Prêmio da ABL recebe críticas

Por Guilherme Freitas
Prosa e Verso – O Globo

Com entrega marcada para dia 20, o prêmio literário de tradução da Academia Brasileira de Letras tem provocado polêmica entre os profissionais da categoria desde o anúncio, em junho, do vencedor: o pernambucano Milton Lins, pela série em três volumes “Pequenas traduções de grandes poetas”, com versões de originais em inglês, francês e espanhol. Elogiadas pelo júri formado pelos acadêmicos Carlos Nejar, Ivan Junqueira e Evanildo Bechara como “preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI”, as obras foram criticadas por tradutores, que apontam erros básicos em diversos textos da série, editada por conta própria por Lins.

Os primeiros protestos vieram da tradutora Denise Bottmann, autora do blog “Não gosto de plágio” (<http://naogostodeplagio.blogspot.com/>), que listou uma série de erros básicos de vocabulário, como no poema “Zona”, de Apollinaire, no qual a expressão “les hangars de Port-Aviation” (os hangares [do aeroporto] de Port-Aviation) vira “o hangar de algum Porta-Avião”. Denise criticou também escolhas “infelizes” de Lins, como em “Vénus anadyomène”, de Rimbaud, onde o verso “Belle hideusement d’un ulcère à l’anus” é vertido como “Tem úlcera — que horror! — ao pé do fiofó”. As críticas foram endossadas por outros tradutores, como Jorio Dauster e Ivo Barroso.

Em entrevista por e-mail, Denise lamenta a posição pública tomada pela ABL:

— Entendo que o prêmio de tradução de 2010, concedido a uma obra que nada tem de plágio, mas que peca por falta de requisitos mínimos de qualidade tradutória, é um acinte. A ABL deu uma bofetada em público no ofício da tradução, perante toda a sociedade — diz Denise.

O prêmio de tradução da ABL, que confere R$ 50 mil ao vencedor, foi entregue desde 2003 a profissionais de renome, como Boris Schnaiderman, Eduardo Brandão e Bárbara Heliodora. Procurada pelo GLOBO, a ABL preferiu não comentar as críticas.

Se por um lado lamenta a decisão da ABL, Denise elogia em seu blog iniciativas de editoras que têm demonstrado maior reconhecimento aos profissionais do meio. Comemora a decisão da Civilização Brasileira de publicar uma página com perfis dos tradutores do recém-lançado “Papéis inesperados”, de Julio Cortázar (Ari Roitman e Paulina Wacht), prática já habitual na editora Hedra:

— A médio e longo prazo, boa parte da credibilidade de uma editora se funda na qualidade de suas traduções.

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