Precisamos de “abrazos” e não de golpes

Por Tácito Costa

É curioso como em alguns momentos do dia-a-dia certas coisas confluem, como se existisse uma pequena conspiração invisível para que isso aconteça. Ontem, domingo, resolvi ficar longe da internet. Então, logo cedo iniciei a leitura do livro de ensaios de Herta Müller, “O rei se inclina e mata”, tomado emprestado do poeta Demétrio Diniz, que falou-me dele com entusiasmo, enquanto dava a hora de ir ao Barracão dos Clowns assistir “Abrazo”, novo espetáculo do grupo, encenado aos sábados e domingos às 11 horas (o próximo final de semana encerra), inspirado em o “O Livros dos Abraços”, de Eduardo Galeano.

Herta Müller, vocês recordam, é a Nobel de Literatura de 2009, que nasceu na Romênia e viveu parte da vida sob a ditadura de Nicolae Ceauşescu. Dela li o romance “Hoje preferia não me ter encontrado”, leitura que indico – em vão, tenho consciência disso – para os iletrados e ignorantes e fascistas que tem saído às ruas pedindo um “golpe institucional militar” no Brasil. A esses o governo deveria obrigar a um estágio de um ano, renovável por mais um, dependendo de exames psiquiátricos, em uma das ditaduras existentes no mundo hoje, cabendo ao inocente útil escolher entre as mais notórias, como China, Cuba, Coréia do Norte, Arábia Saudita, Irã, Egito ou Síria.

Deu tempo de ler apenas um dos ensaios, “Em cada língua estão fincados outros olhos”, que trata do uso da linguagem pela ditadura de Ceauşescu – de resto comum a todos os regimes totalitários, como ela reforça. “Quando na vida nada mais está em ordem, as palavras também despencam. Pois todas as ditaduras, seja de direita ou de esquerda, ateístas ou divinas, empregam a língua a seu serviço”.

Não li “O livro dos Abraços”, de Galeano, e também não tive tempo de me informar melhor sobre a peça dos Clowns antes de assisti-la. Vi no Facebook, de raspão, que se tratava de uma peça infantil. E, por isso, não me interessei. Mas depois recebi uma simpática e estranha carta – só o fato de escrever carta e deixar em domicílio nos dias de hoje já é bem esquisito – convidando-me para o espetáculo. Uma informação fez-me mudar de idéia. “Porém, é crucial avisar que, em se tratando de uma ação insubordinada e de enfrentamento resolvermos disfarçar o espetáculo de ‘teatro infantil’. Foi o que bastou pra me tirar de casa às 11 horas da manhã de domingo.

De fato, “Abrazos” tem pouco de espetáculo infantil convencional, pelo menos daquilo que estamos acostumados a reconhecer como tal. Trata de temas duros, como repressão, ditadura e guerra de forma lúdica, dispensando a linguagem verbal, mas usando recursos corporais e cênicos que tornam acessível, para crianças e adultos, o que realmente quer comunicar, de como a falta de afeto, tolerância, amor etc – e de abraços – está tornando mais árida e sofrida a vida de todo mundo.

Era assistindo a peça e lembrando da escritura de Herta Müller e do pequeno grupo – em privado a idéia tem muitos simpatizantes – que tem saído às ruas defendendo o retorno da tirania.

Surpreendeu-me a atualidade de “Abrazos”, que deve ser vista por crianças e adultos porque todos precisamos de antídotos contra a besta fera à espreita.

Dica: no último domingo o Barracão lotou e algumas pessoas não conseguiram assistir a peça. Então, reserve seu ingresso com antecedência.

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