prefácio para anti-jornalismo

Orson Welles

Nada há de mais obtuso que o compromisso com a verdade. E, ao contrário do que se pode pensar, aquele que com ela se compromete não pode de forma alguma considerar-se pretensioso, muito pelo contrário: a verdade é a letargia máxima: o arranjo perfeito – formador de lentes viciadas e impotentes, o sub-reptício pacto com a realidade suposta, o assassínio sutil daquilo que de mais singular possuímos: a possibilidade criativa.  Ora, se a experiência é irrepetível, e os acontecimentos não sabem ser traduzidos com excelência, toda história é ficcional em alguma medida, e o exercício jornalístico de compromisso com a verdade nada mais é que a adequação ficcional da história com base no mapa do possível. Sei que Hunter Thompson entende quando eu falo: há que o olho sentir a história, inventá-la, não só vê-la. A grande pretensão é mesmo esta: destruir a narrativa da verdade a partir da superação da realidade hermética, abraçar o real vasto, dar-se conta do mundo plural.

Ao ler a Guerra dos Mundos como se fosse uma notícia, numa rádio americana para uma população apavorada, Orson Welles não só desvirtua a realidade como também desvela seu caráter extremamente institucional: afinal, se os americanos acreditaram que o país estava sendo invadido por marcianos pelo simples fato de terem ouvido isso no rádio, é porque teriam acreditado em qualquer coisa que o rádio dissesse – ou seja, há não só o delírio de compromisso com a verdade como também a instituição responsável pelo serviço, e a essa instituição, devidamente avalizada pela sociedade, cabe reconhecer o que é e o que não é verídico. Mas ninguém é besta de cair naquela de que junto a esse exercício de “verificação da realidade” vem a responsabilidade da “isenção” (ou é?). É inconcebível imaginar a isenção como nível possível de relação: mesmo quando optamos por não nos posicionarmos, as coisas nos espetam, e por mais que tentemos mascarar o que sentimos, fica evidente que não podemos passar incólumes pela vida, que, pelo contrário, nos atravessa e deforma e atravessa e atravessa.

Também não é possível que ninguém Veja o quão falidas são as Globais corporações midiáticas em seu demagógico compromisso com a verdade e isenção! Francamente! chega a ser ridículo repetir que não deveríamos vestir a lente do Fantástico, mas insisto.

No entanto, com o contemporâneo estilhaçamento das mass mídia, pode-se perceber uma reformulação emergente desse paradigma: protagonismos fluidos, horizontalidade e contexto midiático dialógico (onde tudo pode ser questionado e revisto a todo tempo). Nesse novo cenário, a informação, que antes estava detida nas mãos do business, passa a poder ser veiculada por qualquer um que tenha acesso a internet e uma conta no Twitter. Assim, por mais que essas informações não configurem um fato, por mais que sejam pura ficção, o efeito que causam é o de um fato propriamente, já que a partir delas desdobram-se acontecimentos não-ficcionais na vida de quem as recebe. Por exemplo, os chineses que, cientes da forte censura a informações que sensibilizem o regime, preferem acreditar naquilo que os usuários do Weibo (o “Twitter” chinês) veiculam do que no conteúdo oficialesco das mass mídia. Aí, os rumores são uma ferramenta potente na guerra simbólica, capaz de despertar autorevoluções e mesmo moções contra o totalitarismo camuflado do Partido. Nesse sentido a informação assume outro papel: não revela, mas suscita movimentos vitais. Não há verdade, o que há é um ou outro arranjo capaz de produzir um ou outro efeito social. Tudo é invenção. E ao indivíduo, consumidor dessa torrente informacional, cabe a heresia, e o esforço crítico para ter as informações como catalisadores e não como zonas de conforto.

post-scriptum a propósito de #natalemchamas: queimaram ônibus, pilharam automóveis, esvaziaram o prédio da prefeitura e tomaram o controle da cidade, saquearam lojas, interromperam ruas e projetaram fumaça no céu, derrubaram a polícia e estão avançando para a governadoria, pixaram os outdoors, queimaram os jornais nas bancas, libertaram os estudantes das escolas, puseram a baixo as emissoras de tevê, dois aviões contra os reis magos, pende sobre mirassol a frondosa árvore de lâmpadas, os aeroportos estão abarrotados, deram alforria aos assalariados, mandaram todos os gringos de volta para casa, dançaram no meio do engarrafamento, magnatas foram vistos fugindo, mães fecharam as portas, rumores chineses proliferam o susto, automóveis fora de rota, o silêncio da noite encobre a histeria nos bares, balas perdidas procuram a rua de casa, pais em surto, explodem microbombas natal, não chove, um bêbado dança, um louco dança, um lobo dança, flores do kaos.

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