Português Eugénio Graça comanda uma das principais big bands jazzísticas do nordeste brasileiro

Cena 1:

Um garoto de 12 anos, filho de imigrantes judeus russos, vestido com bombachas, sobe ao palco do Central Park Theater de Chicago, em uma matinê de sábado.

A ideia é imitar um famoso instrumentista da redondeza.

Habilidoso na clarineta, no entanto, impressiona a todos, inclusive um band-leader, que o convida para algo mais.

Seu nome: Benjamin ‘Benny’ David Goodman, futuro Rei do Swing, o cara que revolucionaria a proposta das big bands nos anos 1930, com a valorização do apuro instrumental dos integrantes.

De família pobre, como quase todo eslavo naquela cidade, então, o maior centro ferroviário do mundo, Goodman exemplificaria o Sonho Americano, ao partir para a Califórnia cinco temporadas depois – onde ficava trancado no quarto à noite, após tocar, proibido de frequentar bares, por ser menor de idade.

O famoso virtuosismo surgiu dessa reclusão forçada, com a prática alucinada de exercícios.

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Eugénio Graça deu uma canja no Praia Shopping e impressionou o maestro Bembem Dantas, da Filarmônica de Cruzeta (RN); parceria entre os dois músicos foi crucial para inserção do português no cenário musical potiguar, sugerido como ‘difícil’ por amigos nordestinos com quem tocou no exterior

Cena 2:

Você é um turista ou natalense e anda pelos corredores do Praia Shopping, em Ponta Negra.

Olhar nas vitrines, muitas luzes e barulho em volta.

De repente, escuta a manjada Brasileirinho tocada de forma diferente por um saxofone nervoso, mas preciso, algo medular.

“Vamos ver o que é isso”, fala para alguém.

Um homem branco, de estatura mediana, faz uma pequena participação no show de um artista contratado pelo shopping, como que no intervalo para aliviar o chope.

Ninguém desconfiava que ali estava um sujeito com sólida formação musical, com especialização, mestrado, doutorado e estadias na Holanda, Cuba e Estados Unidos.

A presença do maestro Bembem Dantas, regente da Filarmônica de Cruzeta (RN), em pleno sertão potiguar, impulsionará a vida do desconhecido, no futuro.

Falo de Eugénio Miguel Libório Graça, português de Aveiro, hoje líder da SESI Big Band, uma das principais expressões artísticas do Rio Grande do Norte e, por que não dizer, da região Nordeste.

Em proporções cabíveis em suas épocas e universos, as narrativas se agrupam no improviso e na marginalidade que sempre permeou o jazz.

Como Goodman, uma ‘canja’, algo familiar para os portugueses, que trouxeram a iguaria da China e a adaptaram em Goa, Índia, antes de popularizá-la no Brasil (corre a versão de que foi trazida para as Américas por franceses), seria a entrada de Eugénio no prato principal da cultura brasileira – a saber, a música.

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Benny Goodman (1909-1986) era filho de imigrante judeu russo e chamou a atenção de um leader band ao se apresentar em Chicago aos 12 anos de idade; O Rei do Swing virou embaixador americano com sua obsessão por músicos virtuosos, como Duke Ellington, por anos, seu solista-mor

Notas familiares

Sete anos se passaram desde que o patrício Eugénio chegou a Natal –  da parceria estabelecida com o maestro Bembem, em 2009, um sem número de concertos e workshops ocorreram pelo interior do RN.

“Não vou mentir e dizer que foi tudo fácil. Inclusive alguns amigos meus brasileiros, que trabalhei em outros países, disseram que não era pra vir. Diziam que o povo daqui não gostava de gente de fora. E ele é daqui do lado, pernambucano. Aí outro amigo meu, da Paraíba, também dizia que não era pra vir, que o povo não deixava entrar [na cena cultural]. Foi difícil”.

Sua família paterna é de São Paulo, o que lhe garantia certa ambiência no Brasil, com viagens frequentes a Paulicéia Desvairada.

“Não fui morar lá por que aquilo é muito carro, fumaça, confusão, não me adaptei muito bem”.

A musicalidade veio por parte de mãe, ela própria pianista, filha de um maestro e clarinetista, como Goodman, e neta de um tubista.

“A minha formação foi clássica e contemporânea”, disse o português que começou a tocar em banda sinfônica na infância.

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Familia paterna de Eugénio é de paulistas, mas o amor pela natalense Sheila Silva foi mais forte na hora de decidir pela nova morada brasileira

O que isso significa?

Que é graduado em saxofone e direção de orquestra, em Portugal; tem mestrado como solista e performance, na Holanda; doutorado em saxofone na música do mundo, em Cuba; tem curso de produção cultural e gestão e tocou dois anos na Broadway, em Nova York.

Escolheu Natal para morar por ser a terra de sua esposa, a pedagoga Sheila Silva.

E aqui se fez.

Trava-língua: Sopro no trópico

Há quem pense o contrário, como na hora em que falam mal daquele nosso parente cheio de defeitos, mas ouvir de um estrangeiro certas verdades sobre seu país é reconfortante.

Serve para colocarmos os pés no chão, pois eles costumam ver curvas, brilhos e cores em todo lugar – enquanto, na realidade, sobram linhas retas e desolação.

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Seu instrumento é o saxofone soprano; cursos em Cuba, na Holanda e em Portugal talharam musicalidade do maestro e diretor artístico da SESI Big Band

“Como em tudo, não é só na música não, tem muita gente talentosa, extremamente talentosa, no Brasil. Extremamente. Mas tem um problema: são tanto talentosos, como pouco compromissados. E esse é o grande problema do brasileiro. E também não é só na música, esse problema. Acho que pelo excesso de talento, sabes? Quando a pessoa não tem tanto talento, para chegar a um determinado nível, ela tem que estudar. Não tem outra hipótese. Aqui naturalmente o cabra sabe tanto, que esquece de se dedicar. Aí cria o tal do amadorismo. A própria sociedade o vê como um eterno amador. Esse comodismo veio com o português”.

Eugénio escuta de Charlie Parker a Chitãozinho & Chororó (“Segunda voz é bem feita”).

Se o tempo em que morou em Cuba reforçou a paixão pelo latin jazz, através do som de Paquito de Rivera, do fantástico Irakere (grupo liderado pelo pianista Chucho Valdés) e do dominicano Michel Camilo; a vida no Brasil fez com que Tom Jobim, Elis Regina, Lenine, Djavan, Sivuca e Luiz Gonzaga tivessem vez em sua vitrola.

Paquito e Dizzy
Dois monstros do jazz: Paquito de Rivera (à esq.) e Dizzy Gillespie (dir); um cubano, outro, americano, eles foram responsáveis por jogar latin jazz no centro de uma explosão musical das mais ricas dos anos 1970

É a mescla perfeita com ícones do jazz, como Dizzy Gillespie, Stan Getz, Billy Holiday, Thelonious Monk, Charles Mingus, John Coltrane e Miles Davis.

“Portugal não tem o fervilhar cultural que tem nos países da América Latina, porque não tem miscigenação de raça. E quando é pouca a mistura tu só tens uma coisa. Acho que 90% dos músicos que já trabalhei são brasileiros, porque eu prefiro o talento. Aí tento misturar com a outra parte, a dedicação, o empenho, o estudo, o comprometimento. Normalmente, um músico brasileiro, quando ele estuda, figura entre os melhores do mundo. Tudo o que é emoção, aptidão natural, inovação, ele tem, é natural nele, entendes?. A musicalidade é muito maior no brasileiro, de longe”.

SESI Big Band

Na hora em que estiver no palco do auditório do Campus Central do IFRN, na noite do próximo sábado (09), e no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, em Mossoró (16), para lançar o primeiro CD da SESI Big Band, este ao lado da potiguar Khrystal, aquele com a carioca Taryn Szpilman (foto), o maestro e saxofonista Eugénio Graça completará um ciclo de três anos.

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Taryn Szpilman se apresentará com SESI Big Band a partir das 20h30 de sábado (09), no auditório do campus central do IFRN. Foto: Divulgação

“Não se tinha a intenção de ter uma orquestra profissional. O projeto começamos a discutir em 2011, foi aprovado em Brasília em 2012 e iniciou as atividades em 2013. À época, falei com o superintendente que no Estado temos muitos músicos talentosos, principalmente nos sopros. Falei que tinha muita gente boa que não tinha onde tocar. Estamos com três anos de atividade ininterrupta. Mesmo neste momento que o país atravessa de crise, eles continuarão a nos apoiar”.

Parte de um projeto cultural grandioso, a SESI Big Band está inserida no Sesi Arte, escola de música subsidiada pelo departamento nacional do Serviço Social da Indústria, que engloba mais de 180 alunos em Natal, Assu, Macau e Mossoró.

Cinco novas salas serão construídas para ampliar a abrangência dos cursos de quase todos os instrumentos de uma banda sinfônica.

Khrystal
Khrystal levará o xote e o baião para o palco do Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, em Mossoró (RN), no próximo dia 16, na repetição do sucesso do show em parceria com os 22 integrantes da banda jazzística

A urgência por uma ação voltada para músicos locais motivou sua luta para conseguir recursos e formar um grupo com alta qualidade instrumental.

“Nossa Orquestra Sinfônica do Estado, no meu ponto de vista, não presta o serviço a quem paga os impostos para ela existir. Nem para quem estuda música, nem para a população no geral. Eu sentia isso. A música instrumental é importante, mas ela só é importante se tu tiver público. E para ter público, tu tem que formar, senão tu não tem porque existir. Para que existir uma orquestra sinfônica se ela não forma público? Além de não servir aos músicos, que não têm espaço”.

Longe de querer dobrar o número de instrumentos para aumentar o volume, mas, sim, manter o mais natural possível as inflexões timbrísticas individuais de cada instrumento, ao mesmo tempo em que mantém a flexibilidade, uma big band tem, em média, de um terço a um quarto de integrantes de uma orquestra sinfônica.

“Eu queria que tivéssemos uma orquestra que fizesse espetáculo, onde as pessoas vibram, se divertem, saltam, dançam, assistem, entendes? E a formação que mais se adequa a esse tipo de trabalho é a big band, que é basicamente uma formação de sopro. São cinco saxofones, seis trombones, tuba, quatro trompetes e a seção rítmica, piano, baixo, bateria, guitarra. Era uma lacuna, um espaço vazio. Não é que não tenha público no Rio Grande do Norte. Tem, mas as pessoas precisam saber que existe e depois aprender a gostar”.

Lançamento do CD

Intitulado SESI Big Band & Taryn Szpilman, o disco tem repertório variado, com sonoridades que perpassam influências que vão do funk ao blues, do choro ao puro jazz.

Tem Pick up the pieces, da Avarage White Band; Chega de saudade, de Antônio Carlos Jobim; Georgia on my mind, escrita pela dupla Hoagy Carmichael e Stuart Gorrell, imortalizada na voz de Ray Charles; One more once, de Michel Camilo e, claro, a ‘simbólica’ Brasileirinho, de Waldir Azevedo.

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“Eu queria que tivéssemos uma orquestra que fizesse espetáculo, onde as pessoas vibram, se divertem, saltam, dançam, assistem, entendes? E a formação que mais se adequa a esse tipo de trabalho é a big band, que é basicamente uma formação de sopro […] Não é que não tenha público no Rio Grande do Norte. Tem, mas as pessoas precisam saber que existe […]”.
“Às vezes maestros e diretores artísticos caem no erro de impor um repertório que ele gosta. Mas o que ele gosta não quer dizer que vá ser o que o público quer ouvir. Faz parte de minha personalidade envolver o público com os músicos, comigo. Penso que o momento musical ao vivo tem que haver uma troca de energia, senão ele não tem razão de existir. Primeiro, tenho que tocar jazz, a formação é de jazz. Mas nós também tocamos choro, bossa nova, mambo, funk jazz”.

Em janeiro último, a banda fez o que Eugénio considera seu maior show, com o gaúcho Yamandú Costa, na Praça Ecológica de Ponta Negra, diante de 18 mil pessoas.

São três projetos com os 22 músicos: SESI Big Band do Nordeste ao Jazz, SESI Big Band Vai à Escola e o SESI Big Band Convida – este trouxe nomes importantes da música brasileira a Natal, como Ivan Lins e Ed Motta.

“O Convida veio exatamente naquele pensamento de formar público. Nós precisávamos de que as pessoas soubessem que é massa ir num espetáculo, entendes? Que tu vai ali ouvir música instrumental, improviso, mas que tu vai se divertir, passar um bom momento. Mas como que tu vais passar isso para um grande público se eles não te conhecem?”.

Benny Goodman e Artie Shaw foram pioneiros em trazer instrumentistas negros para as big bands nos 30s.

Do timaço que acompanhava o judeu russo saiu ninguém menos que Duke Ellington, outro histórico líder de banda.

Um quê de revolucionário circundava aquela turma.

O grau de semelhança com o que acontece por aqui é você quem diz.

Fotografias de Eugénio Graça: John Nascimento

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