Praxes

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Estive na semana passada em Lisboa para participar do colóquio “Criar em português: o que pode uma língua?”, na Fundação Gulbenkian. Quase todos os colunistas dos jornais de Lisboa manifestavam-se sobre as “praxes”, que é como eles chamam o trote aos calouros que entram na universidade. Em Portugal os veteranos se vestem de negro, imitando figuras inquisitoriais ou os rituais acadêmicos de Coimbra, e é do alto desse simulacro institucional que submetem os recém-chegados a humilhações físicas e morais que incluem desnudamentos obrigados, vexames sexuais, suplícios corporais. Lá, como no Brasil, o pretexto é o da “integração” entre calouros e veteranos, mas eu sempre detestei tanto essas práticas como seu álibi hipócrita. Acho idiota a cena em que neouniversitários com roupas rasgadas, pintados de batom e penteados de Maria Chiquinha pedem dinheiro e a nossa cumplicidade de classe em algum semáforo de São Paulo, arrebanhados e submetidos pelo sujeito que os mantém sob jugo.

Mesmo que se entenda a insistência universal dos ritos de passagem, e que se considere, como considero, que há ritos libertadores, quando tocados pela graça e pelo “sentimento órfico” a que se referia Oswald, trotes e praxes, entre bobocas e sinistros, levianos e ultrajantes, têm como conteúdo a entrada regressiva num mundo em que o modelo é a submissão e a cabeça baixa sob o poderzinho da vez. É de uma ironia infame que esse costume resista como batismo compulsório em muitas universidades, pesando como uma sombra sobre a suposta ambição esclarecida dessas instituições.

Evidentemente o assunto é litigioso. Há correntes do estudantado que não aceitam essas práticas ridículas e violentas (além de sintomaticamente teimosas), e que propõem outras formas de autêntica integração, embora haja pouca discussão indo ao ponto nodal de como coibi-las. Em Portugal, o recrudescimento do fenômeno parece se dever às novas universidades privadas que veem nas praxes, com a conivência ou o encorajamento de seus dirigentes, uma maneira de se banharem na tradição, fingindo por imitação espúria um pertencimento que as legitimaria.

Mas um fato ocorrido em dezembro é que veio esquentando o assunto em fogo lento até o seu atual ponto de brasa: a morte misteriosa de seis estudantes de uma certa Universidade Lusófona, afogados numa praia, com indícios de que participavam de uma dessas práticas quando foram arrastados pelas ondas (suas vestes rituais, se entendi bem, mais o fato de estarem sem seus celulares, o que configuraria hoje em dia uma exceção suspeita, e de estarem atados a pedras). O único sobrevivente do grupo, diz-se que em estado de choque, não depõe sobre o que sucedeu. Uma lei de silêncio não contestada parece prevalecer ali sobre o acontecimento grupal. Embora a discussão nos jornais seja, em geral, crítica e progressista, esse nó crucial permanece nebuloso. Noto com estranheza que, nesse ponto diferentemente do Brasil, nenhuma autoridade abre um inquérito e promete “investigação rigorosa” das circunstâncias que envolvem as seis mortes suspeitas. Tampouco se reclama isso diretamente. Em Portugal o teatro acadêmico e as vestes negras do século XVII, para arriscarmos uma comparação, parecem falar mais alto do que o teatro carnavalesco e policial do Brasil.

É espantoso, mais ainda, que uma das hipóteses nebulosas sobre as mortes seja a de que os estudantes arrastados pelas ondas estivessem ensaiando para aplicar a praxe em outros, tendo como “dux”, ou oficiante-mór, aquele que sobreviveu e que não fala. Se for assim, estaríamos diante, nem mais nem menos, de uma sinistra piada de português, infame no sentido mais pleno da palavra. Mas, antes de começarmos a rir, impunes, enquanto começam os trotes no Brasil, é bom lembrar, como me contou um psicanalista, daquela elegante resposta de um alfaiate lisboeta, quando inquirido por um brasileiro se eles não faziam também piadas sobre nós: “E precisa?”.

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