Preciosa carne barata: Elza Soares

Elza Soares apresenta um espetáculo no Bar Brahma, mitológica esquina da Av. Ipiranga com a Av. São João (São Paulo, SP).

Sua voz áspera passeia docemente por samba, blues, salsa, jazz, baião. Clássicos como “Se acaso vc chegasse” se misturam com a tensão de versos como “A carne mais barata do mercado é a carne negra” – isso cantado bem por uma negra eleva à milésima potência o que está sendo dito.

Se Ângela Maria e Elis Regina trazem a certeza da bela nota precisa, Elza Soares (Maria Bethânia e Aracy de Almeida, dentre outras) apresenta/m o risco do erro, que não acontece e se metamorfoseia em outra beleza ainda mais inesperada.

Elza sofreu cirurgia na coluna, caminha com dificuldade até o palco, amparada por auxiliares. Quando começa a cantar, é mais que Jesse Owens – também negro, também campeão. Cantar é mais que pernas, engloba cérebro e a tal da alma, mais uma forte dose de útero – os portadores de testículos, eu inclusive, que me perdoem mas a mulherada canta mais desvairadamente, em termos poéticos,  que quase todos os homens, com as exceções de praxe: Mário Reis, Cauby Peixoto, Agostinho dos Santos, Louis Armstrong…

Negra, muilher, brasileira. Mas a Arte transcende tudo isso, vira branca, homem, ianque, afro-baiana carioca… E retorna fêmea, qualquer cor, qualquer lugar.

Existe vida inteligente na música popular. Idosa, baixinha, no palco é gigante moleca. Beleza pura. Obrigado, Elza.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Danclads Lins de Andrade 15 de novembro de 2012 12:23

    Marcos, como as outras granes vozes que citastes, Elza ultrapassa quaisquer rótulos e voz áspera dela, brincando com o risco do erro, realmente nos brinda com uma beleza inesperada.

  2. Ednar Andrade 15 de novembro de 2012 11:02

    Bom dia,Tácito,amado amigo.

    SAUDADES…………

    precisamos nos ver por aí….Beijos!Beijos também para D*.

  3. Ednar Andrade 15 de novembro de 2012 10:56

    ” Cantar é mais que pernas,”

    (Marcos Silva)

    Eu concordo e acrescento: cantar é chorar poesia…Elas choram e dizem do amor em-canto…

    Bom dia,Marcos,bom dia,todos.

    Bom dia,poesia!!!.

  4. DAMATA 14 de novembro de 2012 20:09

    Vem vem Elza
    Divina cantriz
    Todos timbrelezas
    Negra e bela
    Mulher e eu Mané
    Do Pau Grande.

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