Posteridade alguma e posteridade já!

Ideas

Por Paulo Scott
BLOG DA COMPANHIA

1.

Folheando o romance de estreia da Laura Erber, o Esquilos de Pavlov, me deparei com a frase: “Saibam, meus pintinhos, sem a varinha mágica do curador, o melhor de vocês não passa de poeira de rua”. Talvez — por uma questão de honestidade intelectual — diria alguém — eu devesse apontar o contexto narrativo do qual esse trecho foi extraído e, talvez, até falar um pouco sobre o trabalho dessa jovem autora, que merece toda atenção, e devesse também explicar o quão bizarro pode ser o processo mental de escolha de um tema quando se está precisando encontrar um tema para cometer o texto que recheará uma coluna inaugural do tipo “coluna de escritor brasileiro contemporâneo”. Relacionar esse trecho escrito pela Laura, entretanto, se deve ao seguinte fato: foi do encontro da minha leitura zapeada com o que ela escreveu que surgiu, e depois grudou em mim, a ideia de anotar algo sobre curadoria e universo literário.

2.

Diz-se por aí que os curadores são as grandes estrelas da mise-en-scène literária contemporânea; são figuras consensualmente dispostas à enxurrada de novidades e talentos, são os agentes que canalizam a voz, uma voz inevitavelmente suprema, a declarar o que vale a pena e, por consequência, o que não vale, porque de fato há tantos títulos bons que se renovam vertiginosamente a cada vez que se visita uma livraria ou se abre a página eletrônica de uma editora, uma revista literária, um suplemento, um jornal, há tantos autores bons escrevendo e há essa acessibilidade plena que empanturra (como um esquilo descontrolado e mórbido se empanturraria numa fábula ocasional) boa parte dos que se propõem a conhecer o novo, adquiri-lo, consumi-lo de maneira extensiva, mantendo alguma atualidade, alguma independência de eleição, inclusive. É necessário instituir um lugar, de preferência o lugar, aquele que permaneça — é questão de contingência cultural, questão de prosseguimento.

3.

Quando ministro oficina de criação literária começo sempre pela frase: ninguém é obrigado a gostar do que você escreve. Há sentidos variados nessa afirmação. Da minha parte, posso garantir que nunca pretendi esgotá-los. Alguns alunos me acusam de ser precipitado ao anunciar que ninguém é obrigado a gostar do que o outro escreve, um precipitado que consegue aniquilar a esperança de alguém que se imagina escritor dali a um tempo. Outros, no entanto, a leem como sendo uma dica, a seguinte dica: se você quer escrever, se você precisa mesmo escrever, acha importante escrever, deve estar preparado para seguir escrevendo mesmo que não venha o tal reconhecimento, o reconhecimento que estava em suas expectativas iniciais não declaradas. O fato de seu trabalho não existir sob o foco, sob o guarda-chuva de alguma eleição, ou de qualquer eleição, não pode ser impactante a ponto de enterrar um projeto de escrita, o seu projeto de escrita. Os alunos sempre se lembram desse registro. Mas não é só isso.

4.

Alunos de oficina literária, mais do que qualquer outro grupo coeso dentro do mundo literário, versão mundo literário ampliado, tendem a levar demasiadamente a sério as listas de melhores lançamentos do ano, de finalistas deste ou daquele prêmio, de convidados desta ou daquela feira literária, tendem a aderir às mitologias eventualmente orquestradas pelo escritor-professor que ministra a oficina (imagino que não seja impossível encontrar ministrante de oficina que ceda à tentação de se colocar no lugar de Zeus). Alguns alunos de oficina tendem a cogitar o seguinte: no que o fato de publicar um livro de literatura ajudará meu projeto de conquistar notoriedade? Fale a verdade, se você escreve, seja em guardanapo para depois mostrar aos amigos bêbados da mesa, escreve e publica nas modalidades de mídia impressa, em blog, rede social ou nos muros do seu bairro, sinto muito, você quer notoriedade. Querer notoriedade não é pecado, não pega mal. Nada disso que anunciei, todavia, é regra absoluta. Seguindo. Quase sempre — enquanto os outros deixam a sala ao final de um primeiro encontro —, alguém se aproxima e pergunta: como faço para publicar por uma grande editora e como faço para meu trabalho ser conhecido e, depois de conhecido, como faço para ser ainda mais conhecido? Pois é. E não seria descabido resumir esse quadro numa palavra cíclica já referida aqui: eleição.

5.

A pessoa que elege o trabalho de outras faz parte de uma cadeia, justifica-se pelo que já disse (e como disse), pelas posições que já ocupou, pelos pensamentos e leituras que formulou, pela coerência que conseguiu ao apresentar tais pensamentos e leituras, pela sua singularidade dentro do meio funcional dentro do qual escolheu agir e, em última instância, pela sua biografia — o que envolverá implicações afetivas, as bem-sucedidas, os desastres sem vítimas, os meros desconfortos, os grandes desconfortos. Quero dizer com isso: sempre haverá uma carga significativa de subjetividade, de fixação do tipo obsessão estética e retórica, de gosto pessoal e ideologia. Já foi observado em outras análises relacionadas que são aqueles que definem os curadores, julgadores, avaliadores, os verdadeiros donos do destino de uma eleição; basta olhar a composição de um júri para que as conjecturas e apostas comecem a brotar (sem serem de todo absurdas). Essa, contudo, nunca é uma dinâmica óbvia; um curador, um julgador, sempre pode ter a consciência de que é preciso desconstruir-se para enxergar melhor, para assumir uma solução, uma resposta, que resista a questionamento futuro.

6.

O olhar da história é sempre cruel. O que foi tido como o melhor de nossos dias pode ser pouco mais do que nada daqui a uma década, pode estar completamente esquecido daqui a duas. E a culpa será do curador, dos curadores; será deles a culpa pela leitura errada, pela incapacidade de revelar o que já se apresentara, mas não recebera atenção devida. Já fui curador, já fui jurado, já opinei em preparação de projeto que resultou em panorama do que havia de notável em determinado momento. Eleger não é tarefa fácil, como já disse, há muita subjetividade e muitas limitações envolvidas. Uma coisa eu sei: não vale a pena perder tempo criticando as escolhas de um curador — um curador, honesto e coerente, tentando ser o mais justo possível é alguém que jamais dormirá totalmente tranquilo, porque sabe que não acertou por completo, que será o primeiro a ser julgado quando o distanciamento histórico vier.

7.

Alguns alunos de oficina acham que você chegou até onde chegou porque aprendeu a controlar certos fatores, porque desenvolveu truques de criação e compreendeu a lógica do sistema. Em razão disso, sempre digo que os decepcionarei no quesito desvelar o segredo do universo. O contexto literário não é justo, nunca foi. Há grande chance de que os melhores romances, novelas, coleções de contos ou poemas destes dias não tenham sido publicados, tenham sido recusados por editoras (tanto pelas grandes quanto pelas pequenas), tenham sido colocados entre os últimos lugares e, por isso, desclassificados das seleções e concursos literários. A pessoa que pretende seguir o tal ofício de escritor deve estar disposta a prosseguir mesmo que não haja aplauso, mesmo que nada se diga a seu respeito. Costumo incentivar a primeira publicação, imagino que seja uma forma razoável de se situar, de afastar uma ou outra idealização que não melhorará em nada o que você escreve. Geralmente, quando se publica o primeiro livro, como se diz na linguagem coloquial, ele “passa batido”; claro, sempre há a possibilidade remota de seu livro de estreia ser uma obra-prima e, a conta disso, o que já seria uma sorte, ser reconhecido e comemorado por todos, ao menos naquele momento da história (aquela moça do olhar cruel).

8.

Um aluno me disse numa oficina de criação literária que ministrei há pouco tempo: eu sei que tudo é questão de estar no lugar certo e na hora certa. Respondi que havia muito de verdade naquela afirmação. Nunca sei direito como agir diante de um aluno convicto, que espera tão somente de você palavras de estímulo e concordância. Costumo dizer que não há regras definitivas na literatura. Já houve quem retrucasse, durante um encontro de oficina, afirmando que tudo nesta vida depende dos ciclos. (Jamais imaginei que me encontraria ministrando oficinas de criação literária.) Há muito de verdade na tese dos ciclos. Dizem por aí que ensinar é uma cachaça, uma parte do ciclo, uma parte que sempre volta, que se você pegou o gosto (e isso, no meu caso, talvez tenha acontecido no tempo em que fui professor universitário) jamais perderá o prazer de ensinar. Dizem por aí que se colocar diante de alunos é se colocar num palco. E também dizem por aí: quem sabe faz, quem não sabe ensina. Na verdade, costuma-se dizer muita coisa por aí; nem tudo o que se diz vira eleição. Nem todos têm o poder de eleição. Ser contemplado não facilita em nada a rotina de criação, o prosseguimento. A vontade de escrever, a determinação pela escrita literária, está num lugar que ainda não descobri, mas está lá, no lugar nenhum; sei que essa vontade não depende de endosso alheio. Chega, é poesia demais, alguém diria.

9.

Lembro da vez em que escrevi meu primeiro poema, foi durante uma atividade em sala de aula, e lembro que tempo depois, ainda naquele mesmo ano, mostrei o poema a uma colega (não consigo lembrar o nome dela), ela não disse nada, e eu o rasguei quando cheguei em casa. Longe de qualquer ambição ou certeza a respeito do que, por ventura, ficará destes dias, aquele foi o meu passo, e já sem eleição ou posteridade, o verdadeiro primeiro passo.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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