Precisamos falar de nossa cultura do estupro

Nunca antes senti tanta vergonha, nojo e tristeza por ser um homem cisgênero.

Não importam os esforços de desconstrução que levo adiante há anos; as leituras e reflexões que fiz; as discussões e trabalhos sobre gênero que estimulei em sala de aula; as autocríticas constantes. Todas as expressões “inocentes” carregadas de machismo que já usei sem problematiza-las; todos os julgamentos estéticos e comportamentais de mulheres em conversas com amigos que já fiz em meus anos de juventude; todas as vezes que, sem percebe-lo, diminui as conquistas de minha mãe porque no fundo a considerava intelectualmente inferior ao meu pai e a mim (foi assim durante anos, antes que começasse a refletir criticamente sobre essa atitude e a mudar minha percepção); todas as vezes que não dei importância aos reclamos, às chateações, às expectativas de minha mulher considerando-os “chiliques” ou produtos da TPM; todos os pensamentos e comportamentos machistas que, ainda que inconscientemente, tive ao longo da minha vida estão cravados a ferro e fogo em cada violência sexual, física, psicológica e simbólica sofrida por qualquer mulher em qualquer lugar do mundo.

Diante do que assisto nestes dias, só consigo sentir culpa e desejo de me esconder debaixo da terra.

Tenho uma proposta e sei de antemão que está fadada a cair no vazio, mas a lanço mesmo assim. Sugiro que os homens que abraçaram a luta contra a cultura do estupro – me incluo na categoria – e que têm honestidade ética e intelectual suficiente como para não acreditar que simplesmente por isso não são machistas, que têm consciência de que a desconstrução é permanente promovam uma campanha para escancarar seu próprio machismo cotidiano, nosso machismo de cada dia…assim como a campanha #‎MeuAmigoSecreto‬ fez, mas desta vez como autodenúncia, como autorreflexão crítica sobre as atitudes, os comportamentos, os pensamentos, os usos da linguagem com que diariamente, na maioria das vezes sem perceber, praticamos violência simbólica e/ou psicológica contra as mulheres. A campanha poderia se chamar#‎MeuAmigoSecretoSouEu‬. A dica está dada.

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