[POTIRATURA] “Contos de Areia”, Chico Alves d’Maria

Chico Alves d’Maria é um nome que merece atenção na literatura potiguar. Versátil em sua condição de intelectual, publicou em 2016 o livro de poemas “Ancoradouros”, revelando, sobretudo, o fascínio pelas águas e unindo-se, tematicamente, à poeta Zila Mamede em sua fase talássica. É na prosa, no entanto, que o autor atinge culminâncias. Nascido em Areia Branca, Chico Alves faz da terra natal o ambiente da sua mais recente obra, “Contos de areia”, recriando trajetos, esboçando tipos e resgatando logradouros e costumes, pois, conforme atesta o paraibano Hildeberto Barbosa Filho, “uma cidade/ é algo mais que suas ruas./ É algo mais que suas praças./ É algo mais que suas pedras.”.

Se em versos Chico Alves se aproxima da autora de “Navegos”, é através da narrativa que ele se relaciona com o ficcionista Fagundes de Menezes, inserindo-se, com firmeza, como um escritor obcecado pelo mar. O desfecho por vezes inesperado e a linguagem coloquial utilizada, somados ao método do corte de excessos, transparecem o ideal lacônico, semelhante à técnica do carpinteiro que constrói barcos para suportarem a perpetuidade dos oceanos.

Nos oito contos que enfeixam este tomo, temos a cerne humana como linha de base. A ousadia terrena, transitória e fugaz; os conflitos individuais; as agruras e tragédias cotidianas, tudo isso a contribuir para a preservação e enfoque de personagens comuns. O beijo de Marinês, por exemplo, estabelece diálogo com “O romance do pavão misterioso”, cordel de cunho fantástico escrito por José Camelo de Melo Resende.

A figura do vaqueiro João de Ofélia em sua insólita paixão reprimida pelo embargo moral, a presença onírica confirmando que “um sonho”, diz Freud, “é também uma projeção, uma exteriorização de um processo interior.”; em O andarilho, a constatação das transformações pessoais pelo hábil consertador de embarcações Juan de la Cruz, como a carregar nas costas o madeiro das memórias de amores findados. Dolores, por sua vez, por meio de indícios, corrobora a estada cigana no litoral norte do Estado, o texto a fluir feito “conversa de calçada”.

Chico Alves d’Maria é o pseudônimo de Francisco Alves Filho, nascido em Areia Branca/RN (1955), mas morador de Natal. É Engenheiro, poeta, escritor, compositor, cantor e ator.

A influência amadiana se faz presente no tragicômico João da Sereia, pescador de mérito contestável, mas exímio contador de causos. Assim como Quincas Berro d’Água, personagem imoderado, João fatidicamente acaba se tornando, também, lenda local. Com O camelô, a força do passado, enigmático, pela sensibilidade do ambulante Alcebíades. A barcaça de Noé traz o lírico retorno à intertextualidade. Em um solo de infindável seca, o dilúvio bíblico aparenta ser a única solução para a escassez diversa. E, aqui, outra vez, o devaneio para aqueles que não podem sonhar.

Maria Angélica, protagonista da sétima trama, enfrenta, não sem o permissível receio, imposições sociais da época, representando o abandono das limitações ao partir com um circo mambembe. Por fim, O fugitivo, conto histórico ambientado durante a Guerra do Paraguai, mostra o paradoxo do escravo Doaldo, que busca no alistamento a fuga da sua situação de cativo.

Ernest Hemingway, que fez da ilha de Cuba o seu paraíso ficcional, dizia tentar fazer um quadro completo do mundo, ou pelo menos do que viu do mundo. Em “Contos de areia”, Chico Alves d’Maria parece seguir à risca o desafio do autor, perpassando, com sucesso, as ondas do quebra-mar.

Thiago Galdino nasceu em 1993, em Mossoró (RN), cidade onde reside. É autor da novela policial "Suspeitas de um mistério" (Ed. Multifoco, 2012) e organizador da coletânea "Novos contos potiguares" (CJA Edições, 2017), além de ter coordenado a antologia poética "Quarenta em quarentena" (Edição do Autor, 2020), em formato de e-book. Colabora em jornais, revistas, portais literários e mantém o Canal Potiratura, no Youtube. Desde de 2015, é sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP). [ Ver todos os artigos ]

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