Preconceito ou desinformação?

Ou os dois? Ou, ainda, provincianismo? Bom, não sei se vocês sabem (e aqueles que são leitores assíduos do SP talvez consigam lembrar), mas 2010 marcou os 50 anos de carreira do quadrinhista Maurício de Sousa, artista e empresário responsável pela formação de algumas gerações de leitores, num país pouco afeito a esse tipo de atividade, a despeito dos esforços do neo-racista Monteiro Lobato.

Para marcar a data, sua editora organizou um álbum-tributo, o MSP 50 – Maurício de Sousa por 50 artistas, um apanhado de quadrinhistas brasileiros que já seria um clássico se contasse apenas com a história de 5, 6 páginas de abertura, feita pelo Laerte. O sucesso de público e crítica foi tanto que ensejou o lançamento de outro álbum, o MSP + 50.

A iniciativa, além de render belíssimos trabalhos sobre o universo de personagens criados por Maurício de Sousa, possibilitou um mapeamento do que há de mais interessante no quadrinho nacional – além de mostrar a um grande público (muitos dos quais ainda em formação como leitores) a diversidade dessa arte no Brasil.

Por isso, nada mais natural que houvesse uma certa expectativa em relação ao anúncio dos artistas selecionados para um terceiro – e último volume. O burburinho entre quadrinhistas e leitores foi grande quando o editor Sidney Gusman foi soltando pelo twitter, durante a última semana, os integrantes da lista – rede social da qual Maurício de Sousa é um usuário fiel, ressalte-se.

No primeiro dia, para surpresa e gáudio dos paraibanos, dois artistas daqui apareceram entre os 10 primeiros nomes divulgados. O ‘veterano’ Mike Deodato, estrela atual da Marvel Comics, e Shiko, um cara invocado que vocês precisam prestar atenção. A notícia (sim, isso é notícia) foi destaque nos jornais locais e um dos principais periódicos da capital, o Correio da Paraíba, deu uma matéria de capa bacana com os caras.

Entre os 100 primeiros selecionados, apenas um norte-rio-grandense: Willandi, que participou do segundo álbum. Não é bem um sinal de falta de qualidade entre os ‘fazedores’ locais. Para chegar até as mãos de um editor lá em São Paulo, o trabalho deles precisaria, antes de tudo, ser impresso, ter uma certa qualidade editorial e circular. Uma oportunidade que tem faltado e já há um bom tempo para os quadrinhistas potiguares. Na sexta-feira, entre os 10 últimos nomes, a surpresa: entre eles estava Márcio Coelho, que inclusive chegou a publicar tiras num jornal local.

Bom, é terça-feira e, fora o Jornal de Hoje, que não consulto há um tempão, nenhum jornal ou site informativo da cidade sequer noticiou o fato ao menos com um notinha roubada de algum outro veículo. Nem os blogueiros céleres e treinados para detectar os movimentos do vento. Nonada.

Os quadrinhos brasileiros vêm passando por uma transformação durante os últimos anos. Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos, escreveu um artigo esclarecedor sobre a década que se encerra (http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/). Leiam, se interessar.

O próprio Maurício de Sousa sentiu isso e, no embalo dos três volumes MSP, comentou na Rio Comicon os planos de lançar uma revista voltada para o material autoral dessa nova geração de artistas brasileros. Não se enganem: apesar da cara e do jeitão de velhinho gente boa, Maurício é um grande e bem-sucedido empresário, que tem crescido durante um período ruim comercialmente para quase todo mundo. Ele não quer fazer caridade na aposentadoria. Apenas enxergou uma boa oportunidade de negócio.

O fato de um artista potiguar estar entre os 50 selecionados para este último álbum precisa ser visto dentro deste contexto e há ainda uma série de fatores locais que contribuem para isso. Um deles é a reorganização dos quadrinhistas potiguares em grupos e núcleos de produção – e um importante ator nesse processo é um velho conhecido nosso, o GRUPEHQ. Não à toa, até um dia desses, o presidente da associação era justamente o Márcio. Talvez ainda seja.

Decerto se não fosse pela retomada da publicação da Maturi, dificilmente teríamos esse herói da resistência entre os 50 convidados.  A revista, criada em 1976 e ainda na luta, ressurgiu em quatro números com muitos trabalhos interessantes, ainda que não tão excepcionais, e um apuro técnico esse sim invejável.

Forçasse um pouco mais a vista, a imprensa potiguar poderia ter comentado, ainda, a inclusão do veterano Watson Portela, que ajudou a formar vários desenhistas potiguares e aqui acolá passava umas temporadas por Natal. Participou, inclusive, da melhor revista produzida até hoje no RN, Guerreiros das Dunas.

Mas aí, Tácito, já era querer um pouquinho demais. Tô aqui tentando, pelo menos, corrigir essa injustiça.

o fato

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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