Posteridades

Por Luis Fernando Veríssimo
O GLOBO

Albert Camus visitou Nova York e escreveu sobre suas emoções e perplexidades na cidade grande. Uma cidade, segundo ele, em que você poderia se perder para sempre, mas que ele acabou amando.

Não sei se Camus viu mesmo a frase num anúncio de funerária ou se a inventou, para dar uma ideia do espírito e da estranheza do lugar, mas a frase é ótima: ‘Morra, e deixe o resto por nossa conta.” O único trabalho de um cliente de funerária é mesmo morrer, todo o resto, inclusive sua posteridade, não depende mais dele.

Eu só queria reproduzir a frase, mas já que começamos com Camus e a posteridade, entremos num assunto sobre o qual ele também opinou bastante, a relação dos intelectuais com a política e o poder. Camus e Sartre foram dois exemplos de intelectuais engajados, Sartre um pouco mais do que ele. Engajaram-se na boa causa da resistência ao nazismo, divergiram em outras questões em que o inimigo não era tão claro. Nenhum dos dois — a não ser que você lamente que Sartre nem sempre tenha medido suas adesões radicais — tem do que se arrepender, na posteridade. Outros não podem dizer o mesmo.

O fascismo teve muitos admiradores entre os intelectuais, inclusive no Brasil. Heidegger, Ezra Pound e Celine são apenas os mais notórios apologistas do nazismo, mas a lista é longa. E é longa a tradição de pensadores, criadores e filósofos que, por convicção ou distração, deram-se mal nas suas incursões políticas. Uma resenha que li recentemente de um livro chamado “Examined lives — From Sócrates to Nietzsche” enumera alguns dos iludidos da história. Platão achou que tinha descoberto o executor ideal da sua receita para uma república de filósofos em Dionísio de Siracusa, que revelou- se um tirano. Aristóteles meteu-se com Felipe II, que tinha alguns genocídios na sua folha corrida, e foi o mentor intelectual de Alexandre, seu filho, que também tinha o gosto por matanças. Quando Alexandre morreu, Aristóteles fugiu de Atenas, alegando, não sei se ironicamente, que queria poupar a cidade que já obrigara Sócrates a tomar cicuta do vexame de matar mais um filósofo.

Em Roma, Sêneca tornou-se o filósofo da corte. Nada demais, se o imperador não fosse o pirotécnico Nero. Quando Sêneca se deu conta de onde estava metido e tentou sair, Nero acusou-o de traição e o mandou matar. E nem Santo Agostinho escapou de uma mancha na sua posteridade. Quando chegou a bispo comandou a destruição de templos pagãos e a repressão brutal de não cristãos.

Mas, enfim, como no anúncio da funerária novaiorquina anotado ou imaginado por Camus, todos eles já morreram, e nada do resto era da sua conta.

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