Pós-modernidade et allii

Caros amigos:

Os argumentos de Maffesoli sobre o presente e a pós-modernidade são extremamente genéricos. Ele não estabelece diferenças entre ideologia dominante do tempo (a defesa do puro presente) e práticas sociais efetivas do tempo (os debates ecológicos, a defesa de direitos, as propostas de alternativas).

Considero uma extrema simplificação reduzir todas as sociedades do mundo a um princípio único – a pós-modernidade. É possível inverter o raciocínio de Maffesoli, lembrando que o auge da modernidade (séculos XIX e XX) foi marcado por uma vontade de puro presente através da alegre destruição de recursos naturais não-renováveis, em nome da superioridade do presente em relação a qualquer outro tempo. Assim, a modernidade se exercia como poder do presente em relação ao passado (negação) e ao futuro (invenção). Hoje em dia – suposta pós-modernidade -, há muito mais debates sobre os riscos que isso representa para a sobrevivência do planeta – logo, maior cuidado em relação ao futuro e ao passado, sim. E a crítica da modernidade veio de algumas de suas vozes mais modelares – Nietzsche, Freud, Marx.
Vale lembrar que diferentes grupos sociais têm diferentes acessos à fruição do tempo, em particular, no que se refere ao consumo de diferentes bens e serviços. Boa parte da humanidade sequer tem garantido o direito a recursos básicos de sobrevivência – alimentação, moradia, saúde.

Entendo a fala de Maffesoli como um projeto pessoal para o mundo, o que é seu pleno direito. Isso não se confunde com alguma suposta unanimidade universal. Nem anula a permanente perda do hoje, que se transforma em ontem tão logo é declarado atualidade. É possível até indagar, metafisicamente, se esse hoje existe ou se não passa de uma fantasmagoria entre seu passar e seu porvir.

É preciso discutir criticamente as instâncias que dominam o uso do tempo no mundo atual. Tanto empresas voltadas para o consumo desenfreado quanto agências políticas e sociais que produzem os argumentos de que nada mais interessa além do puro presente. Nesse sentido, Maffesoli pode se confundir apenas com um ideólogo da concepção dominante de tempo.

E o presente, ele mesmo, não é uma coisa só: entre a passividade do consumo e o risco de inventar alternativas, existe um enorme abismo. As revoltas de jovens pobres (imigrantes e outros) nas periferias das grandes cidades, em busca de educação, emprego (alguma renda) e acesso ao consumo, indicam vontade de um presente e também de algum futuro.

Por fim, quero lembrar que a fala de Maffesoli se impõe através de instituições dotadas de autoridade derivada de seus passados e seus presentes: universidade, imprensa, editoras. São vozes de autoridades, que não se esvaem no puro presente.

Receio que a interpretação de Maffesoli se constitua num incentivo à passividade política e social dos grupos humanos. Lembro que os problemas mundiais continuam gigantescos (novas formas de escravidão, exploração alucinada do trabalho, desigualdades sociais gritantes) e falar sobre esse tempo reconciliado no presente é calar aqueles que procuram denunciar desmandos e superá-los. Nesse sentido, América Latina e Extremo Oriente (mas também África, Europa, América Inglesa) continuam potencialmente abertas a novas e necessárias invenções.

Entendo que sociólogos, historiadores e outros cientistas sociais não são profetas, não indicam o que o mundo tem que ser. Como cidadãos, evidentemente, podem e devem expressar opções. Mas têm o papel prioritário de analisar experiências palpáveis, através de discursos demonstrativos e explicativos.

Falta demonstração e explicação em Maffesoli!

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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