“Pra que cantar canções que nunca vão te ouvir?”

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Passei as últimas semanas ouvindo o novo disco de Sufjan Stevens, Carrie & Lowell. Não sei mais o que fazer com tanta tristeza. O milagre do pop é transformar as maiores platitudes em revelações. Eu poderia dizer a mesma coisa da melhor poesia ou das experiências com substâncias que alteram a consciência. Ou das religiões que combinam drogas com experiência mística. E não deve ser fortuito que grandes momentos da música pop tenham resultado de uma combinação entre poesia (nem sempre boa), drogas e algum tipo de êxtase.

Sufjan (pronuncia-se Sufian) Stevens flerta com uma experiência religiosa da qual ele prefere não falar e que ele define em linhas gerais como “cristã”, mas que exala, além do humor aparentemente ingênuo, uma sensualidade típica dos êxtases místicos que o Papa não hesitaria em excomungar: “Íamos à igreja Metodista, porque era a que frequentava minha bisavó. Eu servia de acólito encarregado de acender as velas. Era muito excitante. Na infância, eu queria ser padre ou pastor. Eu estudava a Bíblia e lia passagens do Novo Testamento para a família antes das refeições. Eles aceitaram isso durante um tempo, não sem alguma resistência. Eu era fascinado por aquilo. Tive algumas das minhas mais profundas experiências espirituais e sexuais numa colônia de férias Metodista” (entrevista à revista eletrônica Pitchfork, disponível na internet).

Sufjan (aquele que traz a espada, em árabe e farsi) recebeu seu nome por indicação do guru da comunidade que os pais frequentavam quando ele nasceu há quarenta anos (o pai acabou lhe pedindo desculpas e o autorizando a trocar de nome por algo mais normal e pronunciável). A letra de “Vesuvius” (uma das faixas do eletropsicodélico The Age of ADZ, seu disco anterior) diz bastante sobre essa espiritualidade que mistura vocação messiânica com narcisismo e infantilidade na criação de uma mitologia própria, eclética e muitas vezes, como no caso de Sufjan, bem-humorada. A canção exorta o cantor, chamado pelo nome exótico que ele decidiu manter, a “seguir seu coração, seguir a chama ou se jogar no chão”.

Nunca vou esquecer o show da turnê europeia de The Age of ADZ que eu vi de queixo caído, em Berlim, em 2011, enquanto Stevens pulava no palco, com imensas asas pregadas nas costas ou vestido de Jaspion fosforescente. Carrie & Lowell dá uma guinada de 180 graus, de volta ao universo “indie” do cantor do Meio Oeste americano, abandonando a alucinação psicodélica e a experimentação eletrônica de The Age of ADZ, assim como seu imaginário espacial, de ficção científica mambembe, inspirado no artista esquizofrênico e auto-proclamado profeta Royal Robertson (1933-97). Carrie & Lowell resgata o folk dos discos precedentes, mas já não destila o romantismo pós-Simon and Garfunkel que consagrou Stevens em álbuns como Illinoise. Desta vez, não há concessão artística nem apetrechos; Stevens corta no osso. A voz, o banjo e o piano servem apenas para depurar e simplificar, para dizer o que deve ser dito, por mais herméticas que possam ser as palavras: “Com esse disco, eu precisava sair fora desse ambiente de faz-de-conta. (…) Não estou tentando provar nada nem dizer nada novo. (…) Não é meu projeto artístico; é minha vida” (ainda em entrevista à Pitchfork). Carrie & Lowell fala da morte da mãe do cantor, em 2012: “Pra que cantar canções que nunca vão te ouvir?”, ouve-se em uma delas.

Carrie Stevens abandonou o marido e os filhos quando Sufjan tinha um ano. Diagnosticada como esquizofrênica, sofria de crises de depressão, vivia à base de medicamentos, era alcoólatra e abusava de drogas. O cantor e os irmãos foram criados pelo pai, também alcóolatra, e pela madrasta, em Michigan. Quando Sufjan tinha cinco anos, sua mãe foi viver com Lowell Brams (o Lowell do título do novo disco), um livreiro do Oregon. E durante os cinco anos seguintes, o tempo que durou o casamento entre Carrie e Lowell, Sufjan e os irmãos tiveram mais contato com a mãe do que em qualquer outro período de suas vidas. Muito do que é cantado no disco, como elegia a um paraíso perdido, se refere à imagem da mãe que o músico guardou das poucas férias que passaram juntos, no Oregon, no início dos anos 80.

Carrie & Lowell é ilustrado por fotos dessa breve convivência. São imagens marcadas pelo tempo. Em todas elas, Carrie aparece com os olhos baixos, como se estivessem fechados, o que só contribui para a aura espectral da sua presença. O que se canta aqui é a impossibilidade do amor, ou melhor, as formas contraditórias do amor. E é um verdadeiro deslumbramento: “Quando eu tinha três anos, talvez quatro,/ela nos esqueceu na loja de vídeos./(…) Quando eu tinha três e estava livre para explorar,/ vi seu rosto atrás da porta” (na faixa “Should Have Known Better”).

Como nos poemas místicos, Sufjan Stevens confunde Deus e o objeto do seu amor. Outras vezes, é o próprio cantor que se confunde com a voz da mãe: “Espírito do meu silêncio, eu posso te ouvir/ mas tenho medo de ficar ao seu lado (…). Que canção é essa que você canta para os mortos? (…) Eu te perdoo, mãe, eu posso te ouvir. (…) Você nunca mais vai nos ver” (em “Death With Dignity”).

E esse amor, cujo objeto é tão instável, incorpóreo e fugaz, só pode se expressar por uma falta imensa: “Agora, tudo de mim faz pouco de você/ (tudo de mim quer tudo de você)” (em “All of Me Wants All of You”); “Como é que eu vivo com o seu fantasma?/ (…) Devo arrancar meu coração agora?/ (…) Devo arrancar meus olhos agora?/ Tudo o que eu vejo volta de algum jeito pra você” (em “The Only Thing”); “Assim que tive idade pra falar/ eu disse alarmado/ que uma parte de mim estava perdida na manga/ onde você escondia seus cigarros./ Não, nunca vou esquecer/ que eu só quero estar com você./ (…) Pra que cantar canções/ que nunca vão te ouvir?” (em “Eugene”).

Em “Fourth of July”, é a mãe que afinal o aconselha: “Te deram bastante amor, meu pombinho/ Por que você está chorando?/ Me desculpe se eu fui embora,/ pode não parecer/ mas foi melhor assim,/ meu pequeno Versalhes./ (…) Por que você está chorando?/ Tire o melhor da vida/ enquanto ela for pródiga,/ enquanto ela for luz”.

Quando o casamento com Lowell acabou, Carrie sumiu de novo. Sufjan passou a ver a mãe esporadicamente, na casa da avó, nas raras ocasiões em que calhava de irem visitá-la ao mesmo tempo. Lowell, por sua vez, manteve-se presente na vida dos filhos da ex-mulher. Encarnou a figura do pai. Ele e Sufjan tornaram-se parceiros e, juntos, criaram o selo musical do cantor, Asthmatic Kitty.

Stevens estava no hospital, ao lado da mãe, quando ela morreu, em dezembro de 2012, de um câncer no estômago. Muitas das canções do disco falam da dificuldade desse momento de profunda intimidade e dor ao lado de alguém que no fundo ele não conhecia e por quem nutria os sentimentos mais contraditórios.

Na entrevista à Pitchfork, Stevens diz: “Foi pelo nosso bem que ela nos abandonou. Deus a abençoe por ter feito isso e por ter tido consciência do que ela não era capaz. (…) O amor é incondicional e incompreensível. E eu acredito que seja possível amar sem respeito mútuo”.

Como é que se reconcilia com esse amor? Invocando-o por meio de canções que dariam tudo para ouvi-lo de novo.

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