Post-rock

Por Daniel Galera – O GLOBO

A descoberta do post-rock me fez enxergar o padrão oculto em um gosto musical confuso. O termo, cunhado no início dos anos 1990, procurava abarcar uma nova onda de bandas que exploravam os instrumentos e equipamentos tradicionais do rock para fazer um outro tipo de música

Ouvi falar do termo post-rock pela primeira vez no insuperável ano de 1999, quando caiu em minhas mãos o CD do “Young team” (1997), álbum de estreia da banda escocesa Mogwai. Até então, minha relação com o rock era um tanto ambígua. Eu era um fã honesto de Led Zeppelin (FOTO), Pink Floyd e Guns N’ Roses, mas meu gosto por bandas como Nirvana ou ícones roqueiros como Iggy Pop era um pouco fingido, mero comportamento de manada de um adolescente. Reconhecia a qualidade dos Beatles de maneira objetiva, mas eles nunca tocaram meu coração. Tinha uma aversão meio secreta por Rolling Stones, Eric Clapton, Doors. Ao mesmo tempo, adorava o thrash metal do Pantera e o hard rock metaleiro do Motörhead. Era uma equação que não fechava muito bem.

A descoberta do post-rock me fez enxergar o padrão oculto naquele gosto musical confuso. O termo, cunhado no início dos anos 1990, procurava abarcar uma nova onda de bandas que exploravam os instrumentos e equipamentos tradicionais do rock para fazer um outro tipo de música que, se não era antirrock, procurava evitar os ritmos, temas, posturas de palco, riffs e refrães grudentos predominantes nas fórmulas roqueiras. Em vez de enfatizar as letras e as estruturas de canção consagradas, as bandas de pós-rock traziam ao primeiro plano os climas, timbres e texturas.

A partir do Mogwai comecei a escutar Slint, Low, Don Caballero, Migala, Explosions in the Sky e Godspeed You! Black Emperor. Entendi que meu ouvido era apaixonado por certos tipos de timbres e texturas que essas bandas optavam por colocar em primeiro plano, sem a distração das letras (a maioria das bandas de post-rock é instrumental ou recorre pouco a vocais), do modelo de verso e refrão e da postura roqueira como um todo. A alternância entre melodias delicadas e turbinas de distorção, entre arejamento e saturação; as mudanças abruptas de volume e andamento; o uso farto de samples de voz e ruídos ambientais; a estrutura livre ou mesmo inexistente; as massas sonoras que evocavam avalanches, ventanias — era isso que me afetava. Eu estava me lixando para o rock. O que eu queria do rock eram as eventuais manifestações desse tipo de timbre e textura, nada mais.

Como gênero musical, o post-rock fazia tanto sentido que logo deixou de fazer sentido. As bandas assim rotuladas eram variadas demais, influenciadas por kraut-rock, ambient, shoegaze, math rock, música clássica, minimalismo, jazz, dub reggae, metal, trilhas de cinema, música eletrônica de vanguarda. A maioria das bandas de post-rock rejeita a etiqueta.

Mas o post-rock existe e continua evoluindo em direções animadoras. No Brasil há ótimas bandas em atividade, tais como ruído/mm e Herod. Sem falar nos clássicos obscuros como o álbum “…A incoerência é uma armadilha”, da goiana Frank Poole, que contém a bela e estranha “A saga sem fim do gollo galático”, com 19 minutos, uma favorita pessoal. O site sinewave.com.br é um bom portal para a cena.

Lá fora, uma das atuais tendências é a migração das bandas que privilegiavam guitarras distorcidas rumo a sonoridades cada vez mais eletrônicas, incorporando elementos de dance music, dubstep, ambient e noise. O trabalho mais recente do Mogwai é um exemplo. Dois dos melhores discos de post-rock que apareceram neste ano reforçam essa impressão.

Um deles é “Slow focus”, terceiro álbum da dupla inglesa Fuck Buttons. Combinando os tons alongados e repetitivos da drone music com os volumes e distorções praticados pelo post-rock mais agressivo, a banda cria paisagens de ruído eletrônico que se acumulam e expandem até preencher cada reentrância da capacidade de absorção sonora do ouvinte. Mesmo assim, cada nota e barulhinho permanece audível, crocante e cristalino.

O outro é “Wild light”, da também inglesa 65daysofstatic. No disco de estreia, “The fall of math” (2004), eles criavam britadeiras sonoras com guitarras abrasivas, bateria ao vivo e percussão eletrônica. O álbum recém-lançado é dominado por sintetizadores, e as músicas apresentam estruturas matematicamente intrincadas. Porém, ao contrário do que se esperaria, a sonoridade é orgânica e cada música nasce, cresce e se contorce como uma criatura viva. O videoclipe oficial da faixa “Prisms” legitima esse tipo de leitura com animações do que parecem ser estruturas celulares renderizadas em estilo wireframe, pulsando ao ritmo da música, em mutação. Distorções típicas de fitas VHS convulsionam a imagem digital.

Nas texturas sonoras desses discos, há pouca diferença entre analógico e digital, orgânico e mecânico. É tentador ir além e dizer que se trata de post-rock para tempos pós-humanos, mas a música que oferecem é cheia de emoção e páthos. O que eles indicam é outra coisa: não tem essa de pós-humano. No fim da rota de fuga do artificial, a Humanidade topa de novo consigo mesma.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 15 de Novembro de 2013 21:41

    (?)

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