O prazer me chama

Por Luiz Schwarcz*
BLOG DA COMPANHIA

Há tempos que as férias têm um significado especial para mim. São o momento em que leio livros que não publicarei, que não estou examinando para este fim, em que não preciso interferir de alguma forma. Por vezes tenho usado esse tempo também para ler os livros da Companhia que não passaram por minhas mãos antes de sair e nos quais participei apenas eventualmente em etapas posteriores, como na comercialização ou promoção, por exemplo. É raro eu levar para as férias algum título que me faça ter que pensar em atitudes que precisarei tomar. Há três anos quebrei essa regra, pois decidi ler as memórias, ainda inéditas, de Salman Rushdie sobre a fatwa — um livro enorme, cuja leitura dividi com a de Guerra e Paz. Eu estava em Itacaré, na casa de amigos que haviam viajado para fora. Pelas manhãs, eu lia a ótima tradução do calhamaço de Tolstói feita por Rubens Figueiredo e publicada pela Cosac Naify, e de tarde eu atacava no iPad os originais de Joseph Anton.

Antigamente, nós tínhamos uma pequena casa num condomínio no litoral norte de São Paulo, onde conseguíamos passar janeiro inteiro. Hoje, não entendo como eu fazia para sair por tanto tempo e me desligar completamente, mas lembro que conseguia, de fato, me afastar. Minha rotina era acordar, correr na praia, tomar café com a família e, ao voltar para a praia, com a Júlia e Pedro ainda pequenos, carregava comigo livros volumosos e com eles me instalava debaixo do guarda-sol. Meu hábito de dar um mergulho no mar, intercalado por algumas dezenas de páginas de leitura, deu origem a gozações generalizadas. Um vizinho, pouco chegado à prática da leitura, me gozava dizendo que eu lia a lista telefônica na praia. No começo eu achava graça na brincadeira, ou talvez nem no começo — a piada vinha com um ranço anti-intelectual que me incomodava profundamente. Atualmente, acho que veria as coisas de um jeito diferente. O contexto atrapalhava: eu sempre fui o pior homem do mundo para a vida de condomínio. Era considerado pelos vizinhos um sujeito antipático e antissocial. Com razão. Não gosto de observar os outros nem de ser observado. Eu viajava para ficar com a minha família e consumir clássicos que me penitenciava por nunca haver lido, e que devorava com avidez. Aproveitava o mar com entusiasmo, mas à minha maneira.

Desde sempre, praia e férias são quando me ocupo lendo horas a fio, sem interrupções, momentos nos quais me policio para não pensar que cortaria Irmãos Karamázov ou Guerra e Paz, (sic), que faria uma capa diferente para tal ou qual livro.

Neste ano fui com a família inteira, incluindo genro, nora e netas, para uma praia no Ceará. Meu tempo se dividiu da mesma forma. Mergulho no mar pelas manhãs, corrida de tarde, na hora da maré baixa, e leitura na piscina e nas redes do hotel o resto do tempo.

Assim, este ano comecei as férias no avião para Fortaleza devorando um livro que ganhei do meu filho Pedro, o clássico húngaro de Gyula Krúdy, O Companheiro de viagem, também editado pela Cosac. A escrita é memorável, a tradução, excelente, e assim o livro abriu maravilhosamente meus dez dias de descanso. Como era ainda o período em que procurava me desligar da minha vida de editor, por vezes me peguei pensando que capa eu faria para o livro.

Meu plano inicial para as férias era ler Vida e destino, de Vassili Grossman, publicado pela Alfaguara. Acabei capitulando e deixei o herdeiro de Tolstói para outra semana de descanso, que ainda vou tirar perto do Carnaval. O livro que entrou no lugar foi O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, edição brasileira da Boitempo. Em comum com minhas leituras tradicionais, o livro do escritor cubano tem o largo número de páginas e o fôlego da empreitada. Construído com maestria literária, o painel da vida de Trotsky, paralelo à vida de seu assassino, Ramón Mercader, permite entender parte terrível da história do comunismo na Rússia, mas vai além disso. A Europa da Guerra Civil, a ascensão de Hitler e todo o jogo geopolítico que irão culminar na Segunda Guerra Mundial aparecem no livro. Compartilhei a leitura da “lista telefônica” da vez com um livro antigo publicado pela Knopf sobre Leni Riefenstahl, a cineasta dos documentários que engradeceram o Terceiro Reich. Por puro interesse pessoal, deliciei-me com o livro de Steven Bach, Leni, the life and work of Leni Riefenstahl, em que a personalidade da bailarina, atriz e por fim diretora dos filmes de propaganda nazista é apresentada junto com a história da subida de Hitler ao poder. A combinação com o livro de Padura não poderia ter sido melhor. De manhã um, de tarde o outro, fórmula aprovada em outros verões. Por fim, dediquei-me a conhecer a obra de Murakami, começando por Norwegian Wood. A delicadeza do texto, extremamente literário, não poderia ser maior. Cada livro abre um novo universo, e sair dos expurgos de Stalin ou da propaganda de Hitler para entrar numa história de amor extremamente melancólica e japonesa é um dos grandes baratos da literatura.

Espero terminar o texto de Murakami, que teve o azar de entrar já no final das férias. Larguei muitos livros nessas circunstâncias, sem poder voltar a eles. Agora, no primeiro fim de semana pós-férias, três livros encontram-se em minha cabeceira e mesa de trabalho. Norwegian Wood terá que dividir meu carinho devorador com outros eleitos, que lerei com a mesma atenção, mas com a tarja invisível de “O dever me chama!” embalando os ditos cujos. Por sorte, no caso, dever também é sinônimo de prazer.

P.S.: E você, leitor, quer aproveitar este espaço para comentar suas leituras de férias?

* A partir de fevereiro, a coluna volta a ser publicada na primeira quinta-feira do mês.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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