos folclóricos são, bote aí no barato, uns 300 artistas populares, vindos dos mais baixos estratos sociais, que conseguiram resistir ao assédio do axé e do forró eletrônico para manterem com esforço e orgulho expressões populares de suas localidades, expressões que lhe garantem uma identidade.

São pessoas desprezadas pelo poder público em suas diferentes esferas, que são acostumadas a se apresentarem em troca de uma carona num ônibus escolar e R$ 300, porque o desrespeito é moeda corrente e afinal qualquer coisa que vier é melhor do que nada. Cansei de entrevistar vários deles que se submetem a esse tipo de situação.

Aí, esses caras, Mestre Lucas e Mestre Elpídio, morreram esperando essa porra desse prêmio. Seis mil reais. Morreram, Crispiniano, enquanto você tirava fotos com Lula, decerto para pendurá-las ao lado daquelas suas com Figueiredo.

Aí vocês, burocratinhas de merda da FJA, vêm com essa conversa de que precisam de garantias de que os grupos vão continuar? Além de incompetentes, são burros. Devem desconhecer o papel do coletivo e da memória nessas manifestações. Uma coisa é Dona Militana, que não teve discípulas, morrer. Uma dança popular não funciona assim.

Já sei, inclusive, como é essa história. Na verdade, esses dois grupos vão receber sim essa mixaria. O problema, não é, seus bostinhas?, é que vocês não tem essa grana na mão. Precisam de um tempo enquanto alisam as bolas do governador para que alguém na Casa Civil libere o troco. Então inventaram esse papo furado para atrasar o andamento dos processos.

E, sim, claro: vários destes grupos tradicionais desaparecem com o passar dos anos, asfixiados por tanta indiferença e inanição. Mas esse argumento da Fundação José Augusto é torpe e vil. Mancha a reputação e a biografia de cada um dos envolvidos na administração da instituição. Vocês não valem um espelhinho do uniforme desses mestres.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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